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A última utopia na fronteira colonial

Lúcio Flávio Pinto & Charles R. Clement - Fevereiro 2018
 



Há vários anos apresento minha última utopia para buscar uma saída para a Amazônia que não seja a bitola que lhe foi imposta há muitos anos: a expansão da fronteira pelo desmatamento, após o qual se estabelecem atividades produtivas destinadas à exportação de matérias-primas. Ou seja: uma fronteira colonial. A resposta tem sido o silêncio absoluto.

De Manaus, Charles R. Clement, biólogo, um dos mais antigos pesquisadores da região, do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), aceitou o convite para refletir sobre a proposta. Seu texto, na forma de uma carta, a seguir, confirma as qualidades do seu autor: penetrante, profundo e provocador. Talvez consiga, com a crítica que fez, atrair mais pessoas interessadas nesse debate.

Caro Lúcio, 

Quando você estava detalhando sua “última utopia” como contraponto à sua análise certeira da “fronteira colonial”, eu estava terminando um ensaio que mostra o contraste entre o passado indígena e o subdesenvolvimento atual, intitulado “Da domesticação da floresta ao subdesenvolvimento da Amazônia”.

Sua última utopia tem muito a ver com a floresta domesticada pelos povos nativos da Amazônia ao longo dos últimos 10 mil anos, pois você sonha que a sociedade moderna pode desenvolver a Amazônia com a floresta em pé, com respeito à natureza, aos povos indígenas e tradicionais, etc. Eu também gosto deste sonho. No entanto, sua análise da fronteira colonial e minha do subdesenvolvimento sugerem que vai ser difícil chegar lá desde aqui.

Os povos nativos domesticaram tanto plantas como florestas, às vezes de forma concomitante. Pense nos castanhais, nos açaizais (especialmente os açaís branco e chumbinho do estuário), nos bacabais, nos cacauais, nos tucumazais etc. Eles também domesticaram mandioca, batata doce, cará, taioba, abacaxi, abiu, biribá, pupunha etc., que plantavam em roças e quintais. Na época da conquista europeia, a Amazônia tinha mais floresta do que roça, a população era bem alimentada e saudável, e, sobretudo, era muito abundante.

Não sabemos quantas pessoas viviam na Amazônia naquela época, mas o padre João Daniel fala que foram “descidos” (escravizados) pelo menos 3 milhões de pessoas somente da bacia do rio Negro, frequentemente chamado do rio da fome porque suas águas são pobres em nutrientes. Se os portugueses podiam escravizar 3 milhões de pessoas de um rio de água preta, imagina quantas pessoas deveriam ter vividas ao longo dos rios de água branca!

Evidentemente, a Amazônia não era uma utopia, pois os povos nativos são gente como a gente, bons de briga e intriga, ficavam doentes de vez em quando e certamente tiveram chefes chatos.

Esta Amazônia foi transformada na fronteira colonial que você tão bem retratou e, inspirado em sua análise ao longo de 40 anos, é que eu chamei de subdesenvolvida, que nada mais é do que o termo politicamente correto para a colônia. Os brasileiros, aqueles que vivem na parte geográfica do país que declarou independência de Portugal, e especialmente aqueles que vivem em Brasília, acreditam piamente na velha propaganda da época militar: integrar para não entregar. Não existe integração coisa alguma! A Amazônia passou de colônia de Portugal para colônia de Brasil em 1823, e nunca houve integração política, econômica ou social de verdade nos 200 anos de lá pra cá.

Por que essa integração é importante? Porque para chegar à sua última utopia precisamos da ação do governo central, mesmo que este governo não possa pagar toda a conta, como você observou. Por que os governos estaduais não podem substituir o governo central? Porque nossas lideranças políticas são colonizadas também, anestesiadas pelos últimos 50 anos de propaganda do governo central sobre a integração imaginária do Brasil.

Sempre que querem fazer algo em prol de seus Estados, a primeira ação é ir a Brasília de pires na mão em lugar de se organizar aqui. Quando não recebem o que pedem, voltam para casa e pronto. Com o atual governo central é pior ainda, porque este governo aprovou a emenda constitucional que limita a expansão do orçamento central, deixando menos para ideias inovadoras de desenvolvimento, como sua última utopia, e menos para os Estados e municípios.

Mas no sonho tudo é possível, então vamos sonhar que o governo seja federal em lugar de central e vá contribuir, e mais ainda, vai ajudar a encontrar recursos internacionais. A próxima pergunta é se a comunidade de ciência e tecnologia (C&T) tem o que é necessário para viabilizar sua última utopia?

Em termos numéricos, acho que tem, pois nas últimas duas décadas o número de pesquisadores com qualificação aumentou muito na região e o número de universitários também, com a expansão do número de universidades federais, estaduais e privadas. O problema é ideias viáveis que possam gerar resultados a curto e médio prazo, os primeiros 20 anos que você corretamente identificou com sendo críticos.

O que é uma ideia viável? É uma ideia que pode ser implantada rapidamente, gerar benefícios locais e ser replicável em muitas partes da Amazônia. O número de ideias que podem ser implantadas rapidamente é grande. O problema é que a maioria não é replicável mesmo se geram benefícios locais.

A razão é que cada ideia depende não apenas do grupo de C&T que vai colaborar com comunidades locais para implantá-la, mas de infraestrutura de escoamento, estocagem, beneficiamento adicional, comercialização e exportação. Todos os seus leitores sabem que são os “custos do Brasil”, que nada mais são do que os custos de subdesenvolvimento, e se trata exatamente dessa infraestrutura.

Na Amazônia, estes custos são maiores ainda, pois a região é mais subdesenvolvida do que outras partes do país, como você comentou na “Fronteira colonial”. Se implantar uma rede de kibutzim científicos será caro, resolver a infraestrutura de apoio para que essas ideias geram benefícios locais e nacionais será mais ainda. Mas, já que estamos sonhando, é fácil resolver.

De aí vem outra pergunta: que tipos de ideias a comunidade de C&T pode oferecer? No seu ensaio sobre a última utopia, você lembrou dos zoneamentos ecológicos e econômicos (ZEE) do governo central e dos estados. Os ZEEs foram criados com os conhecimentos e as perspectivas da época em que foram desenhados. Por isto, eles estão focados em amenizar os impactos socioambientais das atividades econômicas convencionais — pecuária, soja, fruticultura, aquicultura, extração pesqueira, madeireira e mineral, etc.

De onde vêm os conhecimentos e as perspectivas usados nos ZEEs? Da comunidade de C&T. Ou seja, essa comunidade é boa em apoiar as atividades econômicas atuais, o que não surpreende, porque o governo central planeja e investe para que seja assim. Pense na Embrapa, que eu diria é nossa instituição de C&T mais importante e bem-sucedida.

Mas a maioria de suas pesquisas é para apoiar o agronegócio e pouco vai para ideias alternativas. É a lógica do sistema. Isto azeda o sonho, pois vai exigir novos investimentos em criar uma geração dentro da comunidade de C&T que possa orientar todos os novos mestrandos e doutorandos da última utopia em ideias alternativas.

Aí 20 anos não é mais viável, pois precisamos de pelo menos 10 anos para formar esta turma, assumindo, logicamente, que a comunidade de C&T tem a capacidade de fazer isto. Dada a composição atual da comunidade, acho que 10 anos é um novo sonho.

Num livro de 2015, Sapiens – uma história curta da humanidade, Yuval Harari comenta que “Homo sapiens domina o mundo porque é o único animal que pode acreditar em coisas que existem apenas em sua própria imaginação, tais como deuses, estados, dinheiro e direitos humanos”. E utopias. Os direitos humanos são uma utopia que começou a ser construída no século passado. Ainda tem muito para fazer, mas mostra que uma ideia pode estimular as pessoas.

Sua última utopia é como a ideia dos diretos humanos 100 anos atrás. Foi proposta, mas ainda não encontrou adeptos. Mesmo que eu tenha identificado buracos no tecido de sua última utopia, a ideia vale tanto por si só, como porque a alternativa é mais desmatamento, menos diretos humanos para amazônidas e mais subdesenvolvimento para todos. A questão é como chegar lá desde aqui? Infelizmente, não tenho uma resposta.

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Lúcio Flávio Pinto é o editor do Jornal Pessoal, de Belém, e do blog Amazônia hoje – a nova colônia mundial. Entre outros, é autor de O jornalismo na linha de tiro (2006), Contra o poder. 20 anos de Jornal Pessoal: uma paixão amazônica (2007), Memória do cotidiano (2008) e A agressão (imprensa e violência na Amazônia) (2008).

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Fonte: Jornal Pessoal & Gramsci e o Brasil.

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