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É indispensável construir um novo partido de esquerda

Carlos Nelson Coutinho - Maio 2004
 

À frente da editora da UFRJ desde o segundo semestre do ano passado, o filósofo Carlos Nelson Coutinho comemora o lançamento de Marx (sem ismos), de Francisco Fernández Buey. É o primeiro passo de um projeto pessoal do editor: uma série de publicações de autores marxistas. Georg Lukács, José Carlos Mariátegui, Domenico Losurdo e Jacques Texier são nomes que já estão marcados para ampliar o catálogo da editora. Mas Carlos Nelson Coutinho, um dos maiores especialistas em Gramsci no Brasil, deixa claro que não quer priorizar nenhuma linha de pensamento:

- Não quero fazer da Editora UFRJ uma editora marxista. Acredito no pluralismo - afirma.

No que ele parece não acreditar mais é no PT. Após 15 anos de militância, o marxista convicto deixou o partido, acompanhado por Milton Temer e Leandro Konder. Para o filósofo, a esquerda brasileira não consegue articular socialismo e democracia. E o PT teria abandonado o projeto socialista que o guiava desde sua fundação. Junto a outros dissidentes, Carlos Nelson Coutinho está empenhado em formar um novo partido, que tenha como meta combinar a luta pelo socialismo com o aprofundamento da democracia.

Enquanto não acontece a nova formação, ele continua rodeado por livros e por novos projetos relacionados à obra de Gramsci. E aumenta o tom de suas críticas ao governo Lula.

- Estou decepcionado. Acho que, como diria Francisco de Oliveira, estamos no terceiro governo da “era FHC” - dispara.

Entrevista concedida a Paula Barcellos.

Como funciona uma editora universitária? Por que há interesse em transformá-las em fundações?

Existem no Brasil mais de 100 editoras universitárias. Nem todas funcionam do mesmo modo. Há as que publicam 100 livros por ano (caso da Editora da Unesp) e as que publicam um ou dois, quando publicam. A Editora UFRJ tem publicado cerca de 20 títulos por ano. Essa diferença de porte dificulta uma política unitária, malgrado os esforços da Associação Brasileira de Editoras Universitárias (Abeu). Decerto, todas têm muitos problemas em comum, entre os quais se destaca a questão da distribuição. Os livros que publicamos chegam com muita dificuldade, quando chegam, às livrarias, até mesmo àquelas dos grandes centros. Independentemente do modo de funcionamento (umas terceirizam todo o trabalho, outras utilizam uma equipe de funcionários estáveis, etc.), este problema da distribuição é um dos obstáculos à ação de todas as editoras universitárias. A má distribuição nos obriga a ter tiragens pequenas, o que encarece os livros, levando a maioria destas editoras a trabalharem no vermelho. Dependemos assim da generosidade de quem controla os recursos, os quais, como se sabe, são muito escassos. Não sabemos previamente de quanto vamos dispor, não temos um orçamento, o que impede que planejemos o trabalho. Quando as editoras universitárias são fundações - e há algumas que o são, precisamente as mais bem-sucedidas -, isso permite dispor de recursos próprios, o que possibilita ter pelo menos algum planejamento e um mínimo de previsibilidade. Estamos tentando transformar a Editora UFRJ numa fundação.

O senhor acabou de publicar o livro Marx (sem ismos), de Francisco Fernández Buey. Junto à publicação, haveria uma tentativa de tentar recuperar a figura do Marx ou desmistificar a suposta falência do marxismo?

Uma editora universitária deve se orientar pelo pluralismo, ou seja, deve se empenhar na publicação de livros não apenas das diferentes áreas do conhecimento presentes na universidade, mas também de representantes das mais expressivas orientações teóricas do pensamento contemporâneo. Examinando o catálogo da nossa editora, bem como os livros já contratados que herdei de direções anteriores e que ainda serão publicados, constatei que eram pouquíssimos aqueles de autores marxistas. Assim, ao publicar o livro do Buey sobre Marx, minha intenção foi sobretudo a de implementar o pluralismo a que aludi. Sou marxista, mas é evidente que não pretendo fazer da Editora UFRJ uma editora marxista. Pretendo apenas assegurar que, no seu catálogo, haja também autores marxistas. Além de Buey, estão programados outros como Georg Lukács, José Carlos Mariátegui, Domenico Losurdo e Jacques Texier. Mas nossos leitores não marxistas podem ficr tranqüilos: também acabamos de lançar ou estão programados livros de ou sobre autores como Franz Boas, Mary Douglas, Marshall Sahlins, Max Weber. Esse pluralismo, decerto, irá orientar também nossa seleção de autores brasileiros.

O senhor acredita que as editoras universitárias tenham um papel diferente das comerciais? Em que sentido?

Não tenho dúvidas de que elas têm papéis diferentes, embora não antagônicos. Uma editora comercial visa, antes de mais nada, o lucro. Pode ser até que algumas delas garantam uma produção de qualidade. Mas, se querem ter êxito comercial, terão de combinar, por exemplo, a publicação de Marx e Gramsci com a de Sidney Sheldon ou Paulo Coelho. Uma editora universitária tem outros critérios. Na medida do possível, ela deve se empenhar para não operar no vermelho, mas seu objetivo não é o lucro. E, sim, assegurar a seu público leitor o acesso a uma produção de qualidade. Devemos correr o risco de publicar livros que nenhuma editora comercial publicaria, mas que são decisivos para o desenvolvimento do saber.

Após a publicação dos seis volumes dos Cadernos do cárcere, o senhor tem novos projetos para editar Gramsci? O que a teoria gramsciana poderia acrescentar na compreensão do mundo contemporâneo?

Estão em curso de publicação, pela Civilização Brasileira, dois volumes de escritos políticos de Gramsci, reunindo uma seleção dos artigos, cartas e informes que ele redigiu entre 1910 e 1926, antes de sua prisão. Sou o responsável pela edição. Também estou colaborando com Luiz Sérgio Henriques na edição integral das Cartas do cárcere, um dos mais belos documentos políticos e literários do século 20, a ser publicado em 2005. É certo que Gramsci vende bem. Temos aqui um exemplo de como editoras comerciais podem publicar edições críticas de autores de grande relevância. Para isso, é claro, têm de contar com editores que vêem longe, como é caso de Luciana Villas-Boas (Grupo Record). Quanto à atualidade de Gramsci, ele é hoje um dos autores mais lidos não só na Itália, mas em todo o mundo. Influencia diferentes áreas do saber, da filosofia à teoria política, da sociologia à antropologia, da pedagogia à estética. Mas a principal contribuição de Gramsci para a compreensão do presente é a elaboração de uma estratégia socialista adequada à complexidade do mundo contemporâneo. Se o marxismo continua vivo como instrumento crítico para esta compreensão do presente, isso se deve em grande parte à renovação do legado de Marx empreendida por Gramsci em seus Cadernos do cárcere.

Depois de 15 anos filiado ao PT, o senhor, ao lado de Leandro Konder e de Milton Temer, deixou o partido para abrir um novo fórum de discussões. Como o senhor analisa a esquerda brasileira hoje?

Foi muito difícil para nós abandonarmos o PT. Foi nossa segunda decepção partidária, já que, em 1982, depois de quase 20 anos de militância, abandonamos também o PCB. Deixamos o PT porque consideramos que ele abandonou o projeto socialista que defendia desde a sua fundação, passando a postular na prática o “capitalismo com preocupações sociais”, o que nos parece um sorvete quente. Continuamos a acreditar que a construção de uma sociedade socialista e democrática é o único modo de enfrentar a barbárie gerada em escala cada vez maior pela permanência do capitalismo no mundo e no Brasil. Nenhum dos chamados partidos de esquerda no Brasil articula adequadamente socialismo e democracia. Por isso, estamos empenhados - ao lado, entre muitos outros, da senadora Heloísa Helena e da deputada Luciana Genro, expulsas recentemente do PT - na construção de um novo partido de esquerda, que tenha como meta combinar a luta pelo socialismo com o aprofundamento da democracia.

O senhor se diz um marxista convicto e confesso. O que isso significa na atual conjuntura política do país?

Ser marxista é, antes de mais nada, ser anticapitalista, ou seja, lutar pela construção de uma sociedade sem classes, que suprima a exploração do homem pelo homem e a propriedade privada dos grandes meios de produção, criando condições para que as relações entre os homens sejam fundadas na solidariedade e não no egoísmo do mercado. Claro, ser marxista não é repetir acriticamente tudo o que Marx disse. Marx morreu há cerca de 120 anos e muita coisa ocorreu desde então. Mas, sem o método que ele nos legou, é impossível compreender o que ocorre no mundo. Ele nos disse que o capital estava criando um mercado mundial, fonte de crises e iniqüidades, e nunca isso foi tão verdadeiro quanto no capitalismo globalizado de hoje. Falou também em fetichismo da mercadoria, na conversão do mercado num ente fantasmagórico que oculta as relações humanas, e nunca isso se manifestou tão intensamente quanto em nossos dias, quando lemos na imprensa barbaridades do tipo “o mercado ficou nervoso”.

Como o senhor analisa o governo Lula? Está decepcionado?

Sim, estou decepcionado. Entre a eleição e a posse, escrevi um artigo que dizia mais ou menos o seguinte: não podemos cobrar do governo Lula que ele instaure o socialismo por decreto, mas devemos estar atentos para o perigo de que tal governo seja cooptado pelas classes dominantes e dê assim continuidade à política neoliberal. O que eu via como perigo tornou-se, infelizmente, realidade. Estamos diante, como diria Francisco de Oliveira, do terceiro governo da “era FHC”, com a agravante de que agora não temos mais o PT e a CUT na oposição ao neoliberalismo. O governo Lula está pondo em prática tudo aquilo que o PT e o próprio Lula combatiam quando estavam na oposição. É por isto que se torna indispensável construir um novo partido, capaz de recolher a herança abandonada pelo PT e por outros partidos de esquerda e prosseguir na luta contra o neoliberalismo, pelo socialismo e pela democracia.



Fonte: Jornal do Brasil. Idéias, 29 maio 2004.

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