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Nacional-popular

Vittorio Spinazzola
 

Literatura nacional-popular é, para Gramsci, a que consegue satisfazer o gosto estético não só de elites restritas mas do maior número de leitores, operando uma mediação ativa entre as exigências de leitura mais qualificada e as demandas, mais elementares mas não menos autênticas, das camadas subalternas. O escritor, como membro da categoria dos intelectuais, promove uma unificação do público, entendida como ampliação da área de consenso usufruída pela concepção da arte e, portanto, da vida, cujo portador histórico é a classe no poder.

Nesta capacidade de interpretar pessoalmente, com suas criações expressivas, um sistema de valores destinado a expandir-se por todos os níveis da coletividade, o literato dá a medida da sua relação orgânica com uma classe dirigente, por sua vez capaz de se tornar intérprete de estados de espírito e expectativas difundidas em toda a coletividade: isto é, de exercer não um “domínio”, baseado apenas na força repressiva dos aparelhos de governo, mas uma “hegemonia” que se explicite numa influência geral indireta sobre as várias manifestações da sociedade civil.

A definição deste modelo é sustentada por exemplos históricos elevadíssimos: os trágicos gregos, Shakespeare, os grandes romancistas do século XIX, como Tolstoi e Dostoievski. Projetado num horizonte tão amplo, o conceito de nacional-popular serve a Gramsci, antes de tudo, para submeter a uma revisão geral a tradição cultural italiana, ressaltando seus dois vícios opostos e complementares: o provincianismo estreito, típico daquele a quem chama de “italiano mesquinho”, com sua tacanhez de pontos de vista e falta de rigor mental; e o cosmopolitismo, ou seja, a atitude do literato que se sente alheio às contingências práticas da sua gente e do seu país e que, embora se proclame sacerdote desinteressado do Belo, está sempre disposto a colocar sua arte a serviço de qualquer senhor.

Ambos os vícios remetem a um dado de fundo na história da Itália moderna: a não formação de uma burguesia digna do nome, capaz de criar uma camada intelectual dotada do dinamismo necessário para ligar-se à mentalidade e às expectativas da população e, ao mesmo tempo, ressignificá-las, levando-as àquele nível de universalidade que, para Gramsci, é o nível nacional. Aqui, com efeito, uma determinada coletividade toma consciência de si e das próprias contradições, alimentando um cotejo com as outras experiências de civilização presentes na cena internacional.

Aplicada às vicissitudes da cultura italiana, no entanto, esta formulação conduz, concretamente, a resultados sempre iluminadores mas um tanto unilaterais, quando não anti-históricos: vale a pena destacar isso, em contraste com as freqüentes acusações de relativismo historicista dirigidas ao gramscismo. Os literatos italianos passados e presentes parecem quase submetidos a um processo, que lhes imputa como culpa o que não foram nem souberam fazer. A questão é que, para Gramsci, o conceito de nacional-popular interessava sobretudo como instrumento operativo para suscitar uma renovação profunda da nossa literatura, ampliando seus recursos e fortalecendo seu fôlego através de uma imersão saudável na realidade social do mundo moderno. Nesta linha, ele podia indicar como precursor um expoente genial da burguesia iluminada oitocentista, Francesco De Sanctis. Mas a premissa decisiva era constituída por uma mudança das forças históricas protagonistas: o proletariado daria prova da sua maturidade revolucionária ao promover, também, um renascimento literário, capaz de derrubar a barreira secular entre o corporativismo dos doutos e o atraso da plebe, afastada da estufa em que a classe dirigente cultivava seus ideais estéticos.

Naturalmente, Gramsci sabia bem que uma nova arte não nasce por decreto: o que era preciso realizar eram as condições culturais oportunas para que assomasse à cena uma fornada de escritores nutridos de uma consciência nova do fato artístico. Por outra parte, para Gramsci cada escritor tende a entrar em diálogo com um público social e culturalmente determinado. Isto implica a necessidade de acertar as contas com o condicionamento objetivo representado pela configuração particular do gosto, das atitudes críticas, das pulsões fantásticas a que aqueles leitores se ligam. O processo de elaboração artística consiste em inverter tal condicionamento numa autodisciplina responsavelmente assumida pelo escritor e justamente por isto capaz de um efeito libertador sobre seus interlocutores, oferecendo-lhes certamente experiências inéditas mas cuja sugestão estejam em condições de compreender.

Este é o ponto mais avançado do pensamento gramsciano sobre os problemas literários. Com efeito, o tema da relação entre arte e público, literatura e leitura assumiu um destaque cada vez maior no horizonte cultural europeu dos últimos decênios, de Sartre a Mukarovski, de Auerbach a Jauss. No plano histórico, é naturalmente discutível a utilidade atual do conceito de nacional-popular para fins de esforço militante na literatura de hoje, num contexto de época tão mudado. Mas, no plano teórico e institucional, as indicações de método fornecidas por Gramsci mantêm uma vitalidade que o tempo transcorrido permite apreciar hoje melhor do que antes.



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