Para o melhor amigo não se tornar um problema Apesar do direito garantido por lei, moradores de apartamento convivem com animais e com a intolerância dos vizinhos
Muita gente não sabe, mas ter um animal de estimação em apartamento é um
direito garantido por lei. No entanto, afinar o discurso da legislação com
as reclamações dos vizinhos, muitas vezes, mais parece briga de cão e
gato.
A veterinária e diretora técnica da Sociedade Protetora dos Animais de Juiz
de Fora, Rosana Vianna (foto abaixo), conta que discussões como
essas, hoje, são raras, mas ainda acontecem.
"Se 50% dos condôminos mais um não concordarem com o animal nas dependências
do prédio, o caso vai parar na Justiça. Mas por causa dos custos
processuais, as pessoas que reclamam de animais de estimação em apartamentos
acabam desistindo"
, comenta.
Para Rosana, o ideal é receber da própria Sociedade a tutela do animal para
evitar problemas. "Depois de uma avaliação médica e de providenciar alguns
documentos, o dono do animal recebe uma carteirinha que garante o direito de
circulação, no colo, nas dependências comuns do prédio"
. Para isso, são
necessários CPF e carteira de identidade do responsável, atestado de saúde e
carteira de vacinação emitidos por um veterinário e foto do animal. "A
carterinha prova que o animal é saudável e que tem porte pequeno, próprio
para circular no colo do dono"
, acrescenta a veterinária.
Alguns problemas de comportamento, que são os que tiram os vizinhos do
sério, são solucionáveis com os tratamentos adequados. "Cães que choram ou
latem muito, que raspam a porta ou que uivam de madrugada, por exemplo,
podem ficar mais calmos com remédios alopatas, florais de Bach ou até com
castração"
, indica Rosana.
Impasse
Que o amor é incondicional para os que adoram pets, isso todo mundo sabe, mas quando o melhor amigo passa a ser um problema, quem ajuda neste impasse é o síndico. O advogado do Sindicato dos Condomínios Residenciais e Comerciais de Juiz de Fora, Dalmo Pessoa (foto ao lado), lembra que cerca de dez anos atrás, muitos condomínios, através dos regimentos internos, proibiam a presença de bichos de estimação, mas atualmente, a jurisprudência permite que se tenha animais em prédios dentro dos limites da boa vizinhança.
"Antigamente, através do regimento interno, se notificava o morador e
dava-se um prazo para ele retirar o animal do condomínio. Hoje, os tribunais
começaram a entender que o incômodo teria que ser muito grande, visto que os
animais de estimação ajudam no comportamento de crianças e idosos. Quando o
caso vai parar na Justiça, ela tem dado ganho de causa para os donos dos
animais"
, informa o advogado.
Segundo ele, hoje os regimentos dos condomínios não podem obrigar o
condômino a se desfazer do pet porque justamente é um direito garantido por
lei. Dalmo Pessoa, que já foi síndico de um prédio no centro da cidade, com
65 apartamentos, onde conviviam cães, gatos e passarinhos, aconselha a boa a
velha conversa para apaziguar a briga entre vizinhos. "Se estiver realmente
incomodando os condôminos, a solução é conversar e tentar chegar numa
solução em conjunto. Pode-se fazer um abaixo-assinado e sugerir que o dono
de um animal substitua esse animal por outro mais tranqüilo ou que peça
ajuda a um veterinário para dar assistência a comportamento do animal"
,
completa.
Direitos iguais
A advogada M.S., 36 anos, que não quis se identificar, mora sozinha
em um prédio no bairro Jardim Glória e nunca gostou de animais. Já chegou a
perder noites de sono em função do cão do vizinho ao lado.
"Além dele fazer barulho a noite inteira, ele suja algumas áreas no prédio e
ainda late quando alguém passa pelo corredor. Até receber visita virou
problema na minha casa"
, reclama.
A advogada "soltou os bichos" pelo interfone, mas depois precisou chamar o
síndico. "Primeiro foi uma conversa amigável, mas como nada adiantava, tive
que apelar. Se as pessoas têm direito a ter cachorro, eu também tenho
direito à minha privacidade e ao meu silêncio"
, ressalta.
No caso de M., não houve solução. Ela teve que se acostumar com o incômodo.
Mas em alguns casos, o melhor amigo passa imperceptível.
Na casa da estudante de arquitetura, Luana David (foto ao lado), 20 anos, ninguém
queria o Duda. Quando ela comprou seu cãozinho da raça lhasa apso, em 2003, os avós e
a mãe não aceitavam o cahorro. "Meu avô chegou a dizer: ou ele ou eu!"
,
recorda Luana. Hoje, a situação é bem diferente. Segundo ela, Duda é querido
por todos, inclusive pelos vizinhos do prédio de treze andares, no centro da
cidade. "O Duda é muito quietinho, tem gente que nem sabe que tem cachorro
aqui em casa"
, diz a estudante.
É claro que Luana, para não ter aborrecimento com os vizinhos, toma todos os
cuidados necessários com o pet. Além da carteira de vacinação estar sempre
em dia, nas dependências comuns, como escada e elevador, ela carrega o
cãozinho no colo. "O Duda é a alegria daqui de casa, quando alguém viaja,
ele até fica deprimido, sentindo falta"
, conta.
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