Muito tímida, Letícia Ribeiro do Valle Arruda Câmara preocupava seus pais, que decidiram colocá-la no teatro para se desinibir. Aos cinco anos, a menina se encantou pelo novo universo que lhe foi apresentado e não quis mais sair dele.
Aos dez anos, a pequena Letícia, em nada lembra a menina tímida que preocupava papai e mamãe. Esperta e falante, a garotinha mostra desenvoltura e revela que o melhor do teatro são os novos amigos, os professores e os exercícios, em especial as esquetes.
"É um exercício muito comum no teatro, o professor divide a turma
em grupos para encenar histórias. É mais para divertir mesmo"
, explica.
Letícia já acumula muitos trabalhos em sua carreira precoce, entre eles, uma produção do espetáculo Morte e Vida Severina, texto do consagrado autor Guimarães Rosa que retrata a vida de retirantes nordestinos durante a seca. A que mais deu repercussão até hoje foi Festa no Céu, em que Letícia foi o Canário Romero, responsável pelo colunismo social do evento.
No currículo da pequena atriz figuram, entre outros, os espetáculos Vô Candinho e seus bonecos; Chá de Sumiço e Quem roubou o branco do mundo. Seu desempenho na escolinha de teatro que freqüenta foi tão bom, que os professores a convidaram para fazer parte da Companhia de Teatro.
Atualmente, Letícia divide seu tempo entre a escola, o teatro e o lazer. A jornada da menina é bastante puxada, isso preocupa seus pais, mas ela mesma não encara sua rotina desgastante como um sacrifício. O pai de Letícia, Ignácio de Loyola Câmara Costa, conta que ela é esforçada e dedicada e sabe bem o limite das coisas.
"Ela fica em média duas horas por conta do teatro, tem dia que chega em casa
às dez horas da noite, mas não deixa de fazer os deveres da escola e de estudar
em casa. Por mais que ela goste do teatro, a prioridade é a escola e, até agora,
ela tem conseguido conciliar as duas coisas direitinho"
, comenta.
Fora a escola e o teatro, que já lhe ocupa boa parte do tempo, Letícia faz aulas
de inglês. E aonde arruma tempo para ser criança e brincar? Simples, a menina
tem a resposta na ponta da língua: "eu brinco no fim de semana, no recreio"
.
Prova de que, quando se faz algo por prazer, a gente consegue arrumar tempo para
tudo.
Para o pai, essa rotina atribulada ensina Letícia a ter mais senso de
responsabilidade. "Ela sabe que tem que estudar que a escola tem que vir em
primeiro lugar e não reclama. Quando a gente acha que é demais ela está lá, fazendo
tudo com sorriso nos lábios. Ela gosta do que faz e faz tudo com amor e alegria
e nós apoiamos sempre"
,
orgulha-se.
Para todos os que convivem com Letícia, a mudança pela qual ela passou depois que
entrou para o teatro é visível. O pai conta que eles conseguiram mais do que queriam
quando a matricularam na escolinha. "Fundamentalmente, a mudança foi ela ter
vencido a timidez. Hoje ela tem muitos amigos novos e descobriu muito mais coisas.
No teatro ela travou contato com a leitura, ela lê muito e textos densos, que uma
criança da idade dela não teria contato normalmente"
.
Esse contato com a leitura fez com que a pequena desenvolvesse um outro talento: o de escritora. Ela conta que tem muitas histórias guardadas no computador, sobre temas diversos. Algumas ela mostra, outras prefere deixar lá, quietinhas no seu computador.
E, apesar da pouca idade, a própria Letícia consegue perceber a transformação
que o teatro promoveu em sua vida. "Eu era muito quieta, não tinha muitos
amigos... agora eu tenho um monte de amigas, eu converso, brinco, sou menos
envergonhada. Todo mundo fala 'ela é pequenininha, mas não é santa (risos)"
,
diverte-se a menina.
Apesar de ter conseguido vencer a timidez, subir no palco ainda não é nada fácil,
mas ela tira de letra. "Quando começa a peça dá um friozinho na barriga, mas
depois passa. Procuro não olhar para o público, isso não é bom porque desconcentra
e eu tenho que pensar em tudo para sair bem legal"
, revela, do alto da sua
experiência de cinco anos de palco.
Letícia confessa que estar no palco é muito bom. "Adoro os aplausos, é muito
bom ver todo mundo te aplaudindo, dá um alívio muito grande porque quando a gente
vai representar é muita responsabilidade: tem que decorar as falas, encenar
direitinho e quando acaba, é menos uma responsabilidade"
, explica.
Letícia diz que quando crescer quer explorar seus dois talentos e ser atriz e
escritora. O pai garante que vai apoiar qualquer decisão da menina, mas confessa
que prefere que ela siga uma profissão convencional. "Sempre deixamos claro
que o estudo tem que ser o mais importante, que o teatro é uma atividade complementar,
mas se ela continuar se destacando e quiser fazer dessa a sua atividade principal,
vamos deixar. Mas seria melhor se ela tivesse um diploma porque seria mais fácil
de ela se manter"
, justifica-se.
Alheia aos problemas e preocupações da vida de adulto, Letícia segue sua rotina
entre estudos, textos, ensaios e brincadeiras, sempre com um sorriso no rosto e
aconselha a todas as crianças fazerem teatro. "Façam teatro porque é muito bom ,
você faz novos amigos, aprende coisas novas, lê histórias legais e se diverte
muito"
.
*Marinella Souza é estudante de Comunicação Social da UFJF