O estudante Denner Ferreira Paulino, 13 anos, cultiva desde os sete
o gosto pelo desenho. "Sempre que estou parado, sem fazer nada, começo a desenhar.
Meu sonho é me tornar um artista"
, conta.
Douglas Pereira, 12, também adora desenhar e coleciona todos os trabalhos
que produz em uma pasta. "Quando comecei a fazer ilustrações, colocava tudo dentro
do caderno, mas a minha mãe brigava comigo. Juntei dinheiro para comprar uma pasta
e guardo os desenho nela agora"
.
Para desenvolver-se na arte, os meninos se inscreveram no Projeto Social de Reforço, promovido pela Igreja do bairro Bairu, com o objetivo de participarem da oficina de desenho. Coordenada pelo desenhista Alberto Pinto, cerca de 25 crianças carentes freqüentam as aulas.
Alberto explica que o desenho é uma forma de comunicação. "Desenhar é humano. A
primeira forma de expressão que as crianças utilizam é o desenho. Depois, quando
entram na escola, perde-se um pouco desse hábito, pois as crianças aprendem a escrever.
Só que não é preciso trocar as formas de comunicação, pode-se aliar as duas"
.
Segundo o artista, quando se fala em desenho as pessoas pensam em uma obra-prima,
como a Monalisa. "Por isso, mostro aos meninos as obras de Picasso. Têm umas que são rabiscos e são valorizadas"
.
Muitos garotos que estão na oficina não acreditam no seu potencial. "Eles dizem que
não sabem fazer e eu os digo: 'continuem'. Costumo passar o lápis por cima do desenho
deles para mostrar o quanto está bom"
.
Para ele, desenhar é parecido com a matemática. "Ensino as quatro operações
básicas: soma, subtração, multiplicação e divisão. Mesmo o desenho mais complexo, acaba
caindo nelas. Por exemplo, para fazer uma rosa, alio a forma de uma chave dentro
de uma espiral"
.
Ele diz que através do desenho é possível ver se os baixinhos estão com algum problema, pois
eles exprimem seus sentimentos no papel. "Têm pais que podam os filhos. Às vezes,
a criança faz um desenho, entrega para a mãe e ela o rasga"
.
Alberto, nas primeiras aulas, avalia o potencial de cada um. "Passo atividade para
colorir ou desenho livre. Geralmente, escolho trabalhar com personagens de desenho
animado para atrair a atenção dos garotos"
.
Depois o desenhista começa a ensinar o esquema corporal. Ele orienta como fazer as mãos, os olhos, o nariz, dentre outras partes. Depois, ensina um pouco sobre o mangá, que é o gênero de quadrinhos japonês (foto acima ao centro e à esquerda).
O mangá, atualmente, está inspirando tendências no Brasil. Alberto comenta que até o Maurício de Souza, criador da Turma da Mônica, está seguindo a linha japonesa. Ele criou os personagens da turminha jovem no formato mangá e está conquistando os adolescentes.
Para Alberto, os personagens no molde de mangá são mais expressivos. Ele afirma também que o desenho do corpo humano é mais simplificado. Após passar pelo mangá, o artista aborda os cartoons, charges e a humanização de animais. Só depois começa a trabalhar com tonalidade, profundidade e sombreamento. O estudante Cleiton Brian, 9 anos, confessa que quer saber desenhar tudo o que ele pensar.
Alberto também promove oficina de desenho pelo projeto Biblioteca Viva, na Biblioteca Municipal Murilo Mendes (Avenida Getúlio Vargas, 200). O trabalho, que acontece há seis meses, de forma experimental, tem conseguido ampliar o interesse e o gosto também pela leitura.