Já foram dois bairros, mais de 40 moradias reformadas e cerca de 200 pessoas beneficiadas diretamente. Esse é o trabalho da equipe do Habita Vida, um projeto que cuida da revitalização estética de casas em regiões carentes de Juiz de Fora e trabalha com o resgate da cidadania dos moradores dessas comunidades.
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O Habita Vida surgiu em 1997 quando a idealizadora, Rachel Falcão, pensou em criar um projeto que pudesse intervir no visual da cidade, tornando-a mais bonita. "E a intenção era desenvolver um trabalho de caráter social".
A partir do interesse, Rachel passou a observar a cidade e analisar onde seria o melhor local para a realização do projeto. "A idéia era escolher um lugar cujo aspecto sensorial pudéssemos mudar. Seria uma espécie de intervenção estética com o objetivo de fazer com que as pessoas sintam a cidade de uma forma melhor".
Professora substituta do curso de Artes da UFJF na época e vivendo a
experiência de estar construindo a casa própria usando materiais
"alternativos", Rachel decidiu levar o projeto para a sala de aula. "A
intenção era trabalhar e criar esses materiais alternativos. Aprender a
fazer tintas artesanais à base de cal e pesquisar materiais reciclados que
pudessem ser explorados em um detalhe de decoração", explica. "Estávamos
trabalhando na busca de materiais mais baratos, esteticamente interessantes
e que pudessem ser feitos pelos próprios moradores na reforma da casa".
Em 1998 a idéia virou realidade quando se tornou um projeto de extensão da UFJF. "Nessa fase, o projeto estava sendo testado em laboratório antes de ser aplicado na prática". No ano seguinte surgiu o convite de o projeto ser incluído entre os trabalhos da ONG Permear (Programa de Estudos e Revitalização da Memória Arquitetônica e Artística) que atua na preservação e revitalização da memória arquitetônica e artística de Juiz de Fora e região. "O convite surgiu justamente porque o desenvolvimento de materiais artesanais, o resgate de técnicas tradicionais, do saber fazer é uma das vertentes da ONG", justifica. A partir daí, o Habita Vida, contou com a participação de arquitetos que trabalharam no desenvolvimento do reboco de cal e areia, sem cimento.
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"No local nós trabalhamos no acabamento das moradias, com o reboco e pintura externa das casas, e com a parte de paisagismo do entorno da casa", conta a arquiteta, Lívia Andrade, coordenadora do Habita Vida. O trabalho foi desenvolvido em esquema de mutirão. "Os moradores participavam da reforma e pagavam o material disponibilizado pela prefeitura em pequenas parcelas de R$ 20", explica. "Fazer com que os moradores participassem da reforma e estivessem aprendendo é um dos pontos principais do projeto. Fazer com que eles estejam envolvidos com o trabalho é uma maneira de estimulá-los a continuar a reforma dentro de casa. E ensiná-los a fazer o material permite que eles utilizem esse conhecimento de uma forma profissional", acrescenta Rachel.
Antes da reforma, de acordo com Lívia, a equipe faz um trabalho inicial em
que apresenta o projeto, mostra os materiais que vão ser trabalhados,
explica que esses materiais artesanais são uma boa opção para serem
utilizados e não uma falta de opção. "São mostradas as fotos de casas que já
foram reformadas, slides, livros... Além disso, todos os detalhes são
escolhidos por eles. Eles recebem o desenho da fachada
da casa e ficam
livres para sugerir as cores das tintas para as paredes, janelas e portas,
um acabamento diferente", completa a arquiteta.
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O local escolhido foi a Rua Pirapora, no bairro Dom Bosco, no trecho entre a Avenida independência e a Rua Belo Vale. "O local era perfeito: no centro da cidade, aos olhos de todos, no caminho para o hospital, para o aeroporto e na entrada e saída para o Rio de Janeiro", destaca Rachel.
"O problema é que o local precisava de um trabalho além do previsto", explica Lívia. "A comunidade era muito carente de infra-estrutura. Além de pequenas e grandes reformas nas casas, foi preciso mobilizar a prefeitura para que disponibilizasse para o local rede de água e esgoto, sistema de coleta e lixo, iluminação elétrica".
Os trabalhos na rua continuam sendo desenvolvidos. "Agora estamos na etapa final de paisagismo", conta Lívia. Ao todo 35 casas foram reformadas e 140 moradores beneficiados diretamente. As atividades seguiram o mesmo esquema do projeto piloto. "Os moradores aprendem a fazer a tinta e o reboco e trabalham junto com a equipe para manter o serviço depois e para que o projeto também sirva à qualificação profissional dessas pessoas", explica a idealizadora do Habita Vida.
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Lívia fala que o resultado é percebido através de uma demonstração de carinho e satisfação maior com o ambiente em que esses moradores vivem. "A reforma na fachada da casa estimula os moradores a estenderem a melhoria para dentro de casa. A gente nota, depois do trabalho que a gente realiza, o prazer que eles encontram em cuidar do seu espaço. E o projeto também tem essa intenção de trabalhar com o lado social, na educação e formação dessas pessoas".
"De uma certa forma, o projeto resgata a capacidade de sonhar e de fazer planos desses moradores", finaliza Rachel.