"Adotei o Rodrigo por acaso"
. Com estas palavras, Maria do Carmo, atualmente mãe adotiva de Rodrigo, de
11 anos, revela a bonita e complicada estória que viveu para ter direito à guarda da criança. No caso
dela e de seu marido, João Bosco Damasceno, a adoção não foi uma decisão planejada, mas veio por uma
questão de solidariedade, já que uma prima não tinha condições de criar o filho.
Tudo começou quando Rodrigo ainda era um recém-nascido e Maria do Carmo ficou sabendo que sua prima não
tinha condições de criá-lo, muito menos o pai, que havia sumido. Ela se sensibilizou e foi até a casa da
prima. "Quando cheguei lá e vi em que condições aquela criança estava sendo tratada, resolvi que poderia
ficar com ela até as coisas melhorarem."
Rodrigo, como conta Maria do Carmo Rezende Damasceno, estava
doente, magro e sofria maus tratos de sua mãe. A ajuda oferecida por ela deveria ser somente por alguns
dias, até que a família tivesse condições de pegar a criança de volta. Mas, não foi bem isso que
aconteceu.
De lá para cá, foram muitas batalhas. Rodrigo, que havia sido registrado somente com o nome de sua mãe biológica, passou a morar com Maria do Carmo, que já o tratava como um filho. Quando ele completou quatro meses, o pai reapareceu e pediu a guarda. A esta altura, Maria do Carmo estava disposta a lutar pela criança.
E foi o que fez. Durante oito anos ela enfrentou na Justiça o direito a ter a guarda do bebê. "Foram
diversas audiências e eu tinha medo de perder o Rodrigo. Mas o pai biológico dele não tinha a menor
condição de criá-lo e a mãe já havia assinado o termo de adoção"
, conta. Há pouco mais de dois anos é
que ela e o marido conseguiram a guarda permante dele. "Foi um alívio para todos nós, que nos apegamos a
ele"
, desabafa.
Rodrigo sabe que é adotado e lida muito bem com isso, como explica Maria do Carmo. "Eu sempre deixei
claro para ele a situação, nunca escondi nada e acho que a verdade tem que ser dita. Antes, ele tinha
medo do pai, pois entendia que ele queria tirá-lo de sua família. Hoje, ele já lida melhor com isso e
até sai com o pai verdadeiro."
A caminhada foi longa e tudo terminou bem. Porém, adotar uma criança não é tão complicado quanto parece,
pelo menos é o que afirma o juiz da Terceira Vara de Família, Israel Carone Rachid. Segundo ele, uma
prática muito comum no Brasil é a chamada ‘adoção à brasileira’, que acontece quando um casal consegue
um bebê e o registra como filho. Prática esta considerada ilegal, prevista no Código Penal.
De maneira geral, quando uma adoção segue os caminhos legais, ou seja, os interessados fazem a inscrição
para cadastro, o processo não é demorado, esclarece o juiz. "A partir daí, a Justiça vai acompanhar a
vida do casal e saber se eles realmente têm condições psicológicas e estruturais para adotar uma
criança."
O que acontece é que quem deseja adotar, quase sempre, procura bebês saudáveis e que sejam parecidos
fisicamente. As diferenças entre raças e a idade avançada de algumas crianças também dificultam a
adoção, é o que afirma o coordenador do Educandário Carlos Chagas, em Juiz de Fora, Mário Albino
Martins. "Crianças mulatas e negras têm dificuldade em serem adotadas."
Para o juiz, "escolher" uma
criança e depois legalizar a situação não é um caminho aconselhável. "Muitas vezes o casal pode se
frustrar se a adoção não for concedida e se a criança tiver que voltar para um orfanato"
, constata.