Mulher

Amor entre pesssoas do mesmo sexo

Fabrício e Eduardo

"Minha família não sabe nem que eu sou gay", conta Fabrício*. "Não sabe entre aspas, porque todo pai sabe, mas prefere não tocar no assunto". Fabrício conheceu o parceiro Eduardo* num chat na internet. Os dois estavam à procura de uma companhia e já na primeira vez em que conversaram decidiram se encontrar.

Fabrício estava saindo de um breve relacionamento com um bissexual e Eduardo nunca tinha tido um relacionamento fixo, mas queria encontrar um namorado. "O problema é que gay só quer ficar", lamenta Eduardo. Fabrício explica que, além de muitas vezes não saber administrar a relação, o gay também sonha com o príncipe encantado. "Um cara que não seja afeminado, tenha voz firme...".

No dia do encontro, Eduardo conta que não tinha nenhuma expectativa. "Depois de muitos 'bolos' e frustrações, a gente fica sem esperança. Sempre que eu estava flertando pela internet, eu mandava minha foto para ver se alguém interessava. Alguns desconversavam, outros saíam do bate-papo...".

Mesmo decididos a construir uma relação, no primeiro encontro eles não assumiram um namoro a princípio. Os dois foram para o apartamento de Fabrício e Eduardo acabou dormindo por lá. No dia seguinte, ao acordarem, Fabrício pediu a Eduardo que voltasse. O namoro já dura quase um ano.

As dificuldades
Durante esse tempo, a relação tornou-se pública para poucos. "Alguns amigos sabem, minha família sabe, mas a do Fabrício não", conta Eduardo. "Meus irmãos devem desconfiar", fala Fabrício, que divide o apartamento com dois irmãos mais novos. "Embora eles não toquem no assunto, eles perceberam que o meu comportamento modificou. Além disso, o Eduardo freqüenta a minha casa, dorme lá... Os meus irmãos me vêem como uma pessoa responsável e muito equilibrado e por isso me respeitam".

O fato de os pais desconhecerem a relação, segundo Fabrício, tem justificativa no comportamento dos mesmos. "Acho que eles não vão saber lidar com o assunto. Uma vez, testando a minha mãe, percebi nela um comportamento homofóbico, numa frase que ela disse: Gay não tem caráter", lamenta-se. "Além disso, eles são muito conservadores e existem fortes indícios de que eles não vão aceitar".

No caso de Eduardo, como sua homossexualidade já era conhecida pela família, assumir o namoro foi mais fácil. "Quando a minha mãe descobriu que eu era gay, ela disse que já sabia e que me amava do jeito que eu sou. O namoro ela diz que está aceitando aos poucos. No início ela também ficou preocupada com que o namorado dela ia pensar, mas ele nem ligou", conta Eduardo. Evangélica, ele diz que sua mãe só coloca uma restrição ao relacionamento. "Ela fala que diante das amigas dela eu tenho que ser 'normal'".

O pai - com quem Eduardo mora em função da separação dos pais - sabe, sem que ele tenha contado. "Eu contei para a mulher dele, mas não para ele, mas ele sabe. De vez em quando, ele diz que eu posso levar 'meu amigo' em casa. E às vezes ele fala, 'por mais que você seja assim...', mas não diz 'gay'", conta.

Tornar pública a relação diante dos pais de Fabrício está entre os planos do casal que acredita que, para os homossexuais assumir um relacionamento é o maior desafio a ser ultrapassado. "Graças ao o apoio que a gente tem dos amigos e da família, pelo menos a do Eduardo, é que a gente consegue levar adiante nossa relação", esclarece Fabrício.

Márcia e Salete

Márcia Rocha e Salete Rossini podem considerar-se vitoriosas por já terem vencido esse último obstáculo. De mãos dadas durante a entrevista também é assim que andam pela rua. "A gente não só anda de mão dada, mas também beija, abraça e faz tudo que a gente quiser...", conta Márcia.

Namorando há sete meses e dois dias, como Márcia fez questão de enfatizar, a internet também foi o meio através do qual se conheceram. "Desiludida, depois de um casamento frustrado de sete anos que resultou em dois filhos, eu decidi assumir a minha homossexualidade. Entrei então na internet para procurar alguém naqueles sites que têm busca por perfil. E a Salete foi o único resultado que apareceu. Resolvi mandar uma mensagem para ver se ela interessava e, sem querer eu mandei sete vezes o mesmo e-mail", conta Márcia.

A resposta chegou no dia seguinte com telefone para marcar um encontro. Decidida, Márcia ligou para a então "Austrália". "Primeiro eu liguei errado. Depois de conferir o número, voltei a ligar e marcamos o encontro".

No dia do encontro, Márcia conta que Salete atrasou meia hora. Além do atraso, as duas não se reconheceram e, enquanto esperavam, se paqueraram mesmo sem saber. Quando descobriram, a reação foi um abraço forte. Depois do abraço, elas foram para uma pizzaria e depois para um bar GLS. A conversa durou cinco horas. "Além do bate-papo, não aconteceu mais nada", diz Márcia.

O segundo encontro não aconteceu por acaso. "No dia em que a gente se conheceu tinha chovido muito. Para a Salete não ficar carregando a sombrinha, eu ofereci de guardá-la na minha bolsa. Quando eu estava subindo no ônibus para ir embora, lembrei de devolver, mas, de propósito, resolvi não entregar para ter uma desculpa de ligar no dia seguinte", fala.

No dia seguinte, então, Márcia ligou para Salete para comunicar o "esquecimento" da sombrinha. Do outro lado da linha ouviu um desanimador "deixa pra lá". Mais tímida Salete explica, "naquele dia eu estava enrolada com a minha dissertação, tinha que acertar os últimos detalhes...". Sem desistir, Márcia conseguiu marcar um encontro para o dia seguinte na universidade.

O atraso do primeiro encontro foi substituído por um "bolo". "Eu esperei um tempão e ela não apareceu, até que decidi ligar para a casa da mãe dela". Márcia lembra que Salete havia deixado um recado com a mãe para que a encontrasse em outro local. O primeiro beijo, muito tímido, aconteceu nesse dia. "Depois de termos passado horas numa gráfica por causa do trabalho da Salete, nós assentamos numa praça e ficamos conversando sobre as 'ex' da Salete". "A gente conversou sobre isso porque eu não queria repetir os mesmos erros", interrompe Salete. "E foi nesse dia que a gente ficou pela primeira vez".

O primeiro beijo
Depois de encontros e desencontros e depois de uma viagem de Salete para o Rio de Janeiro, uma viagem que foi prolongada para o desespero de Márcia, a relação engatou. "Eu fui pro Rio passei o Réveillon lá e acabei tendo que ficar mais uns dias por causa da minha tese, mas assim que cheguei, a primeira coisa que fiz foi procurar a Márcia", conta Salete.

O encontro ficou para o dia seguinte e o namoro começou de forma bem tímida. "Eu estava entrando no mundo homo naquela época e o fato de eu ser 'virgem' deixava a Salete envergonhada".

A homossexualidade de Márcia, de acordo com ela, aflorou ainda durante o casamento. "Eu fugia da realidade, me fazia de hetero e tentava não enxergar os olhares atravessados que eu dava para mulheres com aspecto masculino. Além disso, eu odiava fazer sexo com meu marido. Depois da separação, decidi assumir essa minha opção e prometi pra mim mesma: 'homem nunca mais'".

Com uma irmã homossexual, Márcia conta que a mãe descobriu o namoro porque não fazia questão de esconder. "Ela acabou aceitando, mas de vez em quando implica, diz que eu tenho que voltar para o meu marido, que eu estou com a cabeça virada...".

Diante da família de Salete o assunto não é exposto. Embora o relacionamento seja público, ela prefere preservar a intimidade e reconhece um certo despreparo pessoal e para a família lidar com assunto. "Eu prefiro desse jeito, porque eles acabam aceitando de uma forma ou de outra, é como se doesse menos". "Uma vez ouvi da minha mãe que ela preferia que eu guardasse para mim", lembra Márcia.

O apoio da família, segundo o casal é fundamental. "Nós já somos discriminados na rua, ter o apoio em casa funciona como um consolo", confessa Márcia. Elas contam que nunca sofreram nenhum tipo de preconceito, mas que olhares atravessados recebem sempre.

De acordo com elas, a lei ajuda e policia o comportamento das pessoas. "As campanhas educativas servem para esclarecer e a promover o respeito e a cidadania do homossexual. Elas são importantes também para combater a própria auto-discriminação, muito comum no meio", relata Salete.

Quanto ao posicionamento da Igreja Católica sobre a união civil homossexual, Salete diz que a igreja entra em contradição. "Incita o preconceito e prega que todos somos iguais perante a Deus". "A minha opinião é a seguinte, Deus não vai discriminar uma pessoa por amar", conclui Márcia.

* Os sobrenomes não foram divulgados a pedido dos próprios entrevistados.

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