Mulher

O difícil momento da separação Separar-se é reconhecer que algo não deu certo e isso é muito
difícil, mas tem jeito de deixar as coisas mais fáceis

Marinella Souza
*Colaboração
01/11/2007

Século XXI, 2007, emancipação da mulher, criação de filhos mais aberta, liberal. Nesse contexto é de se imaginar que a separação de um casal já não é problema para mais ninguém, certo? Errado. Admitir o fim de um relacionamento continua sendo muito complicado para a mulher, para o homem e, principalmente, para os filhos.

Segundo a psicanalista, Valéria Wanda Fonseca, a separação provoca uma ferida narcísica nos ideais de família. "É sinal de que algo não deu certo, que em algum momento essas duas pessoas erraram na função de casal e isso torna a decisão muito mais dolorosa", afirma.

Valéria explica que o mais complicado é contar para os filhos, mas isso tem que ser feito o quanto antes e com muito cuidado. "Quando um casal começa a enfrentar dificuldades, as crianças ficam muito atentas e se os pais não são honestos com os filhos, a tendência é de que eles se culpem pelos conflitos", garante.

Os filhos sofrem junto

Foto de Marcelo O estudante, Marcelo Reis, sabe bem o que é isso. Seus pais se separaram duas vezes. Na primeira, ele ainda era criança e não entendia muito bem o que estava acontecendo. "Fiquei muito mal. Acredito até que eles voltaram por minha causa. Mas na segunda, fui eu que pedi para o meu pai ir embora porque o clima em casa estava muito ruim", relembra.

Marcelo conta que hoje, 12 anos após a separação definitiva do pais, ele já lida bem com a situação."Minha formação foi toda com meus pais separados, não consigo imaginar como seria minha vida com os dois juntos", justifica o estudante.

Segundo Valéria, reações como a de Marcelo são muito comuns hoje em dia, mas ainda é preciso muito tato para tratar da separação com crianças e adolescentes. "Hoje existe uma geração que sabe demais, que compartilha de todos os problemas do casal, inclusive das intimidades e isso não é bom", garante.

A psicanalista conta que a reação dos filhos está diretamente ligada à forma como o casal se porta diante da separação e, principalmente dos filhos. O limite entre as funções de casal e de pais é muito tênue no casamento. Muitas vezes, os pais se esquecem de que o próprio comportamento é o maior exemplo e, nesse momento de dor e tensão, o casal se sobrepõe aos pais.

Apesar de ser um assunto difícil em qualquer fase, Valéria garante que quanto mais maduro o filho, mais fácil é para ele entender. "Quando a criança é muito pequena, ela não entende essa separação entre 'papai e mamãe' e o casal. Na adolescência, esse entendimento é mais fácil porque a pessoa já tem mais informação, já tem acesso à sexualidade e sabe que existem problemas que não dizem respeito a eles"

Mas Valéria alerta que quanto mais problemas tiver o casal, mais difícil será para os filhos aceitarem essa separação, independente da idade."É muito comum que surjam problemas de saúde, dificuldades na escola, é muito importante que os pais saibam lidar com isso de uma maneira adequada. Muitas vezes, os pais sabem que as crianças adoecem para mantê-los juntos e acabam culpando-os por sua infelicidade e isso é péssimo" , afirma.

Falar a verdade é o principal

Foto de Valéria Apesar de vivermos em um tempo em que a separação é natural, ainda é um tema delicado e é preciso ser honesto com as crianças. "Tentar esconder só piora as coisas porque abre espaço para que elas fantasiem em cima da situação", garante Valéria. Para que a criança encare a situação de uma forma saudável, antes de mais nada, é preciso que os pais encarem da mesma forma, deixando claro para o pequeno que a falha mão está na relação pais e filhos, mas sim, entre o casal.

Valéria explica que embora seja um momento de conflito, a separação pode ser uma saída saudável para todo o núcleo familiar quando as coisas se tornam insuportáveis. "Quando estar com o outro deixa de ser prazeroso, o melhor é se separar e dar a esse casal a chance de ser feliz de outra forma".

Segundo a psicanalista, a separação não é de todo ruim, mas ainda hoje as pessoas se prendem a um casamento falido em nome de um status, do bem dos filhos ou mesmo por medo de admitir que o casamento não deu certo. "O ser humano tem muita dificuldade de assumir a responsabilidade das coisas. Se o casamento não deu certo, a tendência é responsabilizar o outro, a vida...qualquer coisa que não seja ele próprio".

Um casal que se mantém unido sob a justificativa de não querer prejudicar os filhos podem estar causando uma mal de iguais proporções. O filho pode se sentir culpado pela infelicidade dos pais e isso também não é o mais indicado. O ideal é que seja uma decisão madura e ocorra de forma amigável para o bem de todos os envolvidos. "A criança tem que se sentir confortável, ela tem que ter espaço para ter medo, sofrer, tirar suas dúvidas. Se os pais não dão esse espaço, a criança sofre duas vezes", ensina Valéria.

*Marinella Souza é estudante de Comunicação Social da UFJF

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