Em tempos de internet e celular, a cultura do "big brother" impera na sociedade e a mulher ciumenta conta com uma arma a mais na tarefa de controlar o seu amado. Os sites de relacionamento, os programas de mensagem instantânea e as agendas dos celulares são o pivô de quase todos os conflitos entre casais nos dias de hoje.
Inúmeros casais desfazem suas páginas ou mantêm uma em conjunto para evitar problemas, mas será que essa é a melhor maneira de evitar os mal-entendidos?? A advogada Aline** acredita que as páginas em conjunto são a melhor solução.
"No meu caso, foi a maneira que eu encontrei de não perder contato com meus
amigos que moram fora e evitar que as outras pessoas nos procurem com outras
intenções"
.
Aline já viveu os dois lados dessa situação. Com o primeiro marido, ela era a vigiada, as brigas eram tantas, que ela chegou a cancelar seu perfil em um site de relacionamento. Viúva e com um novo namorado, Aline sentiu-se enciumada quando ele começou a conversar com a ex.
"Chegamos a um consenso e eliminamos nossos perfis, mas eu tenho amigos que
moram em outra cidade, pessoas com as quais mantenho contato pela internet e eu
não queria perder isso. O perfil do casal foi a melhor solução"
, conta.
É, mas nem sempre essa fusão dá certo. A assistente administrativa
Roberta**
conta que ela e o marido tinham um e-mail em conjunto, mas não deu certo.
"Ele lia os e-mails endereçados a mim. No início, achava bonitinho, mas depois
eu me senti invadida. Ele chegou ao ponto de responder os recados que meus amigos
me mandavam"
, revela.
Depois de muitas brigas, o casal resolveu criar senhas diferentes para o acesso
dos e-mails e Roberta relembra que o que mais a incomodava era a falta de
privacidade. "Eu nunca escondi nada dele, então, não via motivo para que ele
vasculhasse as minhas coisas"
.
O que pode parecer a melhor saída, pode ser um motivo a mais para os conflitos
entre o casal. Segundo a psicóloga, Leandra Duarte (foto
ao lado), cada um
tem que ter direito à sua privacidade, à sua liberdade. "Quando você cria um
e-mail ou uma página na internet em conjunto, você está dando ao outro o direito
de espionar a sua vida, interpretar seus recados da maneira que lhe convier"
,
diz.
Leandra explica que a contínua exposição a qual estamos submetidos hoje em dia faz com que as pessoas se sintam no direito de vigiar, da mesma forma que são vigiadas e isso gera desencontros, conflitos e interpretações enganosas.
O problema é que nem sempre as interpretações são enganosas, como aconteceu com
a publicitária Camila**, que descobriu a traição do ex-namorado quando teve que
entrar no e-mail dele. "Nunca fui ciumenta, ele me deu a senha e eu
entrei porque precisei. Não queria vasculhar nada, mas vi fotos dele me
traindo não com uma mulher, mas com outro homem"
, recorda.
Depois desse episódio, a moça ficou com um "pé atrás" e quem paga a conta é o
atual namorado. "Agora eu fico mais em cima, cuido mais. Fiz meu namorado falar
quem eram os contatos dele num programa de mensagens instantâneas um por um. Acho ótimo
que ele não participe de sites de relacionamento"
, declara.
Além da falta de privacidade, a psicóloga vê um outro grande problema em tamanha
intimidade. "Essas relações muito 'coladas' em que um é tudo para o outro e o
outro é tudo para o um não são nada saudáveis. Em uma relação cada um tem que
ter o seu espaço, é preciso que se respeite isso"
, alerta.
Todas as entrevistadas são categóricas quanto à nova modalidade de traição que os tempos modernos inventaram. Manter contato com outras mulheres pela internet, com segundas intenções é traição, sim.
Roberta confessa que não gostaria que o marido trocasse recadinhos de amor por
esses sites. "Além de ser uma forma de traição, você fica exposto
ao ridículo porque esses sites são abertos a quem quiser ver. Seria
falta de respeito"
, diz.
Para Camila, manter contato com outras mulheres não seria traição, desde que fossem
amigas. "Mas se tiver outras intenções eu fico brava"
. Mas ela diz que
só terminaria o namoro se a situação permanecesse. "Se eu descobrisse que ele
tem um relacionamento virtual, eu ia conversar, dizer que não gosto, mas se ele
insistisse, eu terminaria, sim!"
.
Aline acredita que mesmo sem o contato entres os corpos, se houve a intenção de
estar com outra pessoa é traição. "Traição não precisa ser só física. Para mim,
ela é psicológica também"
. Mas a moça faz uma ressalva. "Se eu participar
da conversa, não considero traição. Isso depende do casal, tem gente que
não gosta, eu acho saudável"
, comenta.
Na opinião da psicóloga essa é uma questão que depende muito do casal, porém uma
coisa é certa, "se você procura uma outra pessoa é porque seu parceiro não te
satisfaz, é sinal de que algo está errado nessa história"
, diz a
psicóloga.
Leandra
garante que o diálogo é o melhor caminho. "A partir do momento que você se
propõe a fazer parte de uma dessas páginas, deixa seu recado ali, você fica
sujeito às interpretações equivocadas, cabe aos dois conversarem sobre o que
está escrito ali e desfazer o mal-entendido"
.
A psicóloga acrescenta que a internet, ao mesmo tempo em que auxilia na comunicação
entre as pessoas, pode ser uma ferramenta prejudicial porque "supre a carência
das pessoas e reduz o contato com o outro. Isso pode ser um problema porque as
pessoas podem se apegar a esse tipo de relação e não se arriscar mais a sair de
casa e conhecer novas pessoas numa balada, por exemplo. Pela internet, os riscos
e os compromissos são menores e isso é sedutor"
, explica.
**Para preservar a identidade das entrevistadas, os nomes foram modificados
*Marinella Souza é estudante de Comunicação Social na UFJF