Rousimar Ferreira Neves (Academia Actrium) é exigente com Caroline (os dois na foto ao lado). Quer que os golpes saiam perfeitos. Exige disciplina e faz questão de que ela não seja uma aluna comum. E não é mesmo, afinal, Caroline, mais do que filha de um campeão de karatê, também está se tornando uma. Do pai, Rousimar, herdou muito mais do que os ensinamentos aprendidos na academia. É em casa que os dois têm mais experiências para trocar. Ser pai e treinador, de acordo com Rousimar, não é tão simples.
"É bem complicado, porque se não tomar cuidado, pode-se misturar as posturas de pai e professor. Isto porque sou muito rígido durante o treinamento, exijo muito em tudo, parte técnica , disciplina, etc... E como pai tento ser um pouco mais maleável, conversando muito e tentando mostrar o caminho correto, longe de bebidas e drogas", conta, mas ressalta.
"Por outro lado é uma sensação indescritível ver que minha filha participa das minhas aulas e vai aos poucos absorvendo os ensinamentos que transmito dos mestres japoneses. Não só a mais velha, Caroline, como também a mais nova, Aline e minha esposa Eliane também são minhas alunas", lembra.
Rousimar fala da maleabilidade de um pai, mas reconhece que acaba às vezes sendo mais exigente por ser sua filha.
"Hoje tento ser um pouco mais imparcial, mas há algum tempo atrás cobrava um pouco mais dela que dos outros. Isto porque achava que ela estava relaxando nos treinos. Fui aprendendo aos poucos a conhecê-la, a respeitar seus limites. Assim como faço com os outros. Às vezes, quando ela não vai treinar por algum motivo, ainda não gosto muito, mas vejo que realmente ela tem outras atividades que têm que ser cumpridas tanto quanto o karatê" , explica. Caroline concorda.
"Com certeza, pelo menos, é o que eu sinto. Ele, por ser pai, naturalmente, quer que eu seja a melhor, então há uma cobrança maior", mas ressalta o prazer que é receber duplamente os ensinamentos do pai.
"No meu caso é muito bom, porque ele sendo bom no que faz é um incentivo para mim, uma fonte de inspiração. Por ser filha, eu sei dos problemas que ele passa, e vejo que mesmo assim ele tem todo o prazer de treinar. Essa questão me motiva quando estou desanimada", lembra a karateca. Rousimar Ferreira Neves ficou próximo de realizar um sonho. Classificado para o Mundial de Karatê da Austrália, viu sua filha também conseguir a vaga. Mas se já era difícil conseguir patrocínio para ele, imagina para dois atletas. Assim, o talento de Caroline ficará no Brasil, diferente do que aconteceu em outros campeonatos.
"São poucos os pais que sentem o prazer de estar competindo lado a lado em um esporte com sua filha ou seu filho. Ela já me acompanha em campeonatos nacionais. É a primeira vez que disputou uma seletiva para um mundial e conseguiu sua classificação", exalta Rousimar, que depois lamenta.
"Uma pena que este sonho não vai se concretizar desta vez. Por falta de patrocínio ela não vai poder ir ao Mundial. É lamentável que com tantas empresas em nossa cidade, não consigamos o apoio necessário, já que estaremos representando Juiz de Fora, Minas e o Brasil. Dos oito classificados em Minas, sete são meus alunos e alguns também não devem conseguir ir ao Mundial", reclama, afinal é a primeira vez que Juiz de Fora tem tantos atletas em uma Seleção Brasileira.
Caroline, que venceu no tatame, mas dessa vez ainda perdeu fora dele, está chateada e desabafa. "Infelizmente, por falta de patrocínio, não poderei acompanhar meu pai neste campeonato. Nem sei se terei essa oportunidade novamente. Um dos grandes problemas do país condiz com a falta de patrocínio e incentivo para atletas. Mas se você vai para um Mundial, por exemplo, às suas custas, e faz um bom nome, o governo corre para dizer que você é brasileira e te dá tudo. O governo deveria se envergonhar dessa atitude. Fico triste de não poder ir, pois é um dos sonhos que alimento desde pequena e estive a um passo de realizá-lo, e é decepcionante não poder ir por falta de apoio", lamenta.
Mas independente da disputa ou não do Mundial este ano, a família já mostrou que domina o karatê, e que ele é mais do que simplesmente uma disputa nos tatames.
"Nós não encaramos o karatê somente como um esporte, ela faz parte da nossa vida, são muitos anos neste caminho, eu pratico há 28 anos e ela há 10 anos. Mas na parte competitiva do karatê eu acredito que ela ainda vai muito longe. Tem futuro. E para chegar onde eu cheguei, e aonde ainda quero chegar, é só ter muita disciplina, força de vontade e compreender o que o karatê nos transmite. Quando se compreende isto, é que temos mais força para continuar em frente. E isto é para tudo na nossa vida, para superarmos toda e qualquer dificuldade. Seja no colégio, no trabalho, no relacionamento inter-pessoal, nas ansiedades, nos medos... Sempre digo isto a meus alunos. Uma parte depende de mim, outra parte dela", ensina Rousimar. A filha não pensou em fazer outra coisa.
"Sempre fui fã de artes marciais, desde pequena me identifiquei com coisas consideradas “brutas” para uma garota. Preferia brincar de lutinha com os garotos do que fazer balé como grande parte das meninas. Se eu tivesse que escolher agora, que sei o que quero, certamente escolheria o karatê, que além de me agradar como esporte, eu aprecio muito como estilo de vida", conta.
Treinar dezenas de alunos, participar de campeonatos, se defender de socos e chutes e aplicá-los realmente não parece ser fácil. Mas Rousimar Ferreira Neves não tem dúvidas ao afirmar: "ser pai é muito mais complicado", e justifica.
"Além de tudo que gira em torno do crescimento dela (dos filhos) sabe-se que nosso sangue que está ali junto de você. E nos momentos difíceis fazemos de tudo para não deixar que os filhos sejam prejudicados. Claro que não podemos também fechá-los em uma redoma, eles tem que aprender a conviver com os outros, e aos poucos superarem sozinhos suas dificuldades, mas estamos sempre do lado deles", encerra.