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Juiz de Fora, 07/09/2008

Próximos no coração
Morando em um abrigo, pais sentem saudades dos filhos e não esquecem os bons momentos que viveram com eles em outras épocas

Ricardo Corrêa
Repórter
julho/2006

A estátua de São José, ao lado da porta sempre aberta da capela do Abrigo Santa Helena deve fazer muita gente lembrar de tempos distantes... Aos braços, o Menino Jesus, com uma bolinha na mão, que consegue lembrar qualquer criança nos braços do pai. Mais do que segurá-lo, o ato de erguer um filho é bem representativo para uma função de ensinar, dar exemplos e permitir o crescimento de quem ainda dá os primeiros passos na vida.

O abrigo é uma pequena cidade. Com casinhas, uma pracinha, rua bem cuidada, capela e muitos senhores e senhoras caminhando para lá e para cá. Tem cara de cidadezinha, como a antiga Carangola onde o senhor Irany Alvino Pereira viveu boa parte da sua vida. Nascido em Lima Duarte, ele nunca gostou de cidade grande. Hoje com 70 anos, recusa-se a sair do abrigo para morar com os filhos. Mas sente saudade.

"Eles querem que eu vá ficar com eles, mas não quero ir. Eu gosto de andar. Sempre gostei de andar. E aqui é mais calmo. Não gosto de cidade não", conta o senhor Irany, que já está ali, junto de outros idosos há 10 anos.

O filho fica na lembrança, mas não só na lembrança. Vai sempre visitar. "Quando pode", diz o senhor Irany. Afinal, trabalham, possuem uma vida. O "de vez em quando" do senhor, é de 8 a 15 dias. Mas eles sempre vêm. E será assim também no Dia dos Pais.

Divorciado há 20 anos, Irany tem três filhos. Só dois é que ele consegue ver: Sidnei e Adriano. O outro, Vanderlei, está em São Paulo e às vezes é até difícil ter notícia dele. Vez ou outra ele consegue conversar com o filho longe, mas gosta mesmo é da presença dos que estão perto. Esses dois viram o pai sair de casa cedo. Um com 10, outro com 11 anos. Antes disso, senhor Irany trabalhava em um curral e fazia carrinhos e casinhas de madeira para eles brincarem. O senhor pode ter esquecido de muita coisa, mas dessa fase é realmente difícil não se lembrar. Lá, na cidade pequena, do jeitinho que ele gosta, com os filhos do lado, sendo exemplo e companhia para os filhos pequenos, ele era feliz.

Se não é possível mais voltar para a cidadezinha. Se não dá para voltar no tempo. Se as mãos já não são tão hábeis para fazer as casinhas e carrinhos. Pelo menos o mais importante daquela época o senhor Irany quer de volta. É o seu pedido para o Dia dos Pais.

"Desejo muitos anos de felicidade para mim e para eles também".

Mais quem um nome

Gil Eugênio Lacerda é ainda mais velho do que o senhor Irany. Tem 76 anos e, exatamente com a idade que o colega de abrigo está hoje, ficou doente. Seis anos que ele não gosta de ter vivido. Tem saudades é dos setenta anteriores, quando viveu e se dedicou aos filhos dos quais hoje se lembra com carinho.

Antes de um derrame que lhe paralisou metade do corpo, o senhor Gil trabalhava como sapateiro em Muriaé, no Rio ou em Juiz de Fora. Aqui na cidade ele ficou nos últimos anos, em sua casa própria, onde vivia sozinho. Lá, assim como no Abrigo Santa Helena, recebia a visita de um de seus três filhos. Os outros dois faleceram, mas em alguns momentos o senhor Gil chega a se confundir. Fala como se tivesse dois filhos ainda vivos, ou como se nenhum deles tivesse falecido.

Mais do que ser coisa de pai, é reflexo dos dias difíceis que viveu com sua doença. Ele sempre termina suas respostas falando dela. Mas se algumas lembranças foram apagadas, outras ficaram com ele.

"Lembro que eu levava eles para a escola. Eles gostavam de ir. E gostavam muito de ir no cinema também", recorda-se, para depois confessar.

"Deram muito trabalho. Toda criança dá trabalho. Às vezes eu zangava com eles porque iam brincar na casa dos amigos, faziam as coisas escondido. Essas coisas de criança mesmo", diz ele.

Recuperando-se da doença, tentando vencer as dificuldades que o corpo e a mente lhe proporcionam a cada dia, o senhor Gil pede pouco para este Dia dos Pais.

"Quero paz e saúde. Que Deus ajude nas coisas que são boas para eles. E que me deixe consciente até o Natal deste ano. Não vai ser mais como aqueles antigos, mas que eu possa estar consciente para entender de tudo, saber de tudo e conversar de tudo com ele", diz.

Dos três filhos, o único que está vivo, com 50 anos, e vai sempre visitar o senhor no Abrigo Santa Helena, leva o seu nome: Gil. Mais do que o nome do pai, herda ensinamentos, lições de vida e experiência. Afinal, de tudo que ensinou e viveu o senhor extraiu uma frase simples:

"Não me arrependo de nada".


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