Ginecologistas conveniados trabalham com tabela defasada Categoria diz que tabela usada pelos convênios e planos de saúde de Juiz de Fora é de 1992 e valores repassados a eles não cobrem os custos com o consultório
Repórter
15/09/2008
Dados divulgados pela
Associação dos Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais (Sogimig) mostram que
95% dos profissionais da área prestam serviços através de planos de saúde, no Estado.
Em Juiz de Fora não é diferente. Para o ginecologista e diretor regional da Sogimig
Elson Corrêa de Mello Junior, é difícil encontrar um médico que não atenda
por convênio. "É uma raridade encontrar quem só atenda consultas particulares"
.
A explicação está no fato de que quem pode pagar pelo valor integral de uma consulta,
também pode ter um plano de saúde. Dessa maneira, a maioria dos cerca de 200
ginecologistas existentes na cidade segue as mesmas regras e está sujeito à tabela
da
Associação Médica Brasileira (AMB), de 1992. "É uma tabela defasada"
, diz o médico.
A Sogimig informou que os valores desta tabela estão defasados em mais de 20% e a quantia
repassada aos profissionais pelos planos de saúde, muitas vezes, não cobrem os gastos com o consultório.
Mello diz que alguns pacientes chegam a pagar R$ 20 pela consulta e faz uma comparação.
"Alguns cabeleireiros estão cobrando mais do que isso
por um corte de cabelo. Na cidade é uma realidade o fato de os médicos não conseguirem cobrir as despesas.
Temos o aluguel, condomínio, secretária, telefone, internet
e os custos com os materiais descartáveis"
.
Em busca de soluções
Para tentar amenizar a situação, a Sogimig realiza uma campanha pela valorização profissional
em defesa do reajuste da remuneração dos serviços da categoria. Para o diretor regional,
a esperança está no fato de os planos de saúde começarem a adotar outra tabela,
a Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos (CBHPM).
Com ela, os repasses para os profissionais passariam a ser maiores. "Apesar de ela
ser de 2003 e não atender a todas as necessidades, ela é corrigida periodicamente"
.
Outra tentativa foi entrar com um processo na justiça para que o ginecologista e obstetra não
seja obrigado a receber honorários dos planos de saúde em caso de urgência e emergência,
mas da própria paciente. "Nós somos obrigados a ficar de sobreaviso
24 horas por causa das gestantes e o convênio não paga por isso. Quando elas passam mal de madrugada, ligam
para o médico. O que queremos é que esse atendimento de emergência seja particular, pago pela
gestante. Assim, se ela não quiser pagar, ela vai ser atendida por outro ginecologista
plantonista"
, explica.
Segundo ele, o médico não é obrigado a ir ao hospital de madrugada atender a paciente.
"Entretanto, cria-se um vínculo entre a paciente e o médico. Como ela está
mais suscetível emocionalmente, e tem mais confiança naquele médico, acabamos indo"
.
O processo da Sogimig ainda corre na justiça. Se for julgado a favor da Associação,
Mello prevê que algumas mudanças vão precisar acontecer nos hospitais. "Precisa-se
criar a figura do plantonista em ginecologia para os locais que não atendem pelo
Sistema Único de Saúde (SUS)", diz.
Ele explica que a rede privada não tem esses médicos de plantão, justamente porque
a paciente chama o seu médico quando passa mal. "É esse quadro que precisamos
inverter"
. Para ele, a presença do ginecologista no plantão já é uma realidade
na rede pública. "Temos quatro locais, entre hospitais e maternidades, com esse atendimento.
As pacientes do SUS estão bem atendidas"
.
O fato de precisar sempre estar de sobreaviso faz com que caia a qualidade no atendimento às gestantes e contribui para o aumento do número de cesáreas. Aos olhos de Mello, acaba se tornando mais fácil, para o profissional, agendar uma cesárea. Assim, ele não corre o risco de ser surpreendido com uma emergência de madrugada ou no final de semana.
Para evitar isso, o médico não atende pacientes cujo parto irá acontecer
em épocas que ele já tem compromisso agendado. "Digo às pacientes que me procuram
que eu faço o pré-natal, mas que ela vai precisar ter o bebê com outro profissional
ou, se ela preferir, é interessante que já faça o acompanhamento com outro médico"
,
explica. E completa. "Planejo as coisas com meses de antecedência. Se não for assim,
não consigo nem viajar"
.
Impedimentos para aderir à CBHPM
Para a Sogimig, a situação se agrava pelo fato de os planos de saúde estarem sendo
reajustados e o aumento estar sendo pago pelos clientes de cada operadora. "O que
ouvimos é que a adesão à CBHPM geraria impacto aos planos de saúde"
, diz Mello.
Segundo ele, há outros fatores que levaram à situação vivida pela categoria. Entre eles, está o fato de
a maioria dos usuários do sistema particular possuir planos de saúde. "Isso joga
tudo para a saúde suplementar, que utiliza, na maioria dos casos, a tabela de 1992"
.
Outro fator é o achatamento econômico vivido pelo país, com achatamento de ganho
para a população, que não quer aumento nos planos de saúde. Estes, por sua vez, têm gastos
cada vez maiores, segundo Mello.
"Os exames estão cada vez mais complexos, os custos hospitalares e com medicamentos, cada vez maiores"
,
explica.
A intervenção do governo, que colocou sobre as operadoras o Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde,
em abril deste ano, também contribuiu para que os gastos aumentassem, segundo o profissional. "Elas têm mais custos
e o governo proibiu que fossem repassados para os clientes"
. Outro fator é a concorrência
do mercado. "São cerca de dois mil médicos na cidade, o que acaba jogando o valor dos atendimento
para baixo"
.
Como conseqüência, Mello diz que profissionais precisam ter mais de um emprego.
"É normal que a maioria trabalhe em três ou quatro locais diferentes"
. A dificuldade em mobilizar os profissionais
para tentar mudar a situação está no fato de a maioria deles não ter controle sobre o que ganha. "Eles não sabem de onde
e por qual serviço estão recebendo"
.
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