De um lado, os oftalmologistas defendem a adaptação (colocação) de lentes de contato apenas por profissionais. Do outro, algumas óticas, sem qualquer estrutura, além de venderem, fazem a adaptação. Na terceira ponta, os pacientes que recorrem às óticas e não tomam o mínimo cuidado com as lentes.
"Lente de contato não é comércio. Qualquer complicação, a responsabilidade é de quem
fez a adaptação"
, diz o oftalmologista Paulo Roberto Motta.
Por isso, a ótica onde Dircéia Guilarducci é gerente optou por não adaptar as lentes
nos clientes. "Somente comercializamos e trabalhamos somente com as de grau. Quem compra com a gente
é, também, quem vem fazer os óculos"
.
A opção por não adaptar as lentes está ligada ao fato de o estabelecimento não possuir
estrutura. "Sabemos que é importante a desinfecção das lentes e precisaríamos
de um local para fazer a higiene das mãos"
, explica a gerente. O outro fator está ligado
à responsabilidade. "Se algum problema acontecer, é muita responsabilidade para
a loja"
.
Entretanto, como na maioria das óticas não há profissional habilitado, o paciente acaba recorrendo
aos médicos. "E quando eles chegam ao consultório, a complicação já está
avançada"
, diz o médico. Ele ainda critica os pacientes de ótica. "Mesmo com lesões graves,
eles não querem deixar de usar as lentes e não concordam em se tratar. Pacientes
de ótica são rebeldes"
, afirma.
Um complicador são as lentes coloridas, procuradas por vaidade. Quando o paciente
não tem problema de vista é que ele recorre diretamente às óticas, por achar desnecessário
realizar exames médicos. Motta explica que essas lentes oferecem mais riscos por causa
da coloração. Há mais facilidade em depositar ciscos, sujeira e outras substâncias
na pigmentação.
Dircéia explica que, nos locais onde as lentes coloridas são vendidas e adaptadas nos pacientes,
há um mostruário de cores. Antes de o cliente comprar, ele experimenta estas
lentes para escolher o tom que melhor combina com a cor natural do olho. "E todos experimentam
as mesmas lentes"
. Além disso, ela diz que um par dessas lentes duram de
15 a 30 dias e custam, em média, R$ 80. "Os clientes não costumam trocar as lentes
quando passa do prazo de validade e, muito menos, fazem a desinfecção com os produtos
específicos"
.
Olhos vermelhos com sensação de areia, desconforto e lacrimejamento são os primeiros
sinais de uma infecção por uso incorreto de lentes de contato. Estes sinais são
conseqüências de uma infecção superficial da córnea, de conjuntivite ou de um corpo estranho
que se aloja entre a lente e a córnea e irrita os olhos.
Se não for cuidada, a irritação superficial desenvolve para úlcera na córnea, quando
há complicação. "O problema é que a essa altura não sabemos se é fúngica ou
bacteriana. Até descobrirmos para iniciar o tratamento
pode ser tarde"
, diz Motta (foto acima). Deste ponto, a úlcera pode
diminuir ou aumentar. Neste caso, é necessário transplante
de córnea, ou, quando não há mais o que fazer, o caso desenvolve para perda do globo ocular.
Através de uma consulta com o oftalmologista, uma avaliação profunda dos olhos vai ser realizada, o que inclui exame de córnea, de lágrima e da conjuntiva. Dessa forma, o médico vai selecionar os pacientes aptos a usar a produto, já que para cada pessoa existe um material mais adequado.
Entretanto, o perfil do paciente também é analisado.
Os médicos avaliam se o paciente tem uma boa performance para se acostumar com elas.
Além disso, a avaliação inclui se a pessoa tem higiene e se é organizada. "Tem paciente
que chega no consultório e tira as lentes para o exame sem lavas as mãos. Depois
as guarda naquele estojo imundo. Isso não pode"
, diz Motta.
A higiene das lentes deve ser feita toda vez que elas forem retiradas dos olhos.
"A desinfecção é feita com produtos específicos e recomendados pelo
médico"
. Antes, é essencial lavar bem as mãos. O estojo deve ser trocado todo mês.
"Não adianta fervê-lo para limpar"
.
Outro ponto importante é respeitar o prazo de validade do produto. As descartáveis duram, em média, 30 dias
e as de uso permanente, um ano. Para o oftalmologista, o mais importante é
procurar um especialista. "As óticas vendem as lentes como um produto e não
como um procedimento médico"
, enfatiza.