Saúde


Artigo
Medo de quê?

::: 30/09/2006

Luto e dor, perdas consideradas irreparáveis, enfim, medo da morte. Vamos contar um pouquinho a história da morte, esta palavra tão negada, mas inevitável. A morte teve uma forma de ser encarada em cada época da existência: Antiguidade, Idade Média , Renascimento, Modernidade, Idade Contemporânea ... vamos colocar desta forma, mais sucinta.

Na Antiguidade, a morte era cultuada, através de rituais específicos onde o luto era vivido de uma forma intensa, porém, natural.

Já na Idade Média, com a influência do catolicismo, a morte passou a ser considerada uma passagem para uma vida melhor, tornando-se mais natural ainda, com o luto menos intenso, porém bastante natural onde crianças e jovens participavam também. Os velórios eram feitos em casa, comes e bebes, para receber os amigos, o caixão carregado a várias mãos pela cidade até seu destino final que praticamente no fundo do quintal.

No Renascimento, a morte era glorificada, o drama estendia-se de forma magistral como Romeu e Julieta. Era lindo morrer por amor, seja ele qual fosse.

Da Modernidade até a fase contemporânea houve uma mudança bastante radical na forma de encarar a morte. As pessoas passaram a temê-la, passou a ser vista como algo ruim. A partir daí, os corpos inertes passaram a sair de dentro de casa, de perto das crianças e adolescentes e passaram a ser levados para o Parque da saudade da saudade da saudade .... ou seja o mais distante possível.

E como fuga, há uma banalização da morte através de filmes, jogos virtuais, novelas ... Fazendo com que a morte se torne habitual demais para ser notada. Isso é uma forma de negação da morte. Observa-se hoje uma supervalorização da vida onde as pessoas não estão querendo envelhecer e, assim, uma desvalorização da morte, muitas vezes prolongando sofrimentos através da alta tecnologia, que se ligam a sentimentos egoístas e possessivos

Onde quero chegar? Não sei. Diante de tantas mortes coletivas e individuais ficamos assombrados ou entendemos o óbvio, que para alguns, nada é por acaso. Portanto, diante do inevitável, visto que tanta tecnologia é nada quando chega a hora de morrer, eu pergunto: medo de quê?


Ana Stuart
é psicóloga e terapeuta familiar

Sobre quais temas (da área de psicologia) você quer ler novos artigos nesta seção? A psicóloga Ana Stuart aguarda suas sugestões no e-mail viver_psique@acessa.com.