O custo do dinheiro no Brasil

Colaboração: Campe
08/05/2000

Por que no Brasil, ao contrário do que ocorre no resto do mundo e do que sugerem os princípios da matemática, existe uma diferença tão brutal entre os juros que você recebe quando faz uma aplicação financeira e os juros que você paga quando tem um crédito a saldar?

Afinal, por que o BACEN, Banco Central, corta em dois terços a taxa básica de juro e o crédito não fica mais barato para o consumidor final? Enfim, por que o dinheiro é tão caro no Brasil?

A começar pelo princípio, o dinheiro é como qualquer outra mercadoria, ele tem preço e estes preços são os juros. Isto significa dizer que quem tem mais dinheiro do que precisa o aluga para outra pessoa e, se ao contrário, uma pessoa precisa de mais dinheiro do que dispõe, esta usa dinheiro de outra pessoa e paga um aluguel. Esse aluguel são os juros.

No caso específico do Brasil, o dinheiro é mais caro simplesmente porque a procura por dinheiro supera em muito a sua oferta, e quem contribui para que isso aconteça, sendo o responsável pela grande procura de dinheiro, é o governo. A maneira mais técnica para explicar este fato é através da análise da estratégia do governo de tirar dinheiro da economia, ou seja, na “cunha monetária”. Esta “cunha monetária” tem duas razões: o déficit do Estado, que exige dinheiro para ser coberto e o combate à inflação, que impede o governo de imprimir papel-moeda para cobri-lo. Frente à política fiscal adotada atualmente pelo governo, chamada de política expansionista, em que o governo gasta mais do que arrecada e necessita financiar o déficit, mostra-se necessária a adoção de uma política monetária contracionista (o que inclui juros altos), fazendo com que o setor privado gaste menos do que ganha e gerando assim o excesso de capital que o governo precisa para se financiar.

Para fazer esta ponte, o sistema financeiro intermedia o processo entre quem tem dinheiro disponível para alugar e quem precisa alugar dinheiro. Com a insaciável “fome de dinheiro” do governo, em que sobra menos dinheiro para alugar a outros possíveis tomadores, bem como com a manutenção dos juros nominais em alta encarecendo o dinheiro para os bancos, estes obviamente o venderão mais caro ainda, provocando dessa forma a elevação em cadeia dos juros e inviabilizando as operações de crédito para os tomadores finais (indivíduos como você e empresas como a que você trabalha).

Diferentemente do que ocorre nos outros países, os bancos não podem vender todo o dinheiro que compram. Eles têm que deixar parte dos recursos que administram sob custódia do Banco Central. Estes depósitos são chamados depósitos compulsórios e conseqüentemente impedem que os bancos emprestem dinheiro demais e que a economia se aqueça, provocando inflação. Porém, todo este dinheiro bloqueado nos depósitos compulsórios ajuda a tirar da economia o capital que poderia financiar empresas que querem produzir mais e consumidores que querem comprar mais, alocando-o quase que exclusivamente para “tapar os buracos” orçamentários do governo.

Além da “cunha monetária”, a carga tributária que incide sobre o crédito no país ou cunha fiscal, também tem uma parcela significativa de culpa. Ao todo, o governo encarece o crédito no país com seis impostos diferentes, enquanto que nos Estados Unidos a situação é inversa e o governo incentiva o crédito.

A “cunha fiscal” faz do governo, outra vez, um sócio dos juros altos. Uma boa parte da diferença dos juros que o banco paga ao poupador e os que cobra dos consumidores não fica com o banco. À medida que as taxas de juros baixam e as alíquotas de imposto se mantêm inalteradas, a carga tributária que pesa sobre o crédito contribui mais e mais para encarecer o dinheiro.

Finalmente, podemos concluir que os juros no Brasil só vão baixar para patamares mais civilizados quando o governo “azular” as suas contas. No entanto, o governo não é o único responsável pelo spread violentíssimo entre a taxa do mercado interbancário e taxa para o consumidor, ressaltando que, para diminuir essa distância – e é fundamental que ela encolha – existem também outros fatores fora da jurisdição direta do governo que precisam ser atacados.

Colaboração:
Departamento de Recursos Humanos
- CAMPE - Consultoria a Médias
e Pequenas Empresas da
Faculdade de Economia e
Administração da UFJF.
campe@fea.ufjf.br

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