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    Cecília Junqueira Cecília Junqueira 16/7/2012

    Quando o fim leva a um novo começo...

    Aterro de GramachoO cenário é nefasto, aterrador, império do caos, como num filme hollywoodiano sobre o fim dos tempos. Assim é Gramacho. Ao mesmo tempo, aquilo que a sociedade rejeita como material inútil, lá é especiaria das Índias, negócio das Arábias. Não é preciso ser sociólogo para se curvar diante da complexidade do tema. Afinal, já disse Caetano, gente é para brilhar não para morrer de fome. Mas, sempre, assistir a criaturas humanas misturadas ao lixo, num balé dramático, choca, paralisa. Para nós, que já fomos à lua, fazemos serenatas, manipulamos genes, formamos líderes, construímos deuses, que somos capazes de tanto, nos vermos resumidos ao instinto de sobrevivência da forma mais rude e cruel é retroceder, desperdício de humanidade. Assim é Gramacho. Ou pelo menos era.

    Após 35 anos de existência, finalmente, foi desativado o maior lixão das Américas, superlativo que põe às escâncaras sua vulnerabilidade social e ambiental. Foi no dia 3 de junho deste ano a cerimônia de fechamento do lixão, que contou com a presença da ministra Izabella Teixeira e do prefeito do Rio de janeiro, Eduardo Paes. A ministra anunciou o fechamento de todos os lixões até 2014 como meta de programa da Política Nacional de Resíduos Sólidos (meta audaciosa para um país que tem 60% dos municípios ainda operando por meio de lixões). A partir de agora, parece que todo o lixo de Gramacho será encaminhado para o Centro de Tratamento de Resíduos (CTR) de Seropédica, o "melhor, mais moderno e seguro da América do Sul". Até que enfim!

    Além do óbvio comprometimento social que envolve uma manutenção de lixão, existe também a problemática ambiental; por isso, desde 2005, a Prefeitura de Caxias cobrava uma taxa de recomposição ambiental (talão verde), mas acabou estimulando aterros clandestinos no entorno, o que só fez aumentar a degradação do solo e a contaminação do lençol freático. A promessa é a de que o monitoramento ambiental de Gramacho se fará durante os próximos 30 anos, para que nenhum vazamento fuja do controle. Tomara.
    Desde 2007, fala-se na desativação do aterro, devido ao grau de saturação do solo, que, dramaticamente, fica ao lado da Baía de Guanabara, numa área de mangue. Jardim Gramacho é um bairro de Duque de Caxias, mas no imaginário coletivo, Gramacho é o próprio lixão devido às suas grandes proporções: o local, de 1,3 milhões de metros quadrados, recebia diariamente mais de oito mil toneladas/dia de lixo, provenientes de move municípios (da Baixada Fluminense e do Rio de Janeiro), coisa muito feia de se ver.

    O fator humano

    gente quer comer, gente quer ser feliz /
    gente pobre arrancando a vida com as mãos

    Em Jardim Gramacho há uma população de mais de 20 mil pessoas, que, indiretamente, sofrem as agruras de coexistir com o lixão. Diretamente, mesmo, eram 5 mil os catadores que viviam no bolsão de miséria, sem saneamento, sem equipamento de proteção individual, vivendo em moradias precárias, sofrendo desnutrição... Com o fechamento do lixão, o futuro dessa gente iria de mal a pior. E agora, José?

    Parece que estão chegando boas novas. Há um projeto de capacitar os catadores para novas funções, respeitando e incentivando o protagonismo deles em outras cadeias produtivas, com investimento de R$1,5 milhão. Tem mais: o metano, proveniente do lixo em decomposição de Gramacho, será vendido como fonte energética, e seu lucro repartido entre os catadores, que ganharão também seguro-desemprego e uma indenização em torno de R$ 15 mil. É um começo...

    Gramacho ganhou projeção internacional com o documentário Lixo Extraordinário, indicado ao Oscar em 2011, que mostra o trabalho do artista plástico Vik Muniz com material coletado no lixão (Vik Muniz participou da Rio +20: é obra dele aquela instalação gigante, feita de "lixo", que reproduz um cartão postal do Rio).

    Tião Santos, estrela do documentário e presidente da Associação de Catadores de Gramacho, acha que é preciso dar suporte para o catador, porque é ele, com seu trabalho árduo de formiguinha, o responsável por 90% da reciclagem no país. Eu também defendo a ideia de que o catador é um agente ambiental como outro qualquer, e que deve ser reconhecido e remunerado como tal, inclusive pelas prefeituras, pelo serviço prestado. E que o trabalho de triagem deve ser feito, inicialmente, pelo consumidor, na própria casa, depois pelo catador, nas usinas de triagem, e longe das montanhas de lixo.

    Gramacho foi uma página infeliz da nossa história, um crime socioambiental cometido por mais de três décadas, tendo como cúmplices por omissão cidades inteiras, mas o Rio está tendo a oportunidade de usar o fim de Gramacho para criar um novo começo, onde se estabeleçam critérios mais humanos e princípios da engenharia ambiental. Que assim seja, que Gramacho seja história, por nós e pela gente que vem vindo. E que não sejam esquecidos os erros do passado, para que eles não se repitam no futuro.

    Abraço verde!



    Cecília Junqueira é gestora ambiental, pós-graduada em problemas ambientais urbanos
    e integrante da "Mundo Verde projetos ambientais".

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