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    Cecília Junqueira Cecília Junqueira 16/10/2012

    Eterno enquanto (brevemente) durar

    LiquidificadorJá reparou que nossos eletrodomésticos são piores do que os do tempo da vovó? Esse é um grande paradoxo, afinal, os avanços tecnológicos deveriam aumentar a durabilidade das coisas, mas o que ocorre é exatamente o contrário, não por incapacidade técnica. O que acontece que os produtos são programados para durar pouco.

    E é assim desde o final da Primeira Guerra, lá se vão quase cem anos e, de lá para cá, a coisa só piorou. Reza a lenda que os economistas da época precisavam bolar um mecanismo para alavancar o sistema econômico dilacerado pela guerra, foi então que surgiu a idéia de diminuir o tempo de vida dos produtos, a fim de reduzir o período entre uma compra e outra e aumentar a rotatividade. A obsolescência programada, desde então, virou práxis.

    Caso corriqueiro é o da máquina de lavar, que é projetada para parar de funcionar cinco anos após a compra, o que funciona como um tiro no pé, porque o consumidor pode (e deve) mudar de marca, caso isto ocorra. É estupidez a não disponibilidade de peças substitutas só para induzir o consumidor a comprar outro produto inteiro novo, isso gera desperdício de recurso natural, desperdício de energia, geração exagerada de lixo, queima o filme da marca...

    Dia desses, fui, animada, levar meu liquidificador quase decano para o conserto, quando o diagnóstico foi implacável: "Senhora, é mais barato comprar outro." Confesso que fiquei chateada, porque sei que ele daria uma boas vitaminas ainda, mas o sistema não quis assim... Fiquei com aquele motor do liquidificador na mão, pensando na forma correta de me desfazer dele, levei a uma autorizada da marca e perguntei se eles se responsabilizariam pela destinação do produto pós-consumo (a política reversa me assegura isso), a vendedora deu um risinho sarcástico, mais preocupada com a cor das suas unhas... Queria que ele fosse "enterrado" com outros entes da mesma família que ele, mas "morreu" como indigente... A reciclagem, com muito custo, ficou com os restos mortais do meu liquidificador, mas me fez lembrar de que estava fazendo uma exceção, um favor...

    Parece que, agora, especialistas estão cobrando um marco regulatório sobre obsolescência programada, envolvendo um esforço das indústrias e do governo, no intuito de tornar mais transparente a vida útil dos produtos na hora da compra, disponibilizando peças substitutas e delegando responsabilidades pós-venda.

    O próprio Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia), reconhece sua limitação, quando diz fiscalizar "somente" segurança do produto; saúde e meio ambiente, o que é contraditório, pois a durabilidade dos produtos afeta tanto a segurança do produto, quanto a saúde e o meio ambiente, portanto, são critérios complementares, não excludentes...

    Uma realidade-problema no cenário mercadológico brasileiro é a invasão dos produtos chineses a partir do final da década de 90. São produtos, em sua maioria, de má qualidade, que duram pouco e muito mais baratos que os da concorrência, aos quais fica difícil dizer "não", num país onde a classe C é a que mais cresce e que está começando a experimentar o gostinho de uma Victor Hugo, mesmo que genérica... Os camelôs e a modinha bebem muito da fonte da obsolescência programada também porque exploram produtos de baixa durabilidade e alta rotatividade.

    Fica a dica do documentário de Cosima Dannoritzer, intitulado Comprar, jogar fora, comprar, onde a cineasta deixa muito claro o princípio da obsolescência por trás da produção de bens de consumo. Um momento exemplar é o caso da Epson, que, quando chega a um número determinado de páginas impressas, deixa de imprimir, um crime consentido pelo mercado formal.

    Nós, enquanto consumidores, devemos ficar atentos, optar por produtos que ofereçam vida longa e que tenham conduta ética de transparência e de corresponsabilidade no pós-venda, exigindo produtos mais eficientes e econômicos.

    Estamos na era dos descartáveis, mas o planeta, natural e humano, clama por parcimônia.

    Abraço verde!

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    Cecília Junqueira é gestora ambiental, pós-graduada em problemas ambientais urbanos
    e integrante da "Mundo Verde projetos ambientais"

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