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    Profissional “ECO” 

    Nome do Colunista Juliana Machado 03/10/2016
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    Quando comecei a investigar o tema deste mês me enveredei por uma rede de pensamentos que foram sendo modificados na medida em que eventos em minha vida e na vida do meu país vinham acontecendo. Iniciei a reflexão a partir de uma pequena conversa com alguns alunos sobre o quão bom seria se todos os profissionais tivessem uma formação que se dedicasse à temática ambiental, afinal, vivemos, moramos e trabalhamos em um único lugar, a Terra e modificamos este espaço comum com as atividades que executamos diariamente. Caberia a cada um de nós agir com este pano de fundo, ou seja, atuar de modo responsável seja lá qual fosse  o nosso ganha pão. E, que bom seria se esta preocupação tivesse início desde os primeiros anos de educação formal, sem que fosse obrigatória como conteúdo escolar. Em última análise, eu e meu olhar colorido com florzinhas, veríamos arquitetos, médicos, farmacêuticos, engenheiros, administradores e economistas, por exemplo, atuando com qualidade e levando em consideração os impactos de suas profissões, opiniões e modos de viver no planeta. Ia ser lindo...

    Aí, no meio desta reflexão toda cor-de-rosa, sou surpreendida por uma possível reforma nacional do Ensino Médio. A tal reforma do Ensino Médio, proposta por pessoas nem um pouco preocupadas com a pedagogia em si, além de assassinar uma série de conteúdos, nem menção clara à temática ambiental faz. Deixa nítido que importante será instrumentalizar tecnicamente os alunos, mão de obra que deve ser barata, não pensante, padronizada, capacitada para manipular bem os números e as letras. Ponto. Desnecessário conhecer o próprio corpo, o próprio planeta, refletir eticamente sobre seu estar no mundo. Desnecessário que se compreenda a teia social, que se pratique e vivencie a arte e se delicie com os prazeres e lazeres que só o esporte muitas vezes pode proporcionar. O importante é estender a carga horária, sentados em suas carteiras, preparados para um ensino tecnicista que desvaloriza o aluno e obviamente, mais do que nunca, o professor. Por sinal esta palavra vai cair em desuso. Será necessário apenas um “notório saber” seja lá o que na prática cotidiana da sala de aula isso signifique.

    Perdoem-me caros leitores, mesclar tão descaradamente o conteúdo ecológico, foco desta coluna, com toda esta reflexão didático-política. Mas sinceramente, em minha cabeça nenhuma destas coisas se separam. Não consigo aceitar uma educação que fuja de tudo aquilo que minhas extensas aulas na licenciatura mostraram. O saber do aluno, a prática em sala de aula, a vivência diária, a qualidade de vida e de trabalho do professor, as conexões entre inúmeras disciplinas, a possibilidade de um pensamento transdisciplinar, tudo isso é nutriente para um saber consistente. Tão consistente que, amar a própria casa – a Terra – seria natural e não algo que acontecesse apenas em aulas de biologia, apenas na escola.  

    Se hoje eu já questiono o modo como somos obrigados a ensinar (tendo em vista exames de seleção e as expectativas de pais e alunos para a aprovação), imagine, se, ou quando esta reforma tornar-se realidade. Se não estivermos destinados a eliminar as ciências do currículo, teremos que no máximo adequar o seu ensino a habilidade técnicas no ensino médio.

    Não sou contra reformas. Mas almejo uma reformulação de currículo que valorize o conteúdo maravilhoso que pode ser trabalhado, o profissional dedicado que está preparado para compartilhar estes saberes e os alunos, caixinhas cheias de histórias, ansiedade e anseios que desejam o conhecimento, mas no tempo e modo deles. Não é possível desejar um humano adulto que respeite a Terra, que defenda mares, que recicle, que se torne vegetariano, que se manifeste contra a poluição, que seja empático quando ao sofrimento de pessoas que padecem em função das mutilações que projetamos no planeta, se não permitirmos que ele cresça em um ambiente pedagógico favorável a isto. Como um humano será consciente para olhar a transação de compra da Monsanto pela Bayer, por exemplo, de modo crítico e não somente como se olha a compra de bananas em um mercado? Como desejar adolescentes que saibam em quem votar se nem mesmo oferecemos espaço para pensar? De que maneira podemos desejar profissionais melhores, mais éticos, responsáveis e ecológicos, se formamos cidadãos desde a infância com o puro objetivo de girarem a máquina do capitalismo?

    Assim, o que penso de modo piegas talvez, é que a educação é a mola que deveria propelir o mundo em direção a uma realidade muito melhor. Somos parte de uma teia ecológica ampla e complexa. Não podemos tratar tudo isso com simplificação, podando possibilidades. Fica a reflexão.

    Juliana Machado é Bióloga, mestre em Ciências Biológicas - Comportamento e Biologia Animal - UFJF/MG. Doutoranda em Bioética, ética aplicada e saúde coletiva - UFRJ/UFF/UERJ e Fiocruz.Nome do Colunista

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