Cecilia Junqueira Cecília Junqueira 16/10/2010

Diga qual é o teu lixo e te direi quem és...

 

Lixo espalhadoAlguém disse que, para conhecermos o estágio de desenvolvimento de um país, basta olharmos para suas crianças e seus idosos. As sociedades que entendem a importância de cuidar e educar suas crianças, que não só garantem dignidade para seus idosos, mas ouvem o que têm a dizer, são sociedades que, valendo-se de todos, são ricas. Quando a organização entende a criança e o idoso como pesos sociais, como lixo social, há que soar um alerta!

Não é a mais bonita das comparações, mas, infelizmente, apropriada: a sociedade que vê o seu lixo como um estorvo, é a mesma que não reconhece a sua riqueza social.

"Lixo é todo e qualquer resíduo proveniente das ações humanas, considerado inútil, supérfluo." Este conceito omite, no mínimo, duas grandes considerações: a de que o lixo pode ser minimizado, reutilizado e reciclado, e a de que existe uma responsabilidade inescapável para os geradores de resíduos (consumidores ou produtores) — responsabilidade que é social e hoje é, em muitos casos, passível de punição legal.

Conceitos simplistas e preconceituosos, relativos ao lixo, reforçam a falsa ideia de que ele é constituído de resíduos inservíveis, muitas vezes repugnantes, que devem ser retirados de nosso campo de visão o mais rapidamente possível, de preferência num passe de mágica... Este tipo de mentalidade diz, e muito, sobre nosso grau de civilidade.

Temos como saber que hoje lixo é alternativa energética, é matéria prima no ciclo produtivo, é linha de crédito para projetos, é arte (que o diga Vik Muniz), além de importante fonte de geração de emprego e renda.

Um outro aspecto a ser analisado diz respeito às condições econômicas (poder aquisitivo) e culturais (hábitos e costumes) de um país, que refletem diretamente na qualidade e na quantidade de lixo gerado. O lixo carrega em sua composição evidências de nossas escolhas, que podem ser usadas para traçar nosso perfil humano.

A forma com que nossa sociedade realiza o tratamento e a disposição final do lixo fala por si só. Vamos aos números?

  • No Brasil, cada habitante gera aproximadamente 1 kg de lixo por dia
  • Mais de 60% dos municípios utilizam lixões a céu aberto
  • Somente 6% dos municípios realizam a coleta seletiva
  • 90% das latas de alumínio são recicladas (embora seja muito mais como fonte de renda do que por consciência)
  • 65% do nosso lixo é matéria orgânica (evidência do nosso baixo índice de industrialização e do nosso alto índice de desperdício).

O novo que nos cai nas mãos é a recente aprovação da Política Nacional dos Resíduos Sólidos (PNRS): estados e municípios deverão elaborar planos de gestão integrada do seus resíduos (lixo). Isto implicará na substituição dos lixões por aterros (controlados ou sanitários), no incentivo à reciclagem, na reutilização e coleta seletiva, além do estímulo à minimização de resíduos: contrapartida para obtenção de recursos da União.

Quanto às empresas, uma das inovações é a responsabilidade compartilhada, em que os três setores da sociedade se responsabilizam pelo ciclo de vida dos produtos (produção, utilização e descarte), ou seja, um acompanhamento "do berço ao túmulo".

Outro ponto forte é a logística reversa (já existente no caso dos fabricantes de pilhas e pneus, agora estendida para lâmpadas fluorescentes, eletroeletrônicos, agrotóxicos...), que atribui aos responsáveis o recolhimento ou o retorno dos resíduos após consumo e descarte pela população. A Política de Resíduos dará benefícios e linhas de crédito para projetos que visem a implantação da PNRS. A escolha de profissionais credenciados é determinante para o sucesso do projeto. Apesar de todos os benefícios dessa lei, é importante dizer que a Política demorou 21 anos até ser finalmente aprovada: é mais uma prova de que estamos apenas começando.



Cecília Junqueira é gestora ambiental, pós graduanda em problemas ambientais urbanos
e integrante da Mundo Verde projetos ambientais