Bulas de Remédio
Você sabe o que elas querem dizer?
O que determina a nova portaria da Anvisa?

Débora Sereno
06/04/04

O médico Luciano Furtado fala sobre o papel e a importância das bulas dos remédios.

Ouça! Leia!

Agradar - e sobretudo informar - gregos e troianos. Essa é a difícil missão da Resolução nº 140, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária - ANVISA - que estabelece as regras das bulas de medicamentos para pacientes e para profissionais de saúde.

Através da sua Ouvidoria e das reclamações que chegavam ao órgão através dos mais diversos canais, a agência descobriu aquilo que já era senso comum: as bulas dos medicamentos muitas vezes não cumprem com o dever de esclarecer sobre os medicamentos e, em alguns casos, confundem mais do que informam.

Mas o que elas dizem?
Quem têm o hábito de ler as bulas conhece o problema. A principal reclamação dos usuários diz respeito ao tamanho das letras. Na tentativa de colocar o maior número de informações possíveis no menor pedaço de papel, a indústria farmacêutica acaba espremendo tudo em letras miúdas.

Maria Auxiliadora Coelho de Souza A dona de casa, Iolanda de Castro, que o diga. A dificuldade para entender as letrinhas pequenas e a linguagem complicada já fizeram com que ela desistisse de ler as bulas. "Além de forçar a vista, sei que não vou entender. Se o médico receitou, tomo o remédio e pronto". No caso de dúvidas: "a gente pergunta na farmácia". A dona de casa, Maria Auxiliadora Coelho de Souza (foto ao lado) também se diz insatisfeita. "Elas são muito complicadas. Deviam ter uma linguagem mais simples para gente entender e a letra também devia ser bem maior".

Sibele Motta Costa conhece os dois lados da moeda. Com vinte anos de experiência, a farmacêutica trabalhou a maior parte do tempo na indústria de remédios e sabe que a tarefa de elaborar as bulas não é nada fácil. "A cada dia temos que colocar uma informação nova. É tanta coisa, que o jeito é espremer tudo mesmo. E, em alguns casos, são informações desnecessárias".

As dificuldades para profissionais
Luciano Furtado Os problemas apontados vão muito além da pura diagramação do documento. O conteúdo deixa a desejar tanto para profissionais de saúde como para os consumidores. Para os leigos, o vocabulário exageradamente técnico acaba se tornando um enigma à parte. Cria mais dúvidas do que esclarece. Para os profissionais de saúde, médicos e farmacêuticos, muitas vezes, apesar da linguagem rebuscada, o material divulgado é incompleto e superficial.

Agora, há dois anos trabalhando direto com o público em uma farmácia, Sibele concorda com as reclamações. "Muitas bulas são incompletas e não esclarecem o mínimo necessário sobre o medicamento". A profissional diz que às vezes tem que entrar em contato com as empresas para tentar esclarecer algumas dúvidas. Mas credita que, se tomadas as providências que estão sendo anunciadas, a situação deve melhorar muito.

Já o médico Luciano Furtado (foto acima) se diz satisfeito com a maior parte das bulas, apesar de concordar que em alguns casos elas são incompletas."O papel principal da bula é informar ao paciente sobre as reações adversas. E isso, a maior parte cumpre".

Cleimar Aparecida L. Esteves Reis A farmacêutica, Cleimar Aparecida L. Esteves Reis (foto ao lado), chama atenção para outros cuidados. "A bula é uma faca de dois gumes: se tem muita informação acaba confundindo o paciente e se tem pouca informação não esclarece as dúvidas". Para a profissional, a solução proposta pela Anvisa seria o ideal: elaborar dois documentos, um voltado para profissionais, mais técnico e completo, e outro voltado para os pacientes com uma linguagem mais acessível.

Mas Luciano aponta outro possibilidade: "Se a linguagem for simplificada cada vez mais, o paciente pode acabar tendo mais facilidade para se auto-medicar". Assim como a Cleimar, ele concorda que o paciente muitas vezes utiliza a bula de forma errada: busca informações para a prática da auto-medicação. Outros ficam impressionados com os possíveis efeitos colaterais e começam a buscar sintomas onde não existem problemas.

O que esperar da nova resolução
A nova resolução RDC 140, que veio à tona em maio de 2003, começa a trazer os primeiros resultados. O documento determina detalhadamente as informações que devem constar na bula e a melhor forma de fazê-lo. As mudanças foram feitas com base nas reclamações mais comuns entre os consumidores e profissionais. O projeto foi submetido à consulta de universidades, hospitais, órgãos de defesa do consumidor e entidades de classe, para que estas pudessem opinar na legislação.

Além disso, terminou na última semana de março, o prazo para que fabricantes de aproximadamente 600 produtos, que integram a lista de medicamentos de referência das agência, enviassem à Anvisa bulas adequadas ao novo formato. O órgão agora irá fazer a revisão das documentos e irá disponibilizar os texto para que eles sirvam de modelo para a produção de textos dos genéricos e similares.

A Anvisa prevê que essa etapa seja finalizada até o segundo semestre de 2004. Depois disso, os fabricantes terão 180 dias para se adaptar às novas regras. Outra iniciativa da Anvisa, aprovada por profissionais, é a criação do Bulário Eletrônico - uma página na Internet com todas as bulas aprovadas pelo órgão em formato digital.

Num ponto profissionais e leigos concordam se forem adotadas as mudanças previstas, ler um bula de remédio será bem fácil. E todos saem ganhando: consumidor e profissionais.

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  • Confira a Resolução da Anvisa na íntegra

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