PARATY, RJ (FOLHAPRESS) - Uma bandeira do Brasil com "Fora Bolsonaro" no lugar do lema positivista "Ordem e Progresso" foi aberta pela historiadora Heloísa Starling na mesa inaugural da Casa Folha, na Flip 2022, durante discussão sobre a atual disputa política dos símbolos nacionais e também da ideia de nação e de humanidade.

O debate com mote dos 200 anos de Independência do Brasil reuniu Starling, professora de história da Universidade Federal de Minas Gerais e coordenadora do Projeto República, e a historiadora Ana Flávia Magalhães Pinto, da Universidade de Brasília, com mediação do jornalista Naief Haddad, repórter especial da Folha de S.Paulo.

"Para que não sejamos só um território geográfico com um amontoado de indivíduos interessados em seus objetivos particulares e nos tornemos uma comunidade política, precisamos imaginar como será essa comunidade", avalia Starling, lembrando que movimentos emancipatórios, como a Inconfidência Mineira e a Conjuração Baiana, se apressaram em criar suas próprias bandeiras.

A da revolta baiana traz escrito, em latim, um chamado que ressoa no contexto atual: "Apareça, não se esconda" ("surge, nec mergitur").

"Símbolos são essenciais porque a gente não imagina no vazio. E nenhuma sociedade consegue sobreviver sem um projeto de futuro", diz ela, autora de livros como "Ser Republicano no Brasil Colônia", "Brasil, Uma Biografia", com Lilia Schwarcz, "Independência do Brasil - As Mulheres que Estavam Lá", com Antônia Pellegrino, e o recém-lançado "Linguagem da Destruição: A Democracia Brasileira em Crise", com Miguel Lago e Newton Bignotto.

Ana Flávia avalia que "o jogo da cidadania tem sido cruel com a maioria da população" e que os símbolos nacionais também carregam a exclusão que promoveram.

"Não tem como anistiar marcos do passado como a chegada dos portugueses, a Independência e a abolição, por exemplo. E, ainda que tenha existido luta nesses momentos, eles serviram para consolidar o projeto de um Brasil excludente", explica ela, destacando os dispositivos da Constituição de 1824 que vetaram a participação de negros libertos ou nascidos livres da vida política do país, num momento em que o Brasil era tinha maioria negra e 7 a cada 10 brasileiros pretos e pardos eram formalmente livres.

"Não podemos jogar o passado fora, mas é preciso confrontá-lo discursivamente e imageticamente até como maneira de reposicioná-lo como possibilidades de Brasil que têm sido negligenciadas", diz ela, autora de "Imprensa Negra do Brasil do Século 19" e "Escritos de Liberdade: Literatos Negros, Racismo e Cidadania no Brasil Oitocentista".

Na disputa política atual, Ana Flávia destaca o lugar social de pessoas negras em ambos os campos políticos. "Os grupos de direita fingem que não existimos ou nos atacam, e grupos de esquerda não podem mais nos pôr na sala de espera, na cozinha e no serviço", aponta, lembrando que a população negra e as mulheres foram segmentos menos simpáticos à candidatura de Jair Bolsonaro e seu "projeto de genocídio" do que o segmento de homens brancos.

"Esses símbolos nacionais foram construídos para negar a humanidade e a cidadania de gente negra e indígena", avalia. "É tempo de confrontarmos não só se a nossa bandeira será vermelha mas quais são as cores e os termos que vamos entender como aqueles da nação. Não dá para continuarmos com uma nação que apresente negros e indígenas como 'os outros'."

Para Starling, "símbolos são importantes para a construção da nossa identidade plural e foram apropriados por um grupo da sociedade que exclui o outro, reproduzindo contemporaneamente e numa forma política aquilo que é a exclusão dos brasileiros".

"Quando digo que tem cidadão de bem, é porque considero que existe cidadão do mal", destaca. "Sabemos como morre uma democracia, e precisamos pensar em como fazer renascer a democracia no Brasil."