FOLHAPRESS - Diante de um mundo em que jovens negros têm suas vidas ceifadas em decorrência da violência policial, ver um homem negro chegar à terceira idade às vezes pode nos fazer pensar na existência de alguma habilidade extraordinária que o permitiu sobreviver por tanto tempo. Johnny Ribkins, de 72 anos, protagonista do romance "A Talentosa Família Ribkins", da autora afro-americana Ladee Hubbard, escuta, não à toa, a seguinte constatação de sua cunhada: "Se há algo que você sabe fazer é sobreviver neste mundo".

Influenciada pelo ensaio "O Décimo Talentoso", de W.E.B. Du Bois, no qual o intelectual afro-americano defende que o povo negro será salvo por homens excepcionais com acesso à educação superior, Hubbard apresenta uma família com homens e mulheres comuns que carregam "o fardo e a bênção de um estranho talento" -como enxergar no escuro, escalar muros, fazer mapas -, "pequenas faíscas de algo especial" que protegem suas vidas em meio ao sul segregado e à luta dos movimentos pelos direitos civis.

Em um trânsito entre um presente marcado por uma luta por liberdade que ainda não acabou e um passado atravessado pelas esperanças daqueles que lutaram por ela, acompanhamos os passos de Johnny Ribkins, ex-ativista dos direitos civis, cujo talento era desenhar "mapas não apenas para os muros que ele via, mas também para os muros por trás desses muros". Afinal, tentar andar livremente pelas ruas durante a segregação racial "parecia uma provocação para muita gente, então, você tinha que saber onde parar".

Velho, sozinho, endividado e ameaçado de morte, Johnny volta à casa do irmão que morreu, Franklin, como início de uma jornada de uma semana vivida ao lado de sua sobrinha adolescente, Eloise, para quitar suas dívidas com um estelionatário. Ao escavar os buracos que cavou em diferentes lugares do estado da Flórida quando mais jovem, onde enterrou objetos de valor por gostar de "deixar alguma coisa para trás", Johnny percebe que o resgate que precisa fazer é de si mesmo e de sua família.

Os buracos que cava na terra o conduzem, então, aos buracos de sua vida, dando chance para a aceitação de um "passado vergonhoso" como um passado de homens que eram apenas homens, como dizia Franklin, cujo talento era escalar com uma "necessidade destemida" como quem deseja mais da vida.

Nesse processo, a relação com Eloise, a maior recordação viva de seu irmão, irrompe como a possibilidade libertadora, num mundo racista, de ser visto apenas como um "tio velho e gentil" e nada ameaçador.

Durante sua jornada, Johnny reencontra parceiros e parentes com quem conviveu no Comitê de Justiça, criado, no contexto da luta por direitos civis, por "um grupo de pessoas tentando fazer o que podiam para manter seus heróis a salvo". Nessas visitas, tensões, divergências, reconciliações, cobranças vêm à tona, de maneira que o passado é revisitado desde múltiplas vozes e perspectivas, sem espaço para a idealização de uma família negra, ainda que talentosa; de uma organização negra, ainda que progressista.

"A Talentosa Família Ribkins" é, assim, um romance que aposta radicalmente na humanização da vida negra, pois, mesmo abençoados com talentos especiais, os Ribkins não passam incólumes aos efeitos da escravidão e do racismo. No entanto, são esses talentos uma "fonte de força e um estranho consolo" que nos lembram que há milhões de meninos e meninas que são jovens, talentosos e negros, como canta Nina Simone, em "To Be Young, Gifted and Black". E, ao conseguir sobreviver por gerações, toda família negra é também talentosa.