Paula Medeiros Paula Medeiros 19/11/2010

Uma Tropa mais madura 

Cena do Filme com Wagner MouraPensando na realização do filme como um todo, Tropa de Elite 2 se configura extremamente eficiente diante do público. A fórmula ação mais reflexão é bem aproveitada por José Padilha e mesmo com a especificação de que a obra é fictícia, não há como negar que a mesma se configura como uma crítica ácida ou pelo menos como uma explanação de situações bastante comuns em nosso país.

Depois de ser afastado do Bope e nomeado subsecretário de segurança pública, o já conhecido capitão Nascimento, agora coronel, transforma o batalhão numa máquina de guerra e consegue interromper o esquema do tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Em decorrência disso, a PM cria uma rede de extorsão e exploração das favelas. Se agora não há como receber a propina de traficantes, é necessário criar uma nova fonte de renda, mais ampla e infalível.

Não há como fugir de uma comparação entre Tropa de Elite 2 e seu antecessor. Se no primeiro filme a atenção do espectador se volta ao tráfico de drogas e à corrupção da polícia, no segundo, o olhar se detém à formação das milícias, um estágio ainda mais avançado e generalizado de corrupção, que conta com o envolvimento de diversos políticos. Daí o subtítulo "o inimigo agora é outro" e as diversas menções aos desvios do sistema.

Apesar de suscitar novamente questões altamente polêmicas, como o "combate da violência através de violência", de manter a premissa do primeiro filme "missão dada é missão cumprida", e a clássica frase, "bandido bom é bandido morto", o coronel Nascimento não faz mais parte do Bope e, consequentemente, não protagoniza tantas cenas de ação como no primeiro filme. Mas isso pouco interfere na dinâmica da obra.

Interpretado com maestria por Wagner Moura, Nascimento se consolida diante dos espectadores como uma espécie de herói, quase uma personificação do alter-ego de cada brasileiro, exercendo o papel de justiceiro em relação aos escândalos e crimes relacionados à política nacional. O coronel, apesar da sua natureza honesta, porém sanguinária – menos exaltada no segundo filme – se transformou num ícone, numa espécie de solução ao caos instalado em nosso país. Não é à toa que em diversas situações o personagem é aplaudido durante a exibição do filme nas salas de cinema.
Essa exaltação do personagem instiga o espectador a assumir uma postura mais crítica e reacionária, o que deve ser absorvido com certo cuidado e devido distanciamento. Do contrário, estaríamos caindo em contradição, buscando na velha Lei de Talião do "olho por olho, dente por dente" a solução para desvios de conduta.

Contudo, demonstrando bastante eficiência, José Padilha confere a sua obra uma tensão indiscutível, tanto nas cenas de ação física quanto nas cenas de confrontos verbais. Escrito por Bráulio Mantovani, os diálogos são bem amarrados e dotados de bastante clareza e originalidade. Pode-se afirmar que, mesmo ao retratar um cenário já banalizado em nosso país, Tropa de Elite 2 não cai em clichês e, muito menos, propõe soluções utópicas a essa realidade.

Ficha Técnica
Tropa de elite 2: O inimigo agora é outro
Brasil, 2010
Direção: José Padilha
Roteiro: José Padilha e Bráulio Mantovani
Produção: José Padilha e Marcos Prado
Elenco: Wagner Moura, Irandhir Santos, André Ramiro
Duração: 116 minutos


Paula Medeiros
é estudante de Comunicação Social com participação em Projetos Cinematográficos. 

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