Paula Medeiros Paula Medeiros 11/3/2011

Desconhecido é um thriller comedido e sem excessos

Um dos formatos mais recorrentes dos suspenses é o do quebra-cabeça, em que diversas peças são soltas diante do espectador. Às vezes elas são montadas em desordem, em outros casos são apenas embaralhadas. O grande problema desse formato é quando o diretor teima em oferecer um daqueles de mil peças para, no final, juntar apenas a metade. Na verdade, o que poucos se lembram, é que não importa o tamanho ou a complexidade desse quebra-cabeça. O que importa é uma imagem final bem montada.

Desconhecido entra para o hall dos puzzle movies, só que de um jeito redondo, sem se arriscar demais ou exagerar nas pretensões. A dinâmica do filme é rápida o suficiente para um thriller, mas não recorre àquela clássica enxurrada de informações complexas na tentativa — frustrada — de incrementar a problemática. A trama instaurada já é séria o suficiente para bastar em si e o desenrolar dos fatos ocorre de maneira simplista, sem subjugar a inteligência do espectador. Talvez, por isso, seja um filme que prende a atenção e que instiga a compreensão dos mínimos detalhes, não por obrigação e, sim, por curiosidade ou mera diversão.

Dr. Martin Harris (Liam Neeson), em viagem a Berlim para uma conferência, sofre um acidente de carro e perde a consciência por quatro dias consecutivos, deixando Liz (January Jones), a esposa, sozinha na cidade. Quando reencontra sua mulher, descobre que ela não o reconhece e que outro Dr. Harris tomou seu lugar. Como se não bastasse a confusão mental a que foi submetido, Martin ainda tem que lidar com perseguições misteriosas e com sua total falta de identidade. No meio de todo esse estorvo, ele encontra ajuda em Gina (Diane Kruger), a motorista do taxi em que estava quando sofreu o acidente.

A ambientação em Berlim, em pleno inverno, contribuiu para a aspereza da situação. A fotografia, propositalmente desenhada para um desconforto latente, exalta a frieza do tratamento a que Dr. Harris foi submetido: ele está num país que não é o seu, sem falar alemão e sem a única coisa que de fato lhe pertence, a identidade e a certeza de quem ele é.

Liam Neesom se encaixa na medida certa ao personagem. Sua fisionomia sisuda é a chave para a encarnação na pele de Martin, uma vez que, em nenhum momento, sua interpretação tenta confundir o espectador com truques baratos. Dr. Harris é quem diz ser e ponto.

Entre uma cena de ação exacerbada e outra, sempre há espaço para um lugar-comum. É quase inevitável. Inclusive, é difícil lembrar de um suspense que não tenha uma perseguição de carro ou uma cena extremamente agoniante. Desconhecido, apesar das vantagens que leva em cima de outros, não foge à regra, mesmo parecendo desconfortável ao recorrer a esse tipo de solução.

Aliás, pensando na trajetória de um filme como esse, o mais provável é esperar por um final bem clichê também, daqueles que estragam o filme de uma vez só e que fazem os 80 minutos anteriores serem jogados na lata do lixo. Isso geralmente acontece quando a trama é tão complexa que qualquer final é banal e insuficiente para dar conta do recado. Em Desconhecido, o final se encaixa perfeitamente com o restante da trama: simples e sem rebuscamentos, mas coerente e sem riscos.

Assim como fez em A Órfã, o diretor Jaume Collet-Serra, consegue achar a última peça faltante do quebra-cabeça e colocá-la exatamente no lugar que lhe pertence, fechando, assim, um retrato curioso e, simultaneamente, instigante.

Ficha técnica

Desconhecido/Unknown
EUA/ Reino Unido/ França/ Alemanha
Suspense, 2011, 113 min
Diretor: Jaume Collet-Serra
Elenco: Liam Neeson, January Jones, Diane Kruger, Frank Langella, Aidan Quinn, Bruno Ganz, Sebastian Koch, Mido Hamada, Karl Markovics.
Classificação: 14 anos


Paula Medeiros
é estudante de Comunicação Social com participação em Projetos Cinematográficos

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