Paula Medeiros Paula Medeiros 23/7/2011

Lola mostra uma realidade particular, porém universal

Em Lola,  o diretor filipino Brillante Mendoza pinta a história de duas realidades cruéis, interligadas por uma tragédia. Essa pequena definição poderia nos levar a acreditar que estamos falando do mais puro melodrama. Mas não, estamos nos referindo a um estilo de filmagem quase documental. Como ele mesmo declarou, sua intenção era criar uma atmosfera fílmica que se aproximasse da realidade e que conseguisse transmitir emoção aos espectadores. Para isso, Mendoza utilizou, em tempo integral, a câmera na mão, acompanhando as duas lolas — o termo, nas Filipinas, significa vovó — que protagonizam essa história.

Lola conta o drama de duas mulheres ligadas pela seguinte relação: o neto de uma assassinou o da outra. Agora, ambas têm uma missão: a lola da vítima almeja um funeral digno para seu neto, mas, sem condições financeiras para tal, sai em busca de doações. Já a avó do assassino corre atrás de um acordo jurídico para isentar ou, ao menos, amenizar a pena de seu neto. Além dessa problemática central, as duas ainda têm que garantir o sustento de sua família e o seu próprio, na realidade cruel e desigual de seu país.

A narrativa, ditada pelo estilo de filmagem é, por vezes, agoniante. Não só pela tristeza da história, mas também pela forma crua como ela é mostrada. Nos sentimos desconfortáveis ao ver que aquelas duas senhoras vivem sob condições extremas. Mas nos sentimos mais incomodados com o fato de que elas parecem estar habituadas àquele estilo de vida que, inclusive, é predominante nas Filipinas.

A fotografia só tem a contribuir na atmosfera intencionada. Sem rebuscamentos ou maneirismos, ela chama a atenção pela simplicidade e, principalmente, por sua espontaneidade, buscada com afinco por Mendoza. Se o filme fosse divido em quadros, suas cenas soariam mais como jornalismo fotográfico do que como qualquer outra coisa.

A busca por esse realismo em Lola o distancia do que poderia torná-lo um simples melodrama. O mais interessante é notar como vai sendo criado o perfil dessas pessoas. No início temos certa dificuldade em nos identificar com as situações, talvez pelo idioma, ou mesmo pelos costumes, tão distantes dos nossos. Mas, ao longo do filme, o sentimento de identificação começa a surgir, devido a exposição de elementos que são universais, como a luta diária de cada um por melhores condições de vida. Essa universalização expõe, então, não só a crueldade da vida nas Filipinas, mas todo um contexto mundial, relacionado aos problemas sociais enfrentados pelo terceiro mundo. O sentimento de aproximação com o espectador fica ainda mais forte quando surge a representação do amor da avó pelo neto, longe de qualquer banalização e dos clichês recorrentes.

Indo contra uma proposta meramente comercial, Mendoza opta por um tipo de experimentação que vai além da narrativa. Trabalhando com valores extremamente sutis, o diretor cria um conceito interessante para Lola, um tipo de realismo contestador e belo em sua representação. Distante do padrão hoollywoodiano, o longa mostra um outro viés do cinema, um que pode ser arte, cultura e realidade.

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Paula Medeiros
é estudante de Comunicação Social com participação em Projetos Cinematográficos.

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