Com amor, Simon

Victor Bitarello Victor Bitarello 17/04/2018

Desde criança, eu ouço a expressão “água com açúcar”. Eu não me lembro se a ouvi com relação a outros tipos de artes, mas sobre filmes, com certeza que sim. E apesar de eu ser uma pessoa que gosta de entender os significados e porquês das coisas, algumas destas parecem que, só pela forma como são ditas, ou por seu uso habitual, são autoexplicativas, independente de um “Aurélio”. Se um copo de água com açúcar é o que se oferece a alguém que está nervoso; se quando terminamos de assistir a um filme, abrimos um sorriso calmo, talvez até com uma lágrima recém brotada, então não precisa explicação. Já está dito.

Mas o mais interessante mesmo, e aí sim, entra a minha característica que coloquei, são os motivos de “Com Amor, Simon” (“Love, Simon”) ser um filme “água com açúcar”. Por que afirmar essa característica nele? E como esse trabalho pode possui-la? Mesmo com tamanha simplicidade, talvez ele seja um bonito e até mesmo grandioso sinal dos tempos. Sua leveza que acalma, suas tramas e finalizações, não o fariam simples e calmo há uns anos atrás. Pelo contrário. Talvez achassem tudo horrível, zombariam dele, proibiriam seus filhos de assisti-lo, sairiam das salas de cinema apavorados, haveria altas classificações etárias.

“Com Amor, Simon” conta a história de um adolescente de classe média alta americana, que vive em uma família que o ama, com uma turma de amigos com quem ele sempre pode contar. No entanto, Simon guarda um segredo, sem ter coragem de revelá-lo a nenhuma dessas pessoas. Até que, após um colega do colégio criar um perfil falso em uma rede social usada pelos alunos, falando sobre seus sentimentos com relação a sua sexualidade, ele decide entrar em contato com esse colega. Pouco a pouco, eles compartilham o que sentem e isso os faz se aproximarem e criarem um laço que somente eles conseguem compreender.

O que me chamou a atenção, e justifica o início desse texto, foi a aceitação do público ao segredo de Simon e à relação dele com o correspondente. Aliás, não somente uma aceitação, mas uma torcida favorável.

No passado, eu assisti ao fantástico “O Segredo de Brokeback Mountain” (Brokeback Mountain”). Houve deboches e risos durante a sessão. Há alguns anos, durante a sessão de “Carol”, houve quem saiu da sala após o beijo de Kate e Rooney. No entanto, Simon recebe o carinho do público. Por mais que, ao longo do filme, as razões para ele ter medo de expor-se vão sendo apresentadas - o que deixa claro que ainda estamos longe do respeito completo às manifestações de sexualidade diversas da heterossexualidade - cada vez mais ele se vê fortalecido pelo correspondente. E eu, como público, tinha a vontade de mostrá-lo que eu estava ali, que eu era mais um que estava ao seu lado. Tive a sensação que as demais pessoas ao meu redor queriam o mesmo.

Esse foi meu maior encanto. Como uma história de amor homossexual é considerada, nos dias de hoje, um filme “água com açúcar”? Em outros tempos, talvez o ator teria medo de sair de casa. Aqui no Brasil, já houve agressão a ator, por fazer personagem gay em novela. É lindo demais viver em um tempo no qual mais e mais pessoas permitem-se abrir para uma aceitação que há 10 anos não existia. A mudança ainda tem que ocorrer demais. Mas o que houve ali naquela sala de cinema poderia ser objeto de pesquisa. 

O longa tem outra grande qualidade, que é a preocupação com os demais personagens. E também por isso, vale muito a pena de ser conferido. É lindo!
     


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