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    Facetas de "Coringa"

    Victor Bitarello Victor Bitarello 14/10/2019

    Eu posso escolher entre várias possibilidades para criticá-lo, analisá-lo, dizer o porquê de ter ou não gostado. "Coringa" é, por essência, um filme de faces.

    Começo com Joaquin Phoenix.

    Que ele é um grande ator, não há dúvidas. No entanto, no quesito prêmios, ele não é o mais sortudo. O cinema estadunidense possui uma vasta quantidade de premiações, tendo por principal o Oscar. Joaquin já recebeu várias indicações, mas vencer mesmo... Penso que um bom exemplo para falar dessa sua característica é "Johnny e June" ("Walk the Line"), quando ele dividiu a cena com Reese Whiterspoon. Reese recebeu quinze prêmios, na categoria melhor atriz. Já ele, teve de contentar-se com o Globo de Ouro, praticamente como um prêmio de consolação. Digo isso porque, nessa cerimônia, há uma subdivisão (melhor ator em drama/melhor ator em comédia ou musical. Ele, com certeza, não venceria se essa subdivisão não existisse). Na categoria drama, o troféu foi para Philip Seymor Hoffman, por "Capote", o qual também levou o Oscar. Por que eu citei, especificamente, "Johnny e June"? Porque, naquele filme, Joaquin Phoenix estava claramente melhor que em "Coringa". No entanto, por uma questão de sorte, não havia como ele vencer, porque Philip estava imbatível em "Capote". E, mesmo que ele não estivesse concorrendo, naquele mesmo ano, Heath Ledger estava, por seu trabalho em "O Segredo de Brokeback Mountain". Iria pra ele, por uma atuação fabulosa, na pele do jovem cowboy Ennis. E aí, agora, em 2019, mostrando um trabalho aborrecido, cheio de exageros e estardalhaços, está sujeito a encher sua casa de prêmios, inclusive o Oscar, já que a Academia adora um grito.

    Se esforçando pelo engajamento, "Coringa" tem a pretensão de se passar por um filme crítico, que expõe uma sociedade hipócrita, escancarando a despreocupação dos ocupantes das classes mais abastadas com as pessoas socioeconomicamente desfavorecidas. Só que, na verdade, ele não é nada disso. O que temos ali é uma obra que engana o público. Ele simplesmente defende o uso de armas e de violência para resolver os males do mundo. Não se esmera em um roteiro bem feito, calmo, bem pensado. Aborda muitas temáticas e não aborda nada. Não é atencioso. Posso falar aqui, por exemplo, do seriado espanhol "La Casa de Papel". Trata-se de um roteiro que tem foco. Usa a criminalidade a favor da crítica social e aos poderes públicos, sem se perder. Faz isso com inteligência. É ágil, trazendo também aquela pitada deliciosa de suspense aos episódios. Já "Coringa"... é lento...

    O longa também tenta se passar por um filme que aborda questões de ordem psicológica, colocando o personagem título como um psicótico, cuja principal característica de seus transtornos mentais são os delírios. O que vemos na tela é um homem que se torna um psicopata, após não dar conta de lidar com tantos horrores ocorridos em sua vida. Só que abordar esse tipo de problemática é, como a própria palavra diz, problemático. Deveriam ter ido mais "devagar com o andor", para não possibilitarem entrar num assunto delicado de maneira preconceituosa.

    Eu conheço uma pessoa que assistiu e gostou. Cabe a mim respeitar. Inclusive se a maioria das pessoas que assistirem gostarem. Mas as observações que fiz acima eu acho necessário mantê-las.

    Só retornando brevemente ao ator, é, realmente, uma grande pena o caminho escolhido pela direção para levar Joaquin Phoenix. Ele é bom demais. Poderiam ter feito algo melhor. Fora que ficou muito difícil não compará-lo com o Coringa de Heath Ledger, de 2008, em "Batman: O Cavaleiro das Trevas". Eu gostava muito dele. Sua atuação primorosa fez com que vencesse os principais prêmios da época, como ator coadjuvante. Infelizmente, Heath faleceu muito prematuramente, aos 28 anos. Mesmo assim, optaram por consagrar seu nome, mesmo sendo as premiações com caráter póstumo. Com muita justiça, afirmo.

    "Coringa", no final das contas, não passa de uma série de tentativas, as quais, ao meu ver, não funcionaram. Acaba sendo um filme de ação. Teria sido mais legal se ele se propusesse a isso, e pronto. Haveria mais honestidade.

    Finalizo fazendo um elogio ao mestre Robert De Niro. Sua participação está fantástica! Limpa, correta, precisa. O ponto mais alto do filme.  

    Victor Bitarello é bacharel em Direito pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), pós-graduado em Direito Penal e Processual Penal e pós-graduado em Direito Processual Civil. Tem experiência enquanto ator de teatro por vários anos, sendo também apreciador e estudioso de cinema. Servidor público do Estado de Minas Gerais, também já tendo atuado como professor de inglês. Graduando em Psicologia.
    Iniciou como colunista cinematográfico deste Portal em janeiro de 2014.

    Os autores dos artigos assumem inteira responsabilidade pelo conteúdo dos textos de sua autoria. A opinião dos autores não necessariamente expressa a linha editorial e a visão do Portal ACESSA.com

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