O jornalista e os assassinos "Capote" conta a saga do repórter que se envolveu com dois criminosos para criar uma obra-prima literária

Marcelo Miranda
Repórter
24/03/2006
Truman Capote foi um dos mais conhecidos, respeitados e controversos jornalistas americanos. Famoso nas altas rodas sociais, de língua ferina e opiniões fortes, homossexual assumido e provocador por natureza, Capote se tornaria lenda ao publicar "A Sangue Frio", seu único livro de não-ficção e obra que inaugurou o chamado jornalismo literário (ou new journalism) - um relato verídico com linguagem romanceada.

E do que trata "A Sangue Frio"? É justamente esse o tema de "Capote", filme que entrou em cartaz em Juiz de Fora no dia 24 de março (veja o trailer aqui). Dirigido pelo estreante Bennett Miller, reconstitui os seis anos em que o jornalista se envolveu na concepção do livro. A história começou em 1959, quando dois assaltantes mataram quatro pessoas da mesma família, dentro de casa, no Kansas. Capote ficou fascinado com a loucura do caso: homens até então sem grandes antecedentes criminais tirando a vida de gente pacata e humilde a troco de nada.

Disposto a escrever uma obra-prima, o escritor criou uma perturbadora relação com os criminosos dentro da prisão - inclusive a possível relação amorosa com um dos presos e o pagamento a advogados para que a execução dos culpados fosse adiada ao máximo, na tentativa dele concluir o livro.

Capote já era escritor antes de "A Sangue Frio", lançado em 1965. Publicara o romance "Bonequinha de Luxo", que virou filme de Blake Edwards protagonizado pela diva Audrey Hepburn; e os roteiros de "O Diabo Riu por Último", dirigido por John Huston e com Humphrey Bogart no elenco, e do clássico do suspense "Os Inocentes", de Jack Clayton. O relato sobre os dois assassinos do Kansas era uma tentativa de Capote ser "sério" e fazer aquele que seria o trabalho definitivo de sua carreira. O livro se tornaria um longa-metragem muito elogiado em 1967, com direção de Richard Brooks.

No filme de Bennett Miller, Phillip Seymour Hoffman encarna Truman Capote naquela típica interpretação "mediúnica": os trejeitos efeminados, a voz fina, a ironia, os gestos excessivos, tudo está impregnado na criação de Hoffman, ator conhecido do circuito independente americano (esteve, entre outros, em "Boogie Nights", "Magnólia" e "Ninguém é Perfeito") e que agora recebe consagração pública pelo talento que há anos vem demonstrando na tela. O papel do jornalista lhe deu a primeira indicação ao Oscar - com a qual ele saiu vencedor na cerimônia do último dia 5 de março.

"Capote" concorreu ainda ao Oscar de melhor filme, direção, atriz coadjuvante (Catherine Keener, no papel de Harper Lee, amiga que esteve ao lado do jornalista durante todo o processo) e roteiro adaptado.

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