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    "O Código Da Vinci" chega cercado de polêmica

    Adaptação de sucesso literário estréia sob protesto de católicos conservadores e expectativa dos fãs

    Marcelo Miranda
    Repórter
    17/05/2006

    Ataques da Igreja Católica, greve de fome, cabeça a prêmio, tentativa de censura, processo por plágio, enigmas, o mistério de Jesus. O caminho que o livro "O Código Da Vinci" vem passando desde que foi lançado no começo da década, e agora sendo levado ao cinema, daria um filme por si só. O autor Dan Brown vendeu por US$ 6 milhões os direitos de adaptação do best-seller que já foi traduzido para 44 idiomas e teve até o momento mais de 45 milhões de exemplares vendidos no mundo. Uma mina de ouro que Hollywood não tardou a assumir.

    O longa-metragem, dirigido por Ron Howard, teve pré-estréia de gala nesta quarta-feira, durante a abertura do Festival de Cannes, na França, o maior e mais importante de todos os eventos cinematográficos. A recepção foi das mais mornas: jornalistas e críticos torceram o nariz, houve risos e vaias durante a projeção e muita gente saiu reclamando - normalmente, gente que já não era adepta do livro de Brown e seguiu o mesmo gosto ao tomar contato com a visão de Howard.

    Obviamente que isso não fará a menor diferença quando "O Código Da Vinci" estrear em diversas salas de cinema do planeta nesta sexta-feira. Apenas no Brasil, serão 500 salas exibindo o filme, incluindo várias em Juiz de Fora. Até o momento, mais de 20 mil ingressos foram vendidos antecipadamente cidades afora. A superprodução de US$ 125 milhões chega repleta de controvérsias. Sob ataques da Igreja, do grupo Opus Dei (espécie de repartição do Vaticano que defende os conceitos cristãos de forma conservadora e ortodoxa) e de fiéis em geral, o filme vem ganhando destaque justamente por conta dessa algazarra em torno de seu lançamento.

    Em terras tupiniquins, o deputado federal Salvador Zimbaldi (PSB-SP) tentou na justiça barrar a estréia de "O Código Da Vinci" no país. Alegou que o filme "agride a liberdade de crença", o que seria inconstitucional. Censura? Em entrevista à imprensa, Salvador disse que "não há censura neste caso, mas sim defesa da verdade. O direito de um termina onde começa o de outro".

    Na Índia, um grupo participante do Fórum Social Católico decretou greve de fome em protesto ao lançamento da produção, e um membro ofereceu US$ 25 mil pelo autor do livro, Dan Brown, vivo ou morto. Em diversos outros países, como China e Tailândia, o filme ou está proibido ou teve cenas cortadas. Desde "A Paixão de Cristo" (2004), de Mel Gibson, não se via reação tão forte a uma realização do cinema americano.

    E qual o motivo de tanta discórdia? Ironicamente, pela razão inversa ao que ocorreu com "A Paixão de Cristo". Se este reafirmava crenças sobre o sacrifício de Jesus Cristo e toda a sua flagelação antes de morrer, "O Código Da Vinci" é uma ficção policial que se sustenta na tese de que Jesus não foi o santo apregoado pela Bíblia. Ele teria tido uma filha com Maria Madalena e perpetuado sua família ao longo dos séculos. Um seita, denominada Priorado de Sião, seria a responsável por manter o segredo intacto e evitar um embate entre cristãos conservadores e liberais. E a organização Opus Dei estaria disposto a tudo - inclusive a mentir e matar - para colocar as mãos nesse mistério.

    Vespeiro

    Mexeu com religião, mexeu com vespeiro. Em 1988, "A Última Tentação de Cristo" (foto), de Martin Scorsese, deixou de estrear no Brasil, censurado pelo governo de José Sarney devido às insinuações de que o filho de Deus teria sido um homem comum que se descobriu o salvador da humanidade, mas preferia não assumir essa responsabilidade de imediato, preferindo viver um romance com Maria Madalena, beber e conversar com o amigo Judas. O filme só foi liberado tempos depois do veto. Destino parecido teve o francês "Je Vous Salue, Marie", de Jean-Luc Godard, que três anos antes foi para o limbo da censura por modernizar a história da mãe de Cristo a uma realidade pobre e profundamente melancólica. Em 1999, a comédia "Dogma", de Kevin Smith, causou alarde ao brincar com "regras" da Igreja e colocar uma descendente de Jesus como prostituta e Deus encarnado na figura da cantora Alanis Morissetti. Políticos e fiéis se posicionaram contra a produção, que estreou e não fez tanto barulho quanto se esperava.

    Se "O Código Da Vinci", o livro, tivesse vendido irrisoriamente, ninguém se lembraria dele. Com milhões de exemplares e uma adaptação de peso no cinema, não iria passar incólume. Por mais que o enredo da conspiração criada por Brown tenha lances simplistas e jeitão de que foi mesmo feita para consumo rápido, o autor aparentemente mereceu ódio de todos os lados só por questionar a fé católica - desde os mais fundamentalistas até escritores que o acusaram de plagiar obra alheia, no caso um livro sobre o Santo Graal, que Dan Brown teria utilizado no seu trabalho sem dar o crédito.

    No filme, o simbologista Robert Langdon e a criptógrafa Sophie Neveu são interpretados por Tom Hanks e Audrey Tatou (ela, de "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain"). A dupla é a protagonista da trama e responsável por desvendar os vários enigmas que surgem no caminho a partir da morte do curador do Museu do Louvre, assassinado na principal galeria de arte do local - aliás, "O Código Da Vinci" teve acesso direto a salas do museu nas filmagens. Ainda no elenco, estão nomes importantes, como Ian McKellen e Jean Reno, além do britânico Paul Bettany (foto), que foi elogiado em Cannes pela encarnação do albino Silas, um dos enviados do Opus Dei para ajudar na obtenção do "maior segredo de todos os tempos".

    Se a versão em filme de "O Código Da Vinci" fará sucesso parecido ao livro, é difícil saber. O marketing vem sendo pesado, e há rumores de que o departamento de publicidade da produtora Columbia Pictures estaria espalhando boatos e colocando lenha na fogueira de discussões com o intuito de levar mais e mais curiosos para assistirem a aventura no cinema. Funcionou com "A Paixão de Cristo". Pode funcionar de novo.


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