Pornochanchada Estudante de jornalismo discute o valor do “cinema da boca do lixo” em monografia de conclusão de curso

Renata Cristina
Colaboração
16/08/2006

Se para o catador de papéis, lixo é dinheiro, para o estudante de jornalismo, Marco Rodrigo Miranda Almeida (foto ao lado), a pornochanchada, estilo cinematográfico da década de 70 que foi taxado de “Boca do Lixo”, por se passar na região paulistana conhecida por suas boates e bordéis, é sinônimo de discussão.

O jovem se interessou pelo tema através da série “Como é gostoso nosso cinema”, exibido pelo Canal Brasil e, mais tarde, pôde conhecer a fundo sobre o assunto, por meio de grupos de estudo e pesquisa na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). “Sempre me interessei pelo cinema e resolvi me aprofundar no tema”.

A paixão por essa fase do cinema, que mesclava cenas apimentadas e humorísticas em meio a ditadura militar, transformou-se em tema para a monografia de final de curso do estudante. “O que mais me chamou a atenção foi que o caráter inovador das pornochanchadas”, afirma. A temática simples e sem grandes questões dialéticas serviu como forma de conter qualquer manifestação política do público. Marco explica que, apesar dos clichês presentes nos filmes, como, por exemplo, de mulheres sensuais, homens traídos e “cornos mansos”, há espaço para questionamentos políticos e novos padrões de convivência social.

A popularidade desses filmes fez com que o cinema brasileiro batesse seu recorde de público, alcançando 4 milhões espectadores, só no país, e 3 milhões, na América Latina. “A grande diferença daquela época é que as salas de cinema ficavam nos bairros e o ingresso era mais barato”, defende Marco. Comparando-se aos dias atuais, em que as salas de projeção concentram-se nos grandes centros urbanos, as bilheterias chegam não mais que a 50 mil expectadores, como foi o caso do último recorde do cinema nacional, o longa “Se eu fosse você”.

Para realizar o trabalho, Marco tomou como base o filme Ilha dos Traseiros Proibidos e encontrou pontos relevantes em seu roteiro. “É um trabalho inteligente, pois consegue ser popular, com vários elementos de interesse do público e não deixa de passar modos alternativos de vida”, pondera.

Quem já esteve na Boca do Lixo
Para quem não acompanhou os dias de glória da pornochanchada, atrizes famosas da atualidade fizeram seus primeiros trabalhos nessa época. A gloriosa Vera Fisher ficou conhecida por sua atuação em A Superfêmea. As veteranas Sônia Braga e Matilde Mastrangi também fizeram parte do elenco de várias produções. Já na ala masculina, quem garantia bilheterias astronômicas era o conhecido David Cardoso, que simbolizava o “macho ideal”.

O anjo-pornográfico, Nelson Rodrigues, teve seus contos adaptados para algumas dessas histórias. E, ianda, alguns destaques da época caíram no anonimato, como foi o caso de Helena Ramos e David Cardoso.

Mesmo com tanta popularidade, há atrizes que preferem esquecer sua atuação nesse tipo de filme, julgando-os “Futéis e obscenos”. Contudo, Marco considera que esses roteiros eróticos não eram tão apimentados assim. “Se comparados as novelas de hoje, esses filmes são até inocentes e não mostram cenas de sexo explícito” , ressalta.


Conteúdo Recomendado

Comentários

Ao postar comentários o internauta concorda com os termos de uso e responsabilidade do site.