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    Cérebro eletrônico

    Daniela Aragão Daniela Aragão 1/11/2016

    No mundo da vida plugada, as notícias me chegam sempre com uma sensação de que estou atrasada. O mesmo assunto aterrissa na internet de maneira vertiginosa e sob milhões de pontos de vista, confiáveis ou não. Como o Google tornou-se, possivelmente, a “enciclopédia” mais acessada no mundo, a credibilidade e a qualidade talvez tenham perdido espaço para o imediatismo. A notícia chega e se esvai numa velocidade meteórica.

    Às vezes me pego a imaginar: como sobreviverá ao longo dos dias, semanas, meses, anos, o universo das emoções de cada ser humano? Nessa profusão infinita de sensações, bombardeado por manifestações de fúria, medo, amor, revolta, solidariedade, egoísmo, aprisionamento, esperança, incredulidade, o que restará de tangível?

    Nos tempos de estudante universitária, ávida pelo conhecimento e acrescida de sonhos, esvaía-se todo o meu tempo. Com certo atraso adquiri informação sobre as ideias de Marshall McLuhan. Revesti-me mais de euforia que decepção.  No início da década de noventa, a internet chegava, lentamente, e poucos colegas possuíam computador em casa. Muitos trabalhos, feitos a máquina ou até manuscritos, conviviam com versões modernas das produções dos alunos mais abastados. Esses possuíam computadores com recursos primários, mas, na época, fabulosos. Não se encontrava ainda explodindo (ao menos em meus sentidos), toda a fluidez dos laços humanos, lucidamente, problematizada pelo velhinho e sábio escritor polonês Zigmunt Ballman. Nós éramos sonhadores sim, não tão ousados, ativos e utópicos, como os personagens do filme de Bertolluci, mas sonhávamos.

    Bob Dylan acaba de ganhar o prêmio Nobel de Literatura e pululam pelas redes sociais e sites, opiniões de entendidos, leigos, desconfiados, intrometidos e exibidos. A velha e dejavù indagação, “letra de música é poesia?” ou vice-versa, volta a pairar. Uma quantidade considerável de leitores, ou mais, assertivamente, “pseudo-leitores”, julgam-se aptos a condenar o prêmio concedido ao Dylan. 

    Quando posturas reacionárias começam a contagiar o mundo da arte, no desejo de segmentá-la em compartimentos estanques, volta-me à mente um personagem de Jorge Amado. Teodoro, o comedido, comportado, careta e bom senhor farmacêutico, que dormia de pijamas e tocava fagote para agradar sua companheira Flor, saudosa do dionisíaco Vadinho. O seu lema, em “Dona Flor e seus dois maridos”, era “Um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar”. O homem justo, mas incapaz de ousar em seu cotidiano previsível e, imaginariamente, blindado de qualquer alteração invasora das armadilhas do acaso. 

    Ainda aguardo o dia cujas fronteiras entre as artes, definitivamente, sejam abolidas em seus critérios compartimentais. Nas discussões é notável, como uma categoria artística tenta suplantar a outra. Perigoso demais ficar comparando categorias e gêneros. Como me sinto pouco apta para falar de Dylan, penso que se pudéssemos transpor a barreira de nossa língua portuguesa, Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, seriam merecedores de um prêmio Nobel literário, pela qualidade da obra.

    “Cérebro eletrônico nenhum me dá socorro em meu caminho inevitável para a morte/Cérebro eletrônico nenhum me dá socorro com seus botões de ferro e seus olhos de vidro”.  Gilberto Gil é dotado do sentido pleno da canção em todo o seu ser. Como compositor é exímio artesão do som e das palavras, como violonista, conhece todas as entranhas e tramas do braço de seu pinho, possui swing, desenvoltura e senso harmônico absolutos. Como cantor, traz uma assinatura única, que conjuga seu timbre e extensão vocal singulares, com um jeito de corpo experienciado em dinâmicas e texturas de peles, batuques, atabaques, cordas e silêncios.

    Canceriano, navegante das profundezas da alma, mas que com a destreza de sábio senhor, caminha, navega ou flutua, com a livre leveza de um rouxinol, que não teme a finitude da existência. A riqueza da obra de Gil é tamanha, que estas laudas limitadas, encaminham-me para a tentativa de escolher uma, dentre tantas vertentes de sua grandiosa criação.

    O Gilberto Gil metafísico me acompanha há tempos, no belo álbum “Gil Luminoso”. Apenas munido do seu violão, o artista relê suas canções primorosas como “Metáfora”, “Flora”, “Preciso aprender a só ser”, “Tempo Rei”, “Aqui e agora”, “O compositor me disse”, “Copo vazio” e “Retiros espirituais”. A reflexão sobre a existência, com seus mistérios, prazeres e temores é tema que subjaz nos versos, que se casam, simbioticamente, com as texturas sonoras impressas nos acordes e no entoar de sua voz.

    O tempo é sua matéria prima, espaço da vida fugaz e sublime. Sopro indefinível que ocupa cavidades impalpáveis “É sempre bom lembrar/Que o ar sombrio de um rosto/Está cheio de um ar vazio,/Vazio daquilo que no ar do copo/Ocupa um lugar.” A contemplação da existência, em seu traçado inconcluso, não necessariamente é geradora de dor, mas de uma resignação oriunda do aprendizado, da grandeza e limitação dos sentidos. A vida é dom para ser aprendido, apreendido e degustado em seu instante único e irrecuperável “O melhor lugar do mundo é aqui,/E agora/ Aqui onde indefinido/Agora que é quase quando/Quando ser leve ou pesado/Deixa de fazer sentido.

    O fazer, o sentir e o viver a canção – passaporte para as viagens que conduzem Gil a todas as esferas da existência. Entre o dito e o interdito, a música é o meio pela qual este homem-artista entende e devora a vida (sempre com a ciência da contenção). Sábio jovem senhor, que não perde jamais a nobreza e o sentido valoroso da criação. No pensar a vida e suas travessias, artesão das palavras e das sonoridades, elabora exercícios metapoéticos como na irretocável, Metáfora “Por isso, não se meta a exigir do poeta/Que determine o conteúdo em sua lata/Na lata do poeta tudo nada cabe/ Pois ao poeta cabe fazer/Com que na lata venha a caber/O incabível”.

    O compositor ainda é generoso ao aconselhar àqueles que desejam mergulhar nas filigranas da arte do canto “O compositor me disse que eu cantasse distraidamente/Essa canção/ Que eu cantasse como se o vento soprasse pela boca/Vindo do pulmão/E que eu ficasse ao lado pra escutar o vento jogando as palavras/Pelo ar”.

    Homem maturado nas delicadezas se recolhe em seus retiros espirituais, “Não há o que perdoar por isso mesmo é que há de haver mais compaixão”. A vida-música germina em ciclos e mais ciclos, na condução deste sábio soberano do som, que jamais perde a afinação exata com seu tempo e instante “Se oriente rapaz pela rotação da terra em torno do sol. A criação de Gilberto Gil floresce por meio da plenitude das esferas harmônicas. Apalpa com seus acordes e sua voz, as camadas da árvore da vida e nos presenteia. Árvore mulher, árvore sintagma síntese da existência “Imagino-te jaqueira/Postada à beira da estrada/Velha, forte, farta,bela/Senhora”.

    Gilberto Gil é fruto dos nossos sonhos ainda não devorados.

    Daniela Aragão é Doutora em Literatura Brasileira pela Puc-Rio e cantora. Desenvolve pesquisas sobre cantores e compositores da música popular brasileira, com artigos publicados em jornais como Suplemento Minas de Belo Horizonte e AcheiUSA. Gravou, em 2005, o CD Daniela Aragão face A Sueli Costa face A Cacaso.

    Os autores dos artigos assumem inteira responsabilidade pelo conteúdo dos textos de sua autoria. A opinião dos autores não necessariamente expressa a linha editorial e a visão do Portal ACESSA.com

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