Conheça o violonista Turíbio Santos 

Nome do ColunistaDaniela Aragão 3/01/2017

Daniela Aragão: Como começou a música em sua vida?

Turíbio Santos: Ela começou com meu pai, no Maranhão, quando eu tinha menos de três anos de idade. Ele adorava seresta. No Maranhão, naquela época, havia a cultura de fazer seresta na rua, na janela. Papai tinha boa memória e se acompanhava ao violão. Antes de eu nascer, ele já tinha disco de Andrés Segoviana, de 78 rotações. Possuía discos também de Dilermando Reis. Já havia dado apoio a um show, que Agustin Barrios fez no Paraguai, por volta do final da década de trinta. Então, há duas fatalidades em minha vida, as quais eu não iria escapar. O violão e Villa Lobos.

Daniela Aragão: E o primeiro violão?

Turíbio Santos: Lembro de que meu primeiro violão eu quebrei com menos de três anos de idade. Meu pai brincava comigo e me jogava para cima. Tinha um violão no armário, e na hora que eu fui jogado para o alto, passei a mão no violão, que se quebrou (risadas). Não me esqueço disso. Certas memórias são muito fortes, como por exemplo, quando voltei ao Maranhão, já entre os quarenta e cinquenta anos de idade. Recordo-me de que passei por uma lojinha da Vasp. Eu vinha com um quase contemporâneo de meu pai. Chamava-se Inácio Braga. Perguntei a ele se na loja da Vasp tinha brinquedos. Ele me disse que havia uma muito tradicional. Lembrei que uma vez o meu pai parou ali, desceu e trouxe o Duque de Caxias, um cavalo de balanço.

Daniela Aragão: Quando se deu sua estreia num teatro?

Turíbio Santos: Foi muita coerência da vida, que eu tenha estreado no violão, no Teatro Arthur Azevedo, no Maranhão. Eu tinha dezenove anos.

Daniela Aragão: Como se iniciou esse mergulho na obra de Villa Lobos?

Turíbio Santos: Foi acontecendo toda uma sequência. O primeiro passo veio através do Hermínio Bello de Carvalho.

Daniela Aragão: Como se deu seu percurso de aprofundamento com o violão?

Turíbio Santos: Pelo lado do ensino formal tive muito pouco, sou, praticamente, autodidata. Os caras me passavam algumas coisas. Hermínio Bello de Carvalho chamou-me para fazer uma conferência sobre Villa Lobos. Fui convidado para gravar um disco sobre Villa Lobos, em 1962. Neste ano começou tudo. Fiz o disco, que depois fora apresentado para os franceses. Eu já ia sabendo o que tinha na mão. Villa Lobos não era mais tocado, , digamos que estava no ócio, a sua obra. Não tinha disco no mercado.

Daniela Aragão: Seu primeiro disco foi com o repertório de Villa Lobos?

Turíbio Santos: Exatamente, e aconteceu na Europa. Michel Garcin e a companhia topou e assim, o disco vendeu muito. Eu já presumia que a recepção seria excelente. O museu Villa Lobos, naquela época, vendeu nove mil discos. Vender essa quantidade, naquele período, era como vender trinta mil hoje. Muito forte.

Daniela Aragão: O que te chama atenção na obra de Villa Lobos?

Turíbio Santos: Villa Lobos parece com o Brasil. Porque ele é autodidata. Quando você diz de alguém que é autodidata, você fala muito jocosamente. Como se o cara fizesse as coisas, mais ou menos. Este não é o caso de Villa Lobos, pois até nisso ele era um gênio. Quando eu tinha quinze anos, aconteceu uma conferência dada por Villa Lobos, a qual estive presente no lugar do Hermínio Bello de Carvalho. Ele e Joel da Silva não puderam ir. Fiquei encarregado de anotar tudo o que ouvisse, para depois repassar para o Hermínio. Posso te dar como exemplo o violão, Villa estudou por conta própria as obras de Carcassi, Caruli, Coste, Fernando Sor, antes de ainda compor. Ele fazia a sua escola, o seu currículo. É por isso que sua obra é tão bem estruturada e compartimentada. Fez o mesmo com a obra de Bach, que estudou inteira. O “Cravo bem temperado” inteiro. Ele estudou orquestração sozinho, era fera. Tinha conhecimento vastíssimo.

Daniela Aragão: Dizem que Villa Lobos ia a campo buscar composições.

Turíbio Santos: Ele pegava informação sobre tudo. Veio uma cantora brasileira, da Europa, chamada Vera Janacopolus. Ela conheceu grandes compositores lá. Ravel, Debussy, Satie. Possuía até os manuscritos de Stravinsky. Villa pediu-lhe emprestado uma cópia dos manuscritos, para estudar a sua orquestração. Repito-me com intuito de evidenciar: Villa Lobos é a cara do Brasil, pois o Brasil é um país autodidata. Embora diga que o país não tem jeito, ele sempre está avançando e percorre caminhos que ninguém espera. Acho muito saudável o processo de autocrítica dos brasileiros, com relação ao próprio país. Acho que é um país encantador, por causa disso. Estamos aqui, no Rio de Janeiro, uma metrópole e vemos a floresta da janela. Do outro lado, tem o oceano. Ainda por cima um povo tão misturado, que cada vez se mistura mais.

Daniela Aragão: Você chegou à França quando a Bossa Nova entrava em ebulição. De alguma maneira, você flertou com a música popular?

Turíbio Santos: Sou um músico, eminentemente, clássico. Depois que gravei meu primeiro disco, com a obra de Villa Lobos, eles pensaram que no segundo disco iriam me convencer a fazer um trabalho com músicas espanholas. Fiz outro de Villa Lobos, com orquestra.

Daniela Aragão: E você chegou a gravar música espanhola?

Turíbio Santos: Sim, gravei muita música espanhola. Durante dezoito anos, fiz dezoito discos. No Brasil eu também gravava. Gravei também discos de músicas francesas.

Daniela Aragão: Como você vê a música francesa?

Turíbio Santos: A frança foi vanguarda um dia, teve Ravel, Debussy, Satie. Eu encrenquei com o Hierato, quando propus fazer um disco com música francesa. Disseram que violão não é francês. Então, por que Darius Milhaud compôs uma música chamada “Ouviana”, que ainda não foi gravada? E Henri Sauguet, que tem uma música chamada “Soliloque”, que também não foi gravada? Por que André de Jolivet, tem uma música chamada “Prèlude”, que não foi gravada? São essas músicas que quero gravar. Não são comerciais, mas lindas. Proponho também gravar Fernando Sor, variações sobre um tema francês do século dezoito. Gravei Francois Campion, um violonista da época de Luiz XIV. O disco virou Cult. Eles tinham razão, vendeu muito pouco. Foi editado no mundo inteiro.

Daniela Aragão: Parece-me que mesmo os brasileiros, que conhecem mais a fundo a música de qualidade, ficam estagnados no imaginário existencialista, com relação à música francesa.

Turíbio Santos: O francês, com Pierre Boulez e com essa coisa muito vanguarda, afastou a música do povo. Tornou-se uma música subvencionada pelo governo. Música de caráter oficial. Ajudou a criar uma mentalidade pedante ao redor, e que em certo momento o Brasil tentou copiar. No Brasil, foi abrasileirada uma atividade chamada Bienal, que é feita pela Academia Brasileira de Música. Muito bonita, apoiada pela Funarte e pelo Minc. Há espaço para todo mundo improvisar, criar, ir para frente.

Daniela Aragão: Tantos anos morando na França, você encontrou alguma semelhança entre o francês e o brasileiro?

Turíbio Santos: O francês é muito mais parecido com o brasileiro do que imaginamos. Morei como cidadão residente, durante vinte anos na França. Cheguei na França em 65. Acho o francês, mais parecido com o brasileiro que o português, nosso colonizador. Encontrei muita coisa engraçada, na época em que vivi lá. Falo do francês atual, não o da revolução. Cheguei em Paris em 1965, vinte anos depois da guerra. Peguei Paris toda suja, negra. Não tinham feito nos prédios, aquilo que eles chamam de Ravallemant, lavar os prédios para parecer aquela beleza, a cidade luz. Não tinham, na época, meios modernos de lavar fachada, hoje já há a água sobre pressão. Era muito triste. Quando saí de Copacabana para Paris, tive um choque. Tudo bem, torre Eifell é bonita, mas uma cidade com uma ponte de depressão muito forte. Estava mais para existencialismo mesmo. Sartre e Simone de Beauvoir eram pessoas que eu encontrava na rua. Ives Montand. Ou estavam no La Coupole ou no Demagot.

Daniela Aragão: Você pegou a Paris de fato.

Turíbio Santos: Claro. Paris, Paris mesmo. Você entra no café tem um preço às duas horas, às quatro muda. Às seis fica lá em cima e depois volta a descer. Nunca vi isso. Peguei a grande Paris. A dinâmica da música clássica era muito disciplinada. Eles tinham belas orquestras, Orquestra Nacional de Paris, Nacional de France. Mas tem um caráter de “gosto de ser funcionário público”, “adoro trabalhar pouco e se puder não pago o imposto de renda”. Acho que esta aproximação com o Brasil, advém, sobretudo, do forte poder da igreja católica. Gostam de sociedades exóticas e mulheres bonitas e gostosas. Vinhos, queijos.

Daniela Aragão: Você visitou países próximos?

Turíbio Santos: Conheci a Inglaterra na mesma época. Parece que você está em Esparta, lá as pessoas comem mal e acham engraçadinho. Passei cada uma lá (risos). Você é muito acolhido pelas famílias do interior. Eles são fanáticos por música, são disciplinadíssimos. A música clássica, pede uma disciplina quase extra humana. A precisão, a história da orquestra. É uma coisa maravilhosa, mas só isso é de lascar. Com eles é isso ou o jazz. E nós brasileiros não, inventamos uma música. O francês não sabia o que inventar. Quando cheguei lá, a chanson française era muito forte. Ives Montand, a garotada toda que seguia Edith Pìaf, Jacques Brel. Vieram também árabes e espanhóis.

Daniela Aragão: Parece-me que os franceses pararam aí, na chanson.

Turíbio Santos: Eles não conseguiram inventar algo deles. Nós inventamos a Bossa Nova, o choro e o samba. É muita invenção.

Daniela Aragão: Você gravou muitos choros também.

Turíbio Santos: Sim. Pois bem, voltando a minha carreira discográfica. Mostrei ao Michel Garcin, que era meu produtor, que no Brasil há uma musica maravilhosa, chamada Choros. Depois de minhas aventuras pela obra de Villa Lobos, ele depositava uma confiança cega em mim. Sugeri-lhe então, que gravasse um disco no Brasil e eles editassem. Gravei no Brasil, com Raphael Rabello, Jonas do Cavaquinho, João Pedro Borges e Chaplin, na percussão. Um time incrível.

Daniela Aragão: Como se deu seu contato com o violonista Raphael Rabello?

Turíbio Santos: Conheci Raphael, quando ele tinha treze anos. Ele começou a viajar comigo. Quem o encaminhou até mim, foi o Hermínio, quando lhe solicitei um violão de sete cordas, para que viajasse comigo. Raphael era um menino, mas muito sério. Gravamos dois discos, “Valsas e choros”, foi o primeiro disco da Quarup. Eu iria gravar com Mauricio Tapajós, soube então que o Mario De Latanha estava fazendo uma companhia. Dei para ele o disco. Levei o disco “choros do Brasil”, chamei o Hermínio, que dirigiu meio contrariado.

Daniela Aragão: Você fez um percurso vasto também pelos choros?

Turíbio Santos: Relancei o choro lá fora. Nunca apostei muito neste lado. Eu não queria ficar marcado como “chorão”, pois não sou. Raphael era um chorão, Yamandú é quase um chorão. Ele possui aquela verve do sul, que é uma maravilha. Continuo tocando música brasileira, mas minha formação é clássica, minha articulação é clássica.

Daniela Aragão: Acho belíssima a trilha sonora composta por você para o filme “Eternamente Pagú”, dirigido por Norma Benguell.

Turíbio Santos: Norma era amiga de minha irmã, Giselda. Ela disse para minha irmã, que gostaria que eu colocasse um violão para conduzir o filme. Fiz uma música chamada “Pagú” e chamei o Roberto Gnatalli, pois eu queria um pouco de orquestra.

Daniela Aragão: A música permeia o universo do modernismo no filme.

Turíbio Santos: Isso. Coloquei também um dedo no filme. Até na montagem, dei umas sugestões. A relação com a Norma se estabeleceu num conflito, do princípio ao fim. Ela, na realidade, é uma artista sensível, uma pessoa muito interessante. No entanto, na ocasião da realização do filme, era completamente amadora no quesito direção. Um disco se edita muito, então não é surpresa a necessidade de se editar um filme.

Daniela Aragão: Você compôs outras trilhas?

Turíbio Santos: Auxiliei na composição da trilha para o filme “Villa Lobos”, dirigido por Zelito Viana. Cheguei até a dublar o violão que o Marcos Palmeira tocava na representação do Villa jovem. Para o filme, Zelito tinha um ótimo conselheiro, que era o Silvio Barbato. Envolvi-me muito com os dois filmes, primeiro, porque a história da Pagú era muito fascinante. Villa Lobos então, nem se fala. Tive a sorte e a benção, de passar sempre nas encruzilhadas interessantíssimas e desertas. Não é fácil você começar a vida artística com uma competição. Quando a competição é você com você, mesmo num deserto, é muito legal. Foi muito legal (longa gargalhada).

Daniela Aragão: No decorrer de sua carreira, você dialogou e trabalhou com ícones de nossa música. Hermínio Bello de Carvalho é um acervo musical.

Turíbio Santos: Hermínio foi o primeiro cara que defendeu a ideia da música, sem estar ligado a uma companhia de gravação. Sem estar ligado a uma televisão, sem estar ligado a nada dessa categoria. Ele está acima de qualquer suspeita. As cantoras dele são todas velhinhas, não pode ver uma velhinha, que ele fica doido (risos).

Daniela Aragão: Você já desenvolveu algum trabalho musical com a comunidade?

Turíbio Santos: o Museu Villa Lobos possui uma favela atrás, chamada “comunidade dona Marta”. Assim que assumi a direção do museu, algumas pessoas chegaram até mim. Tedy Kennedy passou por lá e foi rezar uma missa em nome de John Kennedy. Ele deixou um cheque de dez mil dólares, com uma considerável quantia, para que fosse destinada a construção do telhado do Centro Cultural. A comunidade veio ao museu perguntar se poderíamos fazer uma escola de Música para eles. Naquela época era dificílimo subirmos ao morro. Conseguimos dois alunos da comunidade que nos conduziram até lá. Uma das bases seria a Associação de Amigos do Museu Villa Lobos e a Escola de Música. Trabalharíamos a quatro mãos. A Academia tem o direito sobre a obra, é quem manda. O museu apenas guarda.

Daniela Aragão: A escola já abriu com muitos alunos?

Turíbio Santos: No primeiro ano já tinha 130 alunos. Iniciação musical, violão, cavaquinho e flauta doce. Se você pensar em termos de escola formal, foram aparecendo histórias incríveis. Um menino, que adorava flauta doce e que deixava de vender no sinal de trânsito com a mãe. A mãe odiava flauta doce (risos). Só que depois de dois anos, este menino progrediu tanto, que lhe demos uma flauta transversal. Oferecemos a ele também um trabalho de monitor. A partir daí, a mãe passou a amar a flauta e permitiu que o filho tocasse em casa, pelo tempo que desejasse. Hoje, há um rapaz chamado Rodrigo Belchior, que é professor formado, com mestrado na Uni Rio. Há vários assim. Este era entregador de jornal, tornou-se músico profissional.

Daniela Aragão: Fale sobre o Villa Lobinhos.

Turíbio Santos: Em 1999, a família Moreira Salles, através do João Moreira Salles, ofereceu patrocinar algo para as crianças. João criou um apelido super simpático, “Villa Lobinhos”. Este projeto seguiu até 2007, contemplava jovens de dez anos até os dezessete. O projeto era baseado no seguinte princípio, quem administrava era o “Viva Rio”. Em 2007 começaram a acontecer atritos e resolvi tirar meu time de campo. Mais adiante, o projeto retornou com o nome “Villa Lobos e as crianças”, com apoio da Petrobrás. Villa fez muita coisa pelas crianças.

Daniela Aragão: Como foi o “Villa Lobos e as crianças”?

Turíbio Santos: O trabalho seguiu de vento em popa. Mas aos poucos, fui me desligando e deixei o trabalho sob a coordenação de Maria Clara Barbosa, Sergio Barbosa. Sergio é regente, formado na Rússia. Um cara com uma cabeça muito interessante, é compositor também. Clara tinha muita atividade no choro e também em coral, na fundação de Manguinhos. Regente, arranjadora. Fizeram um trabalho maravilhoso, que explodiu e não se restringiu apenas ao Museu Villa Lobos. Foi para o Museu Histórico Nacional, Museu Imperial e Parque Nacional. Quando as crianças ensaiavam, todos paravam para ver e isso era fantástico, uma visibilidade incrível.

Daniela Aragão: Você permanece trabalhando no Museu Villa Lobos?

Turíbio Santos: Me aposentei do Museu Villa Lobos em 2010. Em 2013 me aposentei da Escola de Música, também parei com a “Associação de Amigos do Museu”.

Daniela Aragão: Como você analisa a retomada do ensino de música nas escolas?

Turíbio Santos: Villa Lobos foi, absolutamente, fascinante em seus atos. Entre 1930 e 1945 utilizou a maneira mais fácil e mais direta de fazer música, que é fazer as pessoas cantarem. Ele criou o “Manosalfa”, você diz para a criança, dó, ré, mi, fá, sol, lá, si,dó. Depois, pede para fazer um acorde maior. Dó, mi, sol, dó. Ele criou a “Sema”, uma secretaria de estudos musicais. O resultado mais interessante, colocar aquelas quarenta mil crianças, para mostrar que aquilo não era brincadeira. Construiu o guia prático, recolheu todos os temas de Brasil e canções, para que os professores tivessem matéria para ensinar para as crianças.

Daniela Aragão: O que é a música para você?

Turíbio Santos: O encanto de criações, do contato de duas mãos com as cordas. O instrumento colado ao corpo é terapêutico e hipnótico. Espero mantê-lo e conduzi-lo o mais longe possível. Se influenciei um jovem violonista a cultivá-lo, ou alguém a ingressar na viagem, eu ficarei feliz até o fim. Afinal a vida é um sonho que deveria sempre ser encantado.

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