Renasce a Pérola Negra 

Daniela Aragão Daniela Aragão
2/03/2017

Conheci Raquel Munhoz, Felipe Castro, Janaína Marquesini e Luana Costa no ano passado, em São Paulo, quando dava andamento a minha peregrinação, em busca de informações sobre Clementina de Jesus. Tratava-se de um trabalho de garimpeiro e ourives, encontrar material para a escrita de um artigo relativo ao pós-doutorado, que curso na Universidade Estadual do Piauí, em Teresina. Estes jovens me apareceram por meio de um vídeo caseiro, postado no facebook. Belos e iluminados de entusiasmo dançavam com as capas dos vinis da Quelé e cantavam algumas músicas consagradas na voz da Rainha Ginga. Fiz-lhes o tradicional convite para amizade, que me foi retribuída de imediato.

As conversas iniciais, com Raquel Munhoz e Janaína Marquesini, se deram dessa maneira próxima-distante, que é a internet. Elas totalmente encasacadas, no ápice do inverno paulistano, me perguntavam sobre a intensidade do sol mais belo e fervoroso que brilha em Teresina, ápice do equador. A má conexão impedia que compartilhássemos nossas faces de surpresa e alegria, diante da comunhão de afetos por Clementina, mas em contraponto, favoreceu a agilidade do encontro com toda a equipe de realização da obra “Quelé a voz da cor”.

Aterrissei na casa-escritório de produção da equipe do livro, em Julho do ano passado e fui recebida com cafezinhos, chás, biscoitos, muito cobertor e filmes sobre Clementina e a história do samba. No transcorrer do dia, fui me aclimatando àquele ambiente tão, calorosamente, rico em criação e respeito à memória da nossa música. As paredes do corredor da sala eram preenchidas com imagens de Quelé, emolduradas, algumas extraídas de capas de discos. Sobre a mesa, empilhava-se uma profusão de materiais impressos, oriundos da pesquisa realizada na Biblioteca Nacional. Por outros cantos, acomodava-se parte do acervo cedido pelo pesquisador Sergio Cabral. Na ampla estante, livros sobre música escritos por José Ramos Tinhorão, Nelson Motta, Hermínio Bello de Carvalho, Sérgio Cabral, Nei Lopes, Luiz Antônio Simas e Jota Efegê.

Dizer que ali era meu paraíso seria redundância. A equipe, em ritmo intenso de produção, estava prestes a concluir os derradeiros capítulos de “Quelé a voz da cor”. A ideia do tema “Clementina de Jesus”, surgira há cerca de seis anos, quando os autores cursavam jornalismo, na Universidade Maquenzie - São Paulo. Ao invés de obedecerem aos tradicionais pré-requisitos de final de curso, que solicitam monografias sobre temas adequados à realidade do mercado e do público consumidor, transgrediram com convicção a imposição formatada. Escolheram uma negra, empregada doméstica, favelada, cantora e já falecida. Uma ousadia que a força desses jovens abraçou diante das inúmeras recusas e justificativas depreciativas por parte da instituição.

“Quelé a voz da cor”, saiu primeiramente em versão limitada (cem exemplares) e restrita ao número de páginas exigidas pela estrutura padrão da monografia. Os volumes foram distribuídos entre os professores e familiares dos autores. O reconhecimento pela qualidade do trabalho fizera a equipe angariar vários prêmios e, consequentemente, exercera um papel pedagógico sensacional, possibilitando que a instituição revisse os tais intocáveis valores de mercado.

Tive a honra de ler a versão monográfica, que já trazia uma consistência conteudística considerável. A história de Clementina de Jesus é contada desde o nascimento, na provinciana Valença, Estado do Rio de Janeiro. Com riqueza de detalhes, os autores percorrem o cenário que acalentou os primeiros anos da menina Tina, apelido carinhoso concedido pela mãe. A capelinha de Carambita, os hábitos simples dos pais e a presença prodigiosa do legado sonoro da avó.

Aposso-me da versão robusta do livro, que acaba de ser lançado pela editora Civilização Brasileira, com distribuição nacional. Uma obra de fôlego, que se destaca, sobretudo pela precisão com que percorre a ambiência política, social e cultural da época em que viveu Clementina. Sobressai a sobriedade de um texto, que evolui numa narração de tom agradável e emocionante. Os autores não incorrem nas armadilhas da aridez comumente insípida do discurso acadêmico. A cada capítulo, enlaçava-me mais na sedução do prazer do texto: “Clementina de Jesus Bello de Carvalho”, “Os crioulos, a rainha Ginga e o Rosa de Ouro”, “O estrelato da rosa negra”, “mãe áfrica”, “entre jongos, curimãs e partidos”...

A quantidade considerável de depoimentos colhidos de músicos, compositores e pessoas, que de certa maneira contribuíram para contar a história de Clementina e da formação do samba no Rio de Janeiro, dos últimos cem anos, fazem deste livro, por si só uma obra de referência. A discografia de Clementina, que se tornou, praticamente, objeto de colecionador, em “Quelé a voz da cor” é retomada na íntegra. Chamou-me a atenção o cuidado na recomposição da formação do naipe de músicos de cada disco. É um presente saber como se deu todo o processo de idealização e gravação, de um dos álbuns fundamentais não somente da obra de Quelé, mas do acervo de nosso cancioneiro. “O canto dos escravos”, derradeiro trabalho de Clementina de Jesus, é destrinchado nos mínimos detalhes.

Os autores ainda nos brindam, com a delicadeza da impressão em versão reduzida das belas capas de todos os discos de Quelé. Inesquecível e impactante capa realizada por Elifas Andreato, “Clementina e Convidados” (1979) em alusão descontrutiva à calçada da fama hollywoodiana. Clementina imprime a marca do seu pé, sobre uma superfície de areia áspera. Ao redor três folhas secas. Salve Nelson Cavaquinho e Guilherme de Britto. Em nuances de azul, branco e violeta, voa a pérola negra, “Clementina de Jesus – Convidado especial: Carlos Cachaça” (1976). Elevada além de sua inata grandiosidade, pela criação de Mello Menezes, autor da capa memorável que celebra o encontro entre a Rainha (Com pequeninas asas de anjo) e Carlos Cachaça.

Uma aquarela de Dorival Caymmi coloca uma estrela em ânsia de vôo transcendente sobre a cabeça da negra Quelé: “Embala eu, embala eu/Menininha do Gantois/Embala pra lá, embala pra cá/Menininha do Gantois/Oh, dá-me a sua benção/Menininha do Gantois/Livrai-me dos inimigos/Menininha do Gantois/Dá-me a sua proteção/Menininha do Gantois/ Guiai os meus passos por onde eu caminhar/Vira os olhos grandes de cima de mim/Pras ondas do mar”.

Que a voz rara de Clementina volte a nos embalar com sua força. Embala eu, Negra Ginga!

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