Entrevista com o compositor e cineasta Sergio Ricardo

Daniela AragãoDaniela Aragão 3/05/2017

Daniela Aragão: Como começou a percepção da arte em sua vida?

Sergio Ricardo: Quando eu era garoto morava em Marília. Por volta dos meus oitos anos de idade, havia uma loja de uns japoneses cuja vitrine era uma ótica. Na vitrine tinham uns óculos e umas pinturas que os japoneses faziam. Era uma paisagem muito bonita. Eu então pensei comigo, que ainda iria fazer um quadro. Vou fazer uma poesia para este quadro e ainda uma música. Foi engraçado, por que no fundo, isso era cinema. Som misturado com imagem dá cinema. O tempo foi se passando, minha mãe me colocou no conservatório e comecei a fazer uma das partes, que foi a música.

Daniela Aragão: A música floresce em você...

Sergio Ricardo: Tive uma facilidade muito grande com o ensino de música e daí a pouco eu já estava tocando piano. Com uns quinze, dezesseis anos já tocava a “Dança ritual do fogo”, do Manoel de Falle, que é uma música bonita, de muito efeito. Acabei fazendo sucesso. Ao mesmo tempo, eu era o primeiro aluno da turma em desenho. Faltava a poesia, que veio lentamente. Em português eu também era um bom aluno. Isso me deu certa segurança. Comecei a ler muito, li a vida inteira, bastante. Comecei então a misturar a música com a escrita e acabou dando samba. Ao mesmo tempo, eu ia ao cinema ver os filmes de faroeste e comecei a me imaginar como ator. Sonhar, como todo garoto sonha em ser ator. E não é que a vida me possibilitou fazer tudo o que imaginei quando criança?

Daniela Aragão: Você cumpriu toda a parte formal do conservatório?

Sergio Ricardo: Não. A parte teórica, sim. Fui até as raias da fuga, que é a forma mais complicada de se compor. Tem a composição também, a música não era só cantar ou tocar, era compor também. Avancei muito no conhecimento musical, passei a ouvir muito. Há um compositor brasileiro, que me marcou sempre e me marca até hoje, que é o Caymmi. Tem também o Pixinguinha, Noel, Tom Jobim. Mas Caymmi conseguiu uma redução mitológica dentro do trabalho dele, que é um lance bem brasileiro. Algo que faço força para manter, que é a brasilidade do meu trabalho. Tanto na música, quanto na poesia. É ser brasileiro. Sou brasileiro, nasci aqui. Fui morar um ano em Nova York e não consegui falar inglês de jeito nenhum. Eu só queria saber de brasileiro. Na Europa foi a mesma coisa. Não me adaptei, não consegui falar outra língua que não o português.

Daniela Aragão: A brasilidade é uma marca sua forte.

Sérgio Ricardo: Consideraram minha música bossanovista, pela qualidade, sei lá. Mas o fato é que também não fiquei preso a Bossa Nova. Minha preocupação nunca foi enriquecer com a minha arte, a arte para mim é uma coisa sagrada mesmo. Me dedico por devoção, não por preocupação de enriquecer ou virar sucesso. Faz parte do meu alimento diário.

Daniela Aragão: Você acabou exercendo todas essas artes.

Sergio Ricardo: Fui ator, trabalhei muito tempo nessa atividade. Trabalhei como ator num tempo longínquo da televisão, antes inclusive da Bossa Nova. Fui ator de televisão, de novela, até pianista de boate. Neste transcorrer, eu também já conduzia o ofício da escrita. Fui locutor de rádio. Meu tio tinha uma rádio em Santos. Pegou-me em Marília e me levou para a rádio dele. Escrevia crônicas. Dali a pouco, eu estava fazendo tudo o que eu queria na vida. Foi assim que começou essa polivalência.

Daniela Aragão: Uma versatilidade considerável, mas que parece nunca ter saído do âmbito da atividade intelectual e criativa.

Sergio Ricardo: Isso é verdade. Me cansava de uma coisa, pegava outra. Hoje em dia, ao invés de achar que isso foi um presente da natureza, penso que foi uma sacanagem que fizeram comigo. Eu poderia ser só uma coisa e ir a fundo nela. Poderia ter sido só um cantor, ou só um compositor. Como João Gilberto. Foi tudo se misturando e finalmente, hoje aos oitenta e quatro anos de idade, estou cansado de criar. E não consigo largar, porque virou um vício. Ou eu criava de um jeito ou de outro. Pintando, gravando, compondo, atuando. Fui um bocado de coisa, mas não vejo muita vantagem nisso.

Daniela Aragão: Você é geminiano?

Sergio Ricardo: Sim, só podia ser (risos).

Daniela Aragão: Dentre estas artes todas, qual foi a mais visceral para você?

Sergio Ricardo: Qualquer uma delas, menos a pintura. Ela é a mais esporádica, a que faço com menos assiduidade. O cinema nunca saiu de minha cabeça e ele tem uma coisa boa, que é a mistura de todas as artes. Se fizer cinema e entender de música, melhor ainda. Se sabe escrever, melhor ainda, se ator, melhor ainda. Pintor, vai fazer cenário. Essa coisa do cinema, talvez tivesse sido para mim a profissão ideal. Infelizmente, o meu cinema não arregala os olhos dos patrocinadores. Ficou uma arte muito sacrificada para ser realizada. Vou fazer o quarto longa metragem, contabilizo em minha produção cinematográfica, uns dez curta metragens e só. Poderia estar com uma filmografia bem mais avançada.

Daniela Aragão: Você compôs muita trilha para cinema, inclusive a antológica para “Deus e o Diabo na terra do sol”, de Glauber Rocha.

Sérgio Ricardo: Fiz para vários filmes. A música que eu fiz para cinema era uma música de quem entendia de cinema. Tinha tudo a ver com o cinema. A música é algo para mim muito particular, faço para mim mesmo. Nunca fiz música pensando em ser sucesso. Coloquei a minha vivência. Todas as artes tem a ver com a música, talvez por isso eu tenha saído para fazer outras coisas. A música tem algo básico, que é saber lidar com a harmonia, o ritmo e a melodia. Esses três elementos estão em qualquer arte. Na poesia você deve ter ritmo, harmonia e um bom jogo de palavras. Isso em cinema é a mesma coisa. Tudo tem que ter harmonia, melodia e ritmo. Se você está de posse dessas três coisas e consegue respeitar artisticamente, o resultado será sempre uma coisa organizada, resolvida.

Daniela Aragão: Como foi seu encontro com Glauber Rocha?

Sérgio Ricardo: Glauber apareceu muito ocasionalmente em minha vida. Quando surgiu o cinema novo, eu estava fazendo um curta-metragem, que era “O menino da calça branca”. O Glauber montava o filme numa outra moviola. Nelson Pereira dos Santos, vendo o copião do meu filme projetado, pediu para montá-lo. Fiquei radiante com essa oferta. Disse para ele, que eu não tinha dinheiro e que não teria como pagá-lo. Nelson disse que não se tratava de dinheiro, mas que queria montar o filme, porque tinha gostado. Ele montou meu filme e quando montava o “Barravento”, do Glauber, nós ficávamos na Líder. Ele, numa moviola com o Glauber e eu numa outra com o Nelson. Acabamos amigos, saíamos juntos para tomar café. Nessa, o Glauber, que era muito irreverente, chegava para mim com a música “Chico fim de noite”. Um passarinho me chamava, e vem um assobio. Ele vinha brincando me sacanear. E pintou uma amizade muito grande entre nós.

Daniela Aragão: Da amizade surgiu o convite para a trilha então?

Sérgio Ricardo:Num certo dia o Glauber falou “No próximo filme que eu realizar, você vai fazer a música, se prepare”. Aí começou a me encher de fitas de gravações, que ele fez no interior do nordeste. Era uma coisa dos cantadores daquelas bandas. Quando chegou a vez de “Deus e o Diabo”, me entregou o poema que eu iria musicar.

Daniela Aragão: Imagino como deveria ser o entusiasmo de Glauber e suas aspirações. Ele tinha uma concepção hiperbólica de tudo.

Sérgio Ricardo: Tudo em Glauber era excesso. Pensei que o filme iria ficar uma porcaria. Um dia, ele nos chamou para ver “Deus e o Diabo na terra do sol”, que estava sendo exibido. Fomos para o cinema e cheguei com um medo desgraçado. No ápice do Corisco ficou muito bom. Fiquei espantado de ver como ele conseguiu me transformar num cantador de feira, e como isso deu certo no filme dele.

Daniela Aragão: Você já tinha ido ao nordeste?

Sérgio Ricardo: Não. Eu ouvia muita coisa que o Glauber me mandava. Desde criança, que gosto de coisas nordestinas. Em Marília eu ouvia muito Luiz Gonzaga. Assim Nasceu “Deus e o Diabo na terra do sol”.

Daniela Aragão: E seguiu-se a Deus e o Diabo, Terra em Transe.

Sérgio Ricardo: Glauber chegou a mim e disse que eu faria a música para “Terra em Transe”, só que desta vez com orquestração. Glauber parecia ter um pacto com algo superior, extraordinário. Eu disse a ele que tinha conhecimento, mas que nunca havia feito música para orquestra. Eu poderia quebrar a cara. Fui para casa e comecei a escrever as partituras, morrendo de medo de dar errado. Depois fomos para o estúdio gravar.

Daniela Aragão: Novamente você compôs a trilha sem ver uma cena do filme?

Sérgio Ricardo: Desta vez eu vi (risos). Sem imaginar que fosse dar certo, o lance soou bonito. Glauber consegue extrair da gente, coisas que não sabemos que temos dentro de nós. Ele tem uma parte com o diabo.

Daniela Aragão: Era difícil lidar com Glauber?

Sérgio Ricardo: Não, ele era facílimo de lidar. Mas ele tinha sua opinião, que era terrível de mudar.

Daniela Aragão: Recordo-me de que numa entrevista concedida por você a Tv, você disse que Glauber era tão culto e possuidor de tão vastos e convincentes argumentos, que era impossível travar uma discussão com ele sem sair aniquilado.

Sérgio Ricardo: Ele era muito preparado. Glauber era um gênio, e não há como negar um gênio. Meu irmão, Dib, também era um gênio. A primeira cena que fiz com o Dib foi em “O garoto de calça branca”, ele dá uma cambalhota na tela. O garoto fica com as pernas para cima. Todos os filmes que fiz foram com Dib.

Daniela Aragão: Você vem dessa época “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. É preciso relembrar o quanto de ideal de amor pela arte havia.

Sérgio Ricardo: Nós inventamos um cinema. O primeiro filme que fiz “O menino de calça branca” era na favela. Queriam colocar trilho para fazer academicamente correto. Não é possível. O cara não queria fazer travelling sem trilho.

Daniela Aragão: E a realização de roteiros?

Sérgio Ricardo: O grande professor de roteiro que tive foi Ruy Guerra. Tudo isso aconteceu antes de pintar o Cinema Novo. Assim que Ruy chegou ao Brasil, se instalou no Rio e começou a frequentar a boate a qual eu tocava piano. Daí nos tornamos amigos. Rui sabe tudo de cinema e me ensinou muito. O que aprendi com ele, foi suficiente para eu fazer um roteiro sério, legível. Nelson Pereira me ensinou a edição. Os franceses me influenciaram muito, sem a Nouvelle Vague, o Cinema Novo não existiria. Os italianos também foram fundamentais. Ficar no cinema fazendo tudo academicamente certo é um saco, tem hora que o improviso é mais bonito que qualquer compêndio. O cinema japonês também me influenciou um pouco, a linguagem.

Daniela Aragão: E seu mais recente filme que está em processo de filmagem?

Sérgio Ricardo: Ah sim, o “Bandeira de Retalhos”. Este filme nasceu de uma história real que vivenciei, quando eu tinha o barraco 14. Estranhamente não sei por que ele trazia este número.

Daniela Aragão: O 14 era a delimitação do seu barraco ou da rua?

Sérgio Ricardo: Era a delimitação da favela. Tenho o 14 e o Vidigal. Na verdade é Vidigal, mas chamado de 14. Cada espaço possui um título especial. Eu conheço só o 14, mas sei que lá para cima têm outros. O “Largo da Bica”, por exemplo, é o Cantão, um lugar em que fizemos tomadas de meu filme. O Bandeira nasceu no 14, como uma história vivida por mim e por todos os moradores. No fim dos anos sessenta, a ditadura resolveu botar a favela abaixo. Mas, soube-se que não era só porque desejava se limpar o morro. Na verdade tinham vendido para uma construtora estrangeira, que iria fazer vários hotéis aqui na Niemeyer. No entanto, essa informação vazou e todos nós ficamos sabendo que iriam fazer a remoção, que aconteceria em função disso.

Daniela Aragão: E o seu barraco estava entre os que seriam removidos?

Sérgio Ricardo: Exatamente. O meu e de todos os demais moradores. A partir dessa iminência de desmonte, a nossa associação que estava amorfa renasceu. Tentamos juntar a população. Um tal de Pernambuco, que era um dos personagens da associação, juntou a turma toda e rapidamente tínhamos um aglomerado de gente disposta a encarar o problema. Mas como iriamos encarar, via exército? Armas? O jeito seria ganhar na justiça. Argumentei com os colegas, que eu conhecia uma forma de chegar ao Sobral Pinto, que era o maior advogado do país. Chamei o Sobral e ele mandou um tal de Bento Rubião, pois ele não tinha condições de subir o morro. Ele era mulato e com toda a disposição para enfrentar essa empreitada. Sobral comunicou ao povo que teriam que fazer uma solicitação de permanência.

Daniela Aragão: Mas os empresários não alegariam que as terras pertenciam ao governo?

Sergio Ricardo: Aí a turma toda assinou o papel e inclusive tinha um personagem importante nessa história, que era o deputado Délio dos Santos. Ele havia aberto uma CPI no congresso contra as remoções. Então tudo se juntou. Depois de terem destruído quinze barracos, mas parou por aí. A partir desse momento a remoção foi extinta. Eu que já morava num deles, juntei o pessoal da música para fazer um show num colégio de Freiras aqui do lado. O colégio cedeu o espaço para fazer o show “Tijolo por tijolo”, para angariar fundos destinados a compra de tijolos, para eles construírem os barracos. Deixar de ser madeira para começar a virar tijolo, pois ganhamos a posse da terra. Então o Vidigal pertence aos moradores.

Daniela Aragão: Depois disso não houve mais nenhuma tentativa de retirada da população do Vidigal?

Sergio Ricardo: Nenhuma mais. Nem após o fim da ditadura, ninguém conseguiu entrar mais aqui. Cada morador possui a sua escritura. O gozado é que atualmente sobressai uma nova modalidade de remoção. É a tal remoção branca, aquela que o indivíduo chega, olha seu barraco e diz “Quanto você quer por ele?”. O cidadão que está precisando de dinheiro negocia com o cara. Ah meu barraco aqui tá valendo uns dez mil reais. O cara diz, eu dou vinte para você sair amanhã. O cara arregala os olhos e entrega a peteca e vai embora. O cara fica com uma vista deslumbrante para o mar, por apenas vinte mil reais.

Daniela Aragão: Aliás, estou completamente embevecida pela vista do mar aqui de sua janela. Considero esta uma das vistas mais lindas do Rio de Janeiro.

Sergio Ricardo: Esta favela apresenta uma vista mais bonita que a da Rocinha, pois ela traz a vista mais bela do Rio de Janeiro. Há um buchicho por aí agora, tentando alertar o cidadão, para não cair nessa esparrela de vender a preço de banana o seu barraco. O indivíduo vai para qualquer outra favela e o barraco é mais caro que o que ele vendeu. Inclusive a saída desintegra a comunidade, uma coisa bonita aqui no Vidigal é a intercomunicação entre as pessoas. Há uma cultura especial aqui no Vidigal, com personalidade própria.

Daniela Aragão: O “Bandeira de retalhos” se trata então da história vivida por você e os demais moradores?

Sergio Ricardo: O filme segue até aonde essa emoção acaba. Durante o tempo da briga que envolveu o problema da remoção, a luta que se travou aqui é o que está explicado no filme. Ao mesmo tempo, inseri um contraponto de uma situação de uma dramaturgia um pouco mais acentuada, coloquei uma situação dramática entre três pessoas. Acaba na morte do marido e do amante.

Daniela Aragão: Você criou uma história?

Sergio Ricardo: Criei para alinhavar a história toda e não ficar uma coisa panfletária. Não se trata de um filme documental, pois não filmamos o documento mesmo. Para não ficar linear. Coloquei o contraponto de uma trama entre um casal e um bandido perseguido pela polícia, que tenta voltar para a favela, mas acaba morto pelo marido da amante. Isso tudo se alinhava. O Guti Fraga, o home do teatro, leu o roteiro e fez, primeiramente, uma adaptação para peça. A peça ficou dois anos em cartaz, foi um sucesso absoluto. Talvez tenha sido a peça que mais sucesso fez no Vidigal. Resolvi então levar para o cinema. Apareceu um tal de “Cavi Produções”, cujo responsável era habituado a fazer filmes sem dinheiro. A moçada da peça ficou entusiasmada e se ofereceu para fazer a peça sem grana mesmo. Então é como estamos fazendo.

Daniela Aragão: O elenco do filme é o mesmo da peça?

Sergio Ricardo: Sim. Com algumas mudanças. Eu trouxe o Antônio Pitanga para fazer um papel, a Glauce Guima, atriz que ganhou o prêmio de coadjuvante no último filme do Domingos de Oliveira e Osmar Prado.

Daniela Aragão: Onde o filme será exibido?

Sergio Ricardo: No Canal Brasil, pois foi o único que encarou a parada e deu cem mil reais. Esta quantia não é nada para um filme, mas ajudou a cobrir as despesas mais rasteiras, como alimentação. Ninguém está recebendo nada pelo filme. Estamos praticamente na metade. Vamos filmar até o final de março.

Daniela Aragão: Como você vê o cinema brasileiro hoje?

Sergio Ricardo: Não tenho visto nada. Com essa idade, para eu sair de casa é complicado. Acho que a arte brasileira, de um modo geral, está abaixo de zero. Esqueceu-se já as motivações mais importantes da vida brasileira, ninguém quer discutir muita política. Querem fazer filmes comerciais, está todo mundo muito metido em ganhar dinheiro. Como a mídia tomou conta do cinema, na Globo você não consegue dinheiro para filme político.

Daniela Aragão: Cinema de entretenimento.

Sergio Ricardo: Exatamente. E outros financiadores apresentam a mesma postura. Fazer filme que fique em prateleira, o chamado “Cinema de arte” foi para o Brejo. É assim na música, na comunicação pra valer, no teatro.

Daniela Aragão: Quando você fez as trilhas para os filmes de Glauber Rocha, pensava-se em um cinema revolucionário.

Sergio Ricardo: Com certeza. Não tenho outra coisa a fazer senão a arte. Quero concertar o Brasil, sou dos artistas que utiliza sua arma em favor do povo e não para encher o bolso de dinheiro. A minha função com a arte não é um meio para ficar rico. Se eu tiver o que comer e onde dormir está tudo bem. Tanto assim, que não sei nada de minha conta no banco, quem cuida é minha filha. A praga que o brasileiro tem de ter sido escravizado aos desejos dos grandes do país, o imperialismo. Ficamos um rebotalho das coisas.

Daniela Aragão: Fizeram um filme sobre a era dos festivais. Como você relê esse período que fez parte de sua vivência?

Sergio Ricardo: Os festivais foram um grito da própria mídia colocando sua posição como determinante da doutrina cultural no país. De forma que os festivais em si não dizem nada, só reiteram essa informação da mídia. Só que naquele tempo, para reiterar isso, eles tinham que endossar uma qualidade musical, que hoje não se vê mais. Eles mesmos apodreceram a plantação da cultura brasileira. Eles fizeram a deterioração com o passar do tempo, através dos programas bem ordinários que apresentam por aí. Foram tomando conta de uma linguagem, cada vez mais importadora e comercial de outros países. Você hoje não ouve mais música brasileira de verdade. Naquela época já começava a aparecer essa deteriorização. Os grandes compositores que apareciam vinham com um ranço da coisa brasileira. Hoje é um declínio. Tanto que os ídolos que aparecem na cabeça dos lúcidos são os do passado. Não tem ídolo, a não ser os bem chinfrins que aparecem por aí.

Daniela Aragão: E o episódio que motivou a sua quebra do violão, que se tornou, posteriormente, até um título de um livro seu?

Sergio Ricardo: Por coincidência foi um grito de alerta para esse processo de deteriorização cultural. Chamar a atenção, esse tipo de coisa vai levar ao declínio. Não era essa a intenção, mas historicamente está parecendo uma advertência feita por um maluco que quebrou a viola.

Daniela Aragão: O Edu Lobo, por exemplo, quando percebeu que poderia ser transformado num galã da canção, saiu fora do país. Foi estudar profundamente música e composição. Edu desejava ser um compositor, não um produto pré-fabricado.

Sergio Ricardo: A música dele, que ganhou, era lindíssima. Tinha que ganhar. O que aconteceu comigo não tinha a ver com a composição em si, mas com o comportamento, com a conotação daquela reação da plateia, já manipulada. Por outro lado, tinha a história da minha música conter uma crítica aos cartolas que manipulavam a vida dos jogadores de futebol. O dono da TV era um cartola mais famoso de São Paulo. O que eu poderia esperar, a não ser um boicote?

Daniela Aragão: Você achava que aquele momento opressivo, que começa a voltar novamente, foi fomentador do florescimento de grandes criadores?

Sergio Ricardo: Chico escapou de uma boa. Era difícil podar as coisas dele, ou trazê-lo para a estaca zero. Comecei a fazer música de contestação muito antes do Chico, minhas musicas já vinham sendo censuradas e meu nome foi boicotado nas televisões, nos veículos de comunicação. Não se podia mais tocar música minha no rádio, o que não aconteceu com o Chico, nem com outros compositores da época. Há uma história engraçada, o dono da rádio pegou um disco meu, que trazia a capa com um corte na boca, que está com uma parte do outro lado, com um balão mostrando as letras. Começaram a dizer que até a boca estava cortada. Os donos das rádios impingiam isso aos programadores das rádios e minha música passou a desaparecer do mapa. Não se ouvia falar em Sergio Ricardo, como eu não dava bola para isso, continuei fazendo e cada vez pior. “Calabouço” era uma música minha cantada em todas as universidades. Abri portas para vários outros compositores fazerem em seguida. Aonde eu chegava e cantava o “Calabouço”, os estudantes cantavam comigo. Ficava satisfeito com isso. Sem tocar no rádio, o povo não fica sabendo. Meu nome foi sendo esmagado e os heróis dos festivais se tornaram os ídolos.

Daniela Aragão: Foram te blindando.

Sergio Ricardo: Hoje em dia, se você pegar um por um, vai ver que cada um deles não foi superado até hoje. Cadê o Sergio Ricardo? Sumiu. Aí parti para o Cinema e a pintura e fui fazendo outras coisas. No final da ditadura, pensei que eu seria chamado, coisa alguma. Saíram deixando um lacre. Vandré, por exemplo desapareceu.

Daniela Aragão: E a sua pintura?

Sergio Ricardo: Minha pintura é ocasional, faço como fazia na infância. Desenho, pois não consigo ficar sem desenhar. É um negócio nascente, brota normalmente. Comprei umas telas e resolvi pintar a óleo. Andaram vendendo umas telas minhas. Fiz algumas exposições que deram certo. A pintura tornou-se um hoby. Aqui em casa já há um número de telas que dariam para uma exposição. Mas não tenho a tradição de ser pintor. Não sei os caminhos.

Daniela Aragão: Você teve algum professor de pintura?

Sergio Ricardo: Tive um pintor conhecidíssimo, o Zaluar. Abelardo Zaluar foi meu professor. Ele olhou meus desenhos e falou que eu tinha que pintar.

Daniela Aragão: Você fazia desenhos em nanquim?

Sergio Ricardo: Nanquim, lápis de cor. Ele me deu umas dicas, revelou-me que eu fazia umas das coisas mais difíceis na pintura, que é a superposição. Penso que isso tem a ver com a minha musicalidade. A música está em tudo, foi muito bom meus pais me colocarem no conservatório, pois a música é a base de todas as artes. Todas as artes tem que cantar, se você não canta num poema, se seu poema não tem música, rasga ele e joga fora. Um poema tem que ter música, melodia, harmonia e ritmo. Todas as artes precisam destas três coisas, um filme sem ritmo é horrível de ver. Sem melodia então é pavoroso, sem harmonia, que coisa maluca. A música dá base para todas as artes. Tudo o que faço em arte possui música dentro.

Daniela Aragão: E você possui um romance completo dentro da gaveta.

Sergio Ricardo: É verdade. É complicado, quem vai acreditar que o Sérgio Ricardo é escritor? Fiz um romance e não tenho relação com editora. Faz um cinco anos que está prontíssimo. O romance dá um filme estranhíssimo. A história é bem cinematográfica.

Daniela Aragão: E como se dá sua vivência e criação musical hoje?

Sergio Ricardo: Toco piano para me lembrar das harmonias e melodias e me satisfaço cantando. Não tenho tido necessidade de compor. A gente compõe com uma finalidade, fazer algo para ser ouvido. Não é que tenha se esgotado, há uma preguiça de fazer algo que sei que não vou gravar, tocar. Tudo tem que ter objetivo. Quero fazer coisa brasileira, não vou fazer pop, essas coisas. Não viso sucesso.
Não vejo TV de forma nenhuma. O que salva é a internet, vejo notícias que jamais sairiam na TV. Ouço músicas que não ouço em rádio nenhuma. Ontem eu ouvia música clássica. As produções marginais estão aí, há cada músico maravilhoso escondido embaixo do pano.

Daniela Aragão: Há algo hoje que te chama à atenção?

Sergio Ricardo: Se Chico Buarque aparece com música nova vou adorar. João Bosco também. Não ouço nada de novo, há o hip hop que me chama atenção. O Rap que só é poesia e ritmo, traz uma coisa interessante. Mas procuro ficar atento ao momento em que o sujeito faz um ritmo brasileiro de verdade.

Daniela Aragão: Há uma produção excelente que está na periferia, conduzida de forma independente.

Sergio Ricardo: Com certeza. Os músicos são obrigados por necessidade de sobrevivência a submeter-se a terríveis músicos da mídia. O trabalho de qualidade fica na periferia.

Daniela Aragão: Gostaria que você falasse do Vidigal como polo de efervescência cultural.

Sergio Ricardo: o Guti criou “Nós no morro”, uma escola de atores. Aqui há dois teatros. É destacável o movimento cultural em torno do “Nós no morro”, que envolve articulação, produção de roteiro. Peças feitas aqui. Trouxeram Shakespeare aqui na favela e deu muito certo. Há uma força em torno desse movimento cultural muito respeitável. O povo passou a ser mais antenado para a cultura. Tem também dança, oficina de formação de escritores, escola de representação. Todo mundo vira artista aqui. Esse morro é um centro cultural, por isso que não saio daqui. Acho aqui muito mais interessante que Copacabana, lá estão assistindo a TV Globo, aqui as pessoas não estão nessa. Acho isso uma beleza.

Daniela Aragão: O que é a arte para você?

Sergio Ricardo: A arte para a minha vida é o meu alimento. Eu sobrevivo de arte, não faço outra coisa a não ser arte.

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