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    Entrevista com o ator e diretor de teatro Marcos Marinho

    Daniela Aragão Daniela Aragão 21/10/2017

    Daniela Aragão: Como começou a percepção da arte em sua vida?

    Marcos Marinho: A memória que eu tenho da infância é o interesse pela arte do corpo. Pois eu morava no Bairro Grama, dos meus oito anos de idade, até me tornar adulto. Uma época em que era um bairro bucólico de hortas, fazendas e tal. Eu morava em uma granja, entre patos, galinhas. Cresci nesse meio de roça, bicho. Grama como outros bairros da cidade, tinha o seu cinema, uma coisa que acho que fomos perdendo. E o clube, que existe até hoje, Clube Montanhês. Os clubes tinham uma atividade cultural muito forte, principalmente, do cerimonial letivo. Festa Junina, natal, ano novo, dia das mães. Todo esse cerimonial com festas muito vistosas. Festa da primavera, com desfiles, danças. Isso me chamou atenção, convivi muito com isso. O cinema de bairro, muito bang-bang, Chaplin. E circo-tourada.

    Daniela Aragão: O que era o Circo Tourada?

    Marcos Marinho: São os chamados circos “tomara que não chova”, sem lona que cubra. Só havia arquibancada, com uma lona de chitão em volta. Eram bois, cavalos, cabritos e galos. Briga de galo, cabrito bravo por algum motivo. Eu gostava de ver aquilo e todas essas touradas traziam a figura do palhaço. Se o bicho ficar bravo demais, o palhaço começa a distrair a plateia. É um coringa, um distraidor. Então, a minha memória de interesse pelas artes do corpo vem disso.

    Daniela Aragão: E você reproduzia as brincadeiras que aprendia?

    Marcos Marinho: As minhas brincadeiras eram brincar de circo, fazer rola rola, pendurar na árvore. Na minha cabeça, eu estava na maior altura. Fazia trapézio pendurado em corda. Minhas irmãs gostavam de sentar na rede, eu já gostava de gangorrar na rede, até ela quase virar de cabeça para baixo e sentir frio na barriga. Então, a minha memória mais antiga é das artes do corpo. Além disso, na Escola tinha Saraus de poesia e teatro, dos quais eu participava.

    Daniela Aragão: O pensamento sobre o teatro chegou cedo?

    Marcos Marinho: Sim. Com quinze anos eu plagiei a peça “Missa Leiga”, que havia sido encenada pelo Henrique Simões -Teatro Sensorial, aqui em Juiz de Fora. Naquela época, eu na verdade achei que estava fazendo uma peça minha, mas era quase uma paródia da “Missa Leiga”. Fiquei impressionado com o Henrique Simões e seu grupo. A forma e o próprio texto. E por eu estar nessa época envolvido com a igreja católica.

    Daniela Aragão: Como se deu seu envolvimento com a Igreja Católica?

    Marcos Marinho: Na adolescência, início da juventude. Nesse meio tempo, eu era vizinho do Renato Stelling, que era amigo do Dnar Rocha, os Bracher, essa gente toda. Eu ficava na casa do Stelling e pegava tinta e pincel emprestado e aproveitava para ouvir as conversas que rolavam.

    Daniela Aragão: Seu interesse não era propriamente a pintura, mas a visualidade?

    Marcos Marinho: Meu interesse era a imagem, como ela se desenvolvia. Eu dialogava muito com o Stelling sobre isso. Minha curiosidade era essa, eu comprava algumas telas e tintas e levava para casa para ficar pintando. Alguns quadros que pintei, o Stelling até chegou a gostar. Eu não sabia se eu queria ser pintor, ator, ou poeta, ou músico. Nada. Era tudo ao mesmo tempo.

    Daniela Aragão: A arte em sua versatilidade pulsando.

    Marcos Marinho: Exatamente.

    Daniela Aragão: Você fez a direção em Missa Leiga?

    Marcos Marinho: Sim, chamei meus colegas de bairro e montamos a peça no clube Montanhês, com alguns recursos como luz, figurino e tudo mais.  Este Padre Paulo, já morava em Grama. Ele fazia rádio novela, para pregar o evangelho. Ele era um artista da luz, no final dos anos setenta essa característica era rara. Este padre tão incrível recortava madeira e papelão. As figuras construídas por ele eram bidimensionais, de lado ou de frente. Com roupinha de paninho e pintadinhas. Era um teatro de boneco parado. Dependendo do quadro, a luz vinha mais de lado, de baixo para cima, de cima para baixo. Foquinho mesmo, igual de cabeceira de cama e ao redor da igreja. Fiquei louco por aquilo e passei a ajudar o padre nessas criações.

    Daniela Aragão: Como o menino personagem do filme “Cinema Paradiso”.

    Marcos Marinho: Era bem isso. O padre me colocou de imediato para fazer voz de personagens, eu gravava com várias vozes de personagens e o auxiliava na busca de pessoas interessadas, que também pudessem gravar voz.  Colocava uma trilha sonora.

    Daniela Aragão: O contato com a sonoplastia também já se encaminhava.

    Marcos Marinho: Luz, sonoplastia, voz, as figuras recortadas. Está tudo misturado. Acho que de tanto conviver com esse padre, acabei procurando esse lance da igreja propriamente dito. Minha família, como grande parte das famílias brasileiras, é de formação católica, mas não tão praticante. Minha família até nem queria muito que eu seguisse o caminho religioso. Eu fui muito pela busca da espiritualidade e não parei só na católica, fui procurando outras também.

    Daniela Aragão: Sua formação inicial, como você revela, foi rica em experimentos artísticos. Certamente, essa multiplicidade lhe serviu de forte base para a consolidação do artista o qual você se tornaria.

    Marcos Marinho: No final da adolescência e início de juventude foi CTU(Colégio Técnico Universitário), artistas plásticos, luz, música. Tinha amigos que gostavam de compor, mas acabaram não prosseguindo. Participei de festival de teatro em Ubá, ganhamos primeiro lugar. Fizemos show no Clube Montanhês de MPB. Colocamos Novos Baianos, Dorival Caymmi, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Como nunca aprendi a tocar um instrumento melódico, eu ficava na percussão e na voz. O grupo era formado basicamente por flauta, violão e percussão. Acho que o nascedouro, estudar e me dedicar profissionalmente, foi muito dissociado, mas a partir do corpo. Sentir na própria pele. Eu não prestava muita atenção no que estava pintando, mas sim no porque de minhas costas estarem doendo. O movimento de meu corpo.

    Daniela Aragão: E prosseguindo....

    Marcos Marinho: Saindo do CTU, no fim da ditadura era difícil trabalho. Para quem vinha de alguma família de sobrenome importante era mais fácil, mas minha mãe era de uma família de operários e meu pai era barbeiro e agricultor. Além de que naquela época, também era difícil arrumar emprego, eu não queria ficar dentro de uma fábrica. Acho que um dos colegas do CTU, no último ano falou para eu fazer filosofia, história ou artes. Quando ele falou isso para mim foi um desespero. Eu era de família pobre e como iriam pagar?

    Daniela Aragão: Quando não temos mecenas o lance é acionar inacreditáveis recursos.

    Marcos Marinho: Com certeza. Um dia o Padre Paulo estava recortando o rosto de nossa senhora. Era lindo, só o perfil, que ele contornou com luzinhas de natal. Este padre arranjou uma vaga para eu estudar filosofia no Seminário Santo Antônio. Estudei por lá durante um ano e meio. Saí antes de ser expulso. Pois o bispo da época, Dom Geraldo de Maria Moraes, me viu pintando no horário do almoço e não gostou.

    Daniela Aragão: O seminário deve ter lhe oferecido uma considerável amplitude de conhecimento.

    Marcos Marinho: Este é o lado maravilhoso. O estudo aberto, pois é uma instituição católica, mas não com estudo só católico. O que era cobrado dos alunos era ler muitos livros, ver muitos filmes, analisar muitas coisas. Tinha que fazer terapia também.

    Daniela Aragão: Certamente essas cobranças eram bem vindas para você.

    Marcos Marinho: O seminário me enriqueceu muito, culturalmente. Eu tinha a ideia de concluir por lá a filosofia, nas horas de folga eu desenhava e pintava. Lá tinham inclusive afazeres braçais, como cuidar de porco, limpar piscina. Limpar chão, havia um revezamento... e também tínhamos aulas de canto.

    Daniela Aragão: Esse ofícios colocavam o aluno numa dimensão terra.

    Marcos Marinho: Certamente, não que eu não tivesse isso em casa, pois na infância minha função era limpar tomate por tomate, que seria levado para a feira.

    Daniela Aragão: O que te fez então desistir do Seminário?

    Marcos Marinho: Um dia eu estava no corredor pintando um quadro, era uma paisagem, em que eu estava fazendo verde e azul. Dom Geraldo fez uma visita surpresa no seminário, passou por mim, olhou o quadro e seguiu. À noite o padre reitor me chamou e disse: “Dom Geraldo me pediu para falar que não gostou de te ver pintando. O seminário é para formar padres e não artistas”.

    Daniela Aragão: Que corte

    Marcos Marinho: Tomei um choque. Fui para minha casa e fiquei por lá durante uma semana, foi um susto. Lembro-me de que fui para o banheiro e despejei um monte de café em mim, ovo e outras coisas que encontrei no armário.

    Daniela Aragão: Você fez uma performance?

    Marcos Marinho: Sim, uma performance (risos). Pena que ninguém fotografou. Deve ter sido a minha primeira performance.

    Daniela Aragão: Ninguém viu?

    Marcos Marinho: Meus colegas viram, morreram de rir. Mas era um sofrimento aquilo, eu não estava fazendo gracinha. Era um beco sem saída. No CTU eu não iria continuar, não estava no seminário para ser padre. Joguei tudo o que tinha no corpo, entrei debaixo do chuveiro, tomei banho, chorei e pronto.

    Daniela Aragão: Catártico

    Marcos Marinho: Não tinha como passar, imediatamente, dali para a UFJF. Nessas alturas, eu já tinha conhecimento do método Paulo Freire. Estava lidando com ele no Ipiranga, através dos padres da igreja da Glória. Eles alfabetizavam pessoas do Ipiranga no método Paulo Freire. Havia mais de um semestre, que eu e um colega íamos lá nos dias de folga, para estudar Paulo Freire e frequentar essas alfabetizações.

    Através desses padres, consegui uma bolsa na PUC Rio. Fiz uma via sacra. A PUC me deu a bolsa, mas eu teria que esperar um semestre inteiro para entrar no próximo ano. Para não perder tempo, eu passei um semestre estudando no Mosteiro de São Bento.

    Daniela Aragão: Como foi a experiência no Mosteiro?

    Marcos Marinho: Foi um momento maravilhoso. Eu não era interno, morava numa casa em Niterói e passei o restante do semestre estudando no Mosteiro de São Bento. As matérias que cursei no Mosteiro, acrescentaram no meu currículo e serviram para a PUC.

    No Mosteiro aprendi uma prática, que até hoje faço com os alunos de teatro. Consiste em esfregar o chão com um pano. É um trabalho com o ego. Além de aquecer o corpo e de nos lembrar, que estamos aqui para uma obra. Faço comigo também. Cada um, conforme suas possibilidades físicas, agachado ou de quatro. Simbólico da limpeza do ego, da vaidade, para o trabalho artístico ressaltar.

    Daniela Aragão: Você chegou na PUC com boa parte do curso realizado?

    Marcos Marinho: Cheguei com dois terços do curso de Filosofia na PUC. Foi o ano de 1980. Peguei o “Asdrúbal trouxe o trombone”, Rubens Correa. As matérias de filosofia clássica e história da filosofia eu já havia cursado. Aproveitei para estudar outras matérias do curso de filosofia, mas que seguem para um outro rumo. Estética, filosofia da arte, estudo comparado das religiões.

    Daniela Aragão: A PUC é muito voltada para a arte.

    Marcos Marinho: Sim, tem muitas aberturas. Aquela efervescência artística, enorme, acontecia na época em que estudei lá. Mesas redondas de variados temas... Paralelamente, fiz o curso que era “Educação artística”, hoje “Licenciatura em artes”. Só não tenho o diploma. Conheci muitos poetas que por lá passavam, fosse para algum evento, palestra.  Fui aluno do Clodovis e do Leonardo Boff.

    Daniela Aragão: Após a conclusão do curso você retorna a Juiz de Fora?

    Marcos Marinho: Sim, papai faleceu, minha família precisava da minha presença. Voltei pensando na possibilidade de retornar depois ao Rio. Nisso fui ficando em Juiz de Fora. Fui fazer curso com o Henrique Simões e conheci gente da UFJF. Acabei então levando meu currículo para a Universidade e fiz só as disciplinas de licenciatura, que me faltavam para concluir o curso. Me formei aqui em Juiz de Fora. Foi um percurso variado e sortudo.

    Daniela Aragão: E o trabalho com a voz?

    Marcos Marinho: O trabalho da voz é o que chamo de “corpo sonoro”. O primeiro contato mais técnico, que tive com isso, foi no coral do Seminário. A caracterização das vozes, quem é tenor, baixo, barítono. O nível de alcance na escala de tons. Esse tipo de coisa, trabalhar o corpo sonoro, ritmo. Foi no ambiente religioso que fui conhecer isso como ciência.

    Daniela Aragão: Quais outras experiências lhe favoreceram o aprimoramento da reflexão sobre o corpo e seus desdobramentos?

    Marcos Marinho: Na militância com a Comissão Pró-índio, no Rio, eu observava o lance corporal. Também trabalhei numa escola que incluía alunos com necessidades especiais (físicas e psicológicas) e tive que fazer vários pequenos cursos de artes para trabalhar nessa Escola.

    Daniela Aragão: Você também trabalhou em escola pública não é?

    Marcos Marinho: De 83 em diante, terminei o curso de filosofia e passei a fazer uns bicos para sobreviver. Dei aulas no período de 84 e 85, numa escola pública em São Pedro, que existe ao lado da universidade. Aquela escola era da Cenec e estava para fechar. Como muita coisa fechou no final da ditadura. O professor Roberto Monteiro, da Pedagogia, que se tornou muito amigo, tentou reunir um grupo de pessoas. A princípio como voluntários, para fazer uma escola fora dos padrões que víamos até então e com a inserção da pedagogia que acreditávamos. Periodicamente, os professores trocavam de disciplina, ou seja, experimentavam dar aula da disciplina do colega. Claro que para isso, tínhamos individualmente aulas das disciplinas diversas. Com isso, aprendíamos com o colega uma matéria e até enriquecíamos a nossa própria prática.

    A outra questão era a avaliação dos alunos, abolíamos no máximo que podíamos a prova escrita, de múltipla escolha. Os alunos se avaliavam e não eram retidos por presença. Até mesmo o pagamento do aluno em dinheiro era conversado com as famílias. As famílias eram chamadas para dentro da escola. Tentávamos colocar em prática todas essas possibilidades pedagógicas, que não eram muito comuns. Hoje o pouco que se tem o pessoal da “escola sem partido quer tirar”. Então isso tudo é muito forte em minha vida.

    Daniela Aragão: Você poderia falar sobre o grupo “corpo em cena”?

    Marcos Marinho: Formamos um grupo de teatro chamado “corpo em cena”, liderado por Inês Simões, irmã de Henrique Simões. Montamos uma peça que deu certo, depois outras duas na sequência. Nas peças do “Corpo em cena” tinha texto, mas era muito baseada no físico, na ação corporal, na maneira de agir em cena, na expressão corporal ensinada principalmente pelo Henrique Simões. A partir daí eu nunca mais parei de fazer teatro.

    Daniela Aragão: Este é o momento que você define seu ofício no teatro?

    Marcos Marinho: Sim. Passo a considerar que o teatro é o meu ofício. A partir daí estudei com muitas pessoas. Fiz seis anos consecutivos de aula de dança, com duas aulas semanais no mínimo. Fui fazer anti-ginástica, conheci um pouco da yoga. Mais adiante fui fazer circo, trapézio, cama elástica, e mais aulas de canto.

    Daniela Aragão: Você também dirige. Nesse tempo também havia uma entrega sua em relação ao texto?

    Marcos Marinho: Como adolescente e jovem eu fui poeta, escrevi algumas coisas. Não escrevi peças inteiras, mas cenas inteiras de peças. Alguns textos para cenas, além de muitas adaptações. E muita leitura de textos alheios, antigos ou clássicos. Muito exercício de ler e adaptar para o teatro, transformar até mesmo textos científicos e filosóficos. Textos de engenharia, por exemplo, textos de Leonardo Da Vinci. Os diálogos entre Da Vinci e Maquiavel. Ou um romance de Calvino, Guimarães Rosa. É um exercício de eu chegar e enxergar uma possibilidade de teatro nesses textos. Nunca vou utilizar para mim a palavra “escritor”, até por uma questão de quantidade. O que escrevo é muito direcionado para o teatro.

    Daniela Aragão: Quais os dramaturgos que te tocam?

    Marcos Marinho: Tenho fases de apreços. De cabeça, fico pensando em Ariano Suassuna, Pina Baush. Para mim Pina é pura dramaturgia. E sempre a força de Shakeaspeare, muitos dramaturgos latino-americanos contemporâneos...

    Daniela Aragão: Você passou pelo Boal? Zé Celso?

    Marcos Marinho: Fiz apenas uma oficina com o Boal. Uma da Denise Stoklos, fiz Asdrúbal, Henrique Simões, que não é mundialmente conhecido, mas que para mim é super importante. Fiz curso de Comédia Dell’ Arte na Itália, fiz oficina do grupo Moitará, que no Brasil é um dos mais importantes na Comédia Dell’ Arte.

    Daniela Aragão: Eu te conheci por meio de sua adaptação da peça de Gil Vicente “A barca do inferno”.

    Marcos Marinho: O resultado dessa peça, esteticamente, foi favorável, tivemos um elenco bom. Várias coisas que se juntaram e que deram certo. Ficamos mais de quatro anos em cartaz.

    Daniela Aragão: Vocês rodaram com a peça?

    Marcos Marinho: Não viajamos muito por questões obvias relacionadas à produção e a cidade em que estamos inseridos. Juiz de Fora não tem política de exportação dos seus artistas. Nem política pública e nem privada. A Lei Murilo Mendes é maravilhosa, sem ela muita coisa já teria afundado na cidade. Se é para apontar uma possível falha? Nenhuma Lei de incentivo tem que abarcar tudo.

    Daniela Aragão: Com certeza.

    Marcos Marinho: Se é que existe uma falha, está na ausência de uma política de exportação da arte local. Isso não acontece com outras cidades, que se orgulham de mandar seus artistas para outros festivais, outras cidades.

    Daniela Aragão: No entanto você na luta consegue apoio para circular com seus trabalhos.

    Marcos Marinho: Vou a cidades da América Latina, pois os que me convidam pagam. E o que eles não pagam, eu completo do meu próprio bolso. Mas não há uma política que diga, ah o Marcos vai se apresentar num festival do Chile. Qual é o médio ou grande empresário em Juiz de Fora que sabe isso? Digo isso sem ser uma reclamação, muito menos uma suposição. Falo após ter tentado sentar à mesa e dialogar com muitos. Trabalhei onze anos no Sesi-Minas, e mesmo lá o apoio de empresas era quase inexistente.

    Daniela Aragão: Como se deu seu interesse pela Comédia Dell’ Arte?

    Marcos Marinho: Começou com “A barca do inferno”. Ela obviamente é um pouco pós Comédia Dell’ Arte, pois já era escrita e a Comédia Dell’ Arte não era escrita. Uma das características da Comédia Dell’ Arte era o diretor/produtor contar com artistas profissionais. A palavra arte aqui entra como Artes e Ofícios. O cara se preparava com mestres e escolas, da mesma forma que o costureiro ou sapateiro da Renascença. Nós artistas não éramos considerados pessoas acima do bem e do mal, não éramos privilegiados pelas musas. Éramos pessoas, que estudávamos para executar o ofício que a gente tinha descoberto ou tinha escolhido.

    Daniela Aragão: Recordo-me como na “Barca do inferno” você fez uma rica associação entre passado e presente.

    Marcos Marinho:O texto de Gil Vicente foi escrito por volta de 1500, encomendado para o Castelo. Daí passei a buscar outras coisas, para sentir o universo do Gil Vicente e dei de cara com a comédia Dell’ Arte. Embora um pouco antes, eu já tivesse feito oficina com o Amir Haddad, que é totalmente baseado na Comedia Dell’ Arte. Ele mistura outras linguagens, mas a Comedia Dell’ Arte é a base do seu trabalho. Máscara, dança, canto, instrumento musical, poesia, intervenção pública, rua, corpo. E voz sem microfone, ou seja, corpo sonoro.

    Daniela Aragão: Você aprendeu a fazer máscara?

    Marcos Marinho: Comecei a fazer máscara e a pesquisar sobre o universo da máscara. Daí, começo a voltar para a Grécia Antiga, o teatro pré Sófocles e pré-concursos de dramaturgia, os festivais cerimoniais, mascarados, ritualísticos, catárticos, religiosos (da religião panteísta grega). Daí você segue mais um pouco, para a África, o Egito e vê também essa coisa bonita do ritual e das máscaras.

    Daniela Aragão: O que é o teatro para a sua vida?

    Marcos Marinho: Costumo dizer que o Teatro pra mim é a Cura, a possibilidade de vislumbrar um mundo mais humano! É também a arte do encontro com o outro, o diferente, o desconhecido!

    Daniela Aragão é Doutora em Literatura Brasileira pela Puc-Rio e cantora. Desenvolve pesquisas sobre cantores e compositores da música popular brasileira, com artigos publicados em jornais como Suplemento Minas de Belo Horizonte e AcheiUSA. Gravou, em 2005, o CD Daniela Aragão face A Sueli Costa face A Cacaso.

    Os autores dos artigos assumem inteira responsabilidade pelo conteúdo dos textos de sua autoria. A opinião dos autores não necessariamente expressa a linha editorial e a visão do Portal ACESSA.com

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