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    Todo o tempo para Tom

    Nome do Colunista Daniela Aragão 25/11/2017

    Em crônica anterior, onde expressei meu saudosismo ao falar sobre a extinta fita cassete, acabei impulsionando manifestações entusiasmadas de pessoas, que comentaram também sobre seus prazeres musicais, desfrutados no tempo das fitas. Peço licença, para transcrever um pedaço da mensagem do meu querido amigo Alberto Moby, um de meus correspondentes musicais mais assíduos: “Gostaria de ser enterrado com fones de ouvido. Talvez também com um gravadorzinho daqueles cassetes que fizeram tanto sucesso há não muito tempo, tocando uma fitinha dessas. ‘Os olhos tristes da fita/Rodando no gravador’, diria o Chico César. Ainda tenho muitas também. E acho que a sua “Am I blue” seria uma excelente trilha”. Fiquei lisonjeada por saber, que minha fita blue, ainda ressoa em alguns ouvidos.

    Faço coro com Wisnik e Jorge Mautner: “O tempo dá voltas e curvas/o tempo tem revoltas absurdas/ele é e não é ao mesmo tempo”. Junto com Paulinho da Viola também vou indo correndo pegar meu lugar no futuro. E no caminho, Tom Jobim está cada vez mais presente como exemplo de grandiosidade humana e musical.

    Recomendo a todos assistir ao documentário “A casa do Tom”, que reúne uma série de imagens do maestro coletadas por Ana Lontra, sua segunda esposa. Narrado pela própria Ana, o DVD destaca os bastidores da vida do Tom “homem comum”, cercado pelos filhos, amigos, pássaros, plantas e o inseparável piano.

    A narrativa sóbria e simultaneamente intimista de Ana Lontra permite que a emoção toque os sentidos do espectador. Ultrapassando o universo do compositor, Tom revela sua intensa cumplicidade com a poesia. Poesia, que se extrai da substância da natureza do seu sítio em Poço Fundo, do quintal da casa, que estende sua vista para o Jardim Botânico, das leituras de Drummond e Guimarães Rosa, da música de Dorival Caymmi, Villa-Lobos e Radamés Gnattali, da praia de Ipanema, da mulher amada: “Meu amigo Radamés é a coisa melhor que tem/É o dia de sol na floresta/É a graça de querer bem/Radamés é água alta/é fonte que nunca seca/É cachoeira de amor”.

    Emociona ver Tom lendo seu longo poema no alto do chapadão, inspirado no processo de construção de sua casa no Jardim Botânico, cercada de natureza por todos os lados. É pau, é pedra, mas o começo de outros caminhos: “Vou fazer a minha casa/No alto de uma quimera/ Vou criar um mundo novo/Inventar nova megera//Que já chega de besteira/Já basta de decoreba/Que a cultura verdadeira/Tá na asa do jereba”.

    Na maturidade dos sessenta, ele revive com alegria a experiência da paternidade. É bela a imagem de Tom, já marcado pelas curvas do tempo, brincando no jardim com a pequenina Maria Luiza, e ensinando que a maior dádiva do ser é a liberdade, ao soltar um passarinho junto com o filho João.

    O documentário mostra a sabedoria de um Antônio Carlos brasileiro que amava, sobretudo, a vida simples, compartilhada com a família, os amigos e alguns vizinhos eventuais. Sua inteligência peculiar, se revela no olhar sensível aos detalhes e no senso de humor constante. Muito divertida a passagem em que Tom conta, sobre o dia em que lhe ofereceram uma favela para comprar: “Outro dia eu estava conversando com o Carmello, na banca de jornal ali do Leblon, e ele disse: Dr. Jobim, porque você não compra uma favela? Caí na risada, nunca ouvi ninguém falar que se comprasse uma favela. Naturalmente, eu compraria uma favela pequena, porque não tenho recurso para comprar uma favela como a Rocinha”.

    Fumando charuto, seu fiel companheiro nos últimos anos de vida, em que estava impedido de fumar cigarro, Mr. Jobim é um elegante lorde desconhecido nas ruas de Nova York: “As pessoas me cobravam o endereço, você mora em Nova York? Eu acho que o endereço da pessoa não é importante, sobretudo depois de uma certa idade. “Na casa do meu pai há muitas moradas’. O Drummond tem um verso maravilhoso que diz o seguinte: ‘os senhores me desculpem, mas devido ao adiantado da hora me sinto anterior a fronteiras’. Porque essas fronteiras são fictícias, o sujeito coloca uma cerca e o urubu passa por cima... Para mim Nova York tem sido uma espécie de repouso, quer dizer, onde eu posso trabalhar, descansar, no sentido de fazer o dever. Pois o Rio é uma cidade muito linda e muito dissipante”.

    Quebrando a imagem do gênio intocado, Tom gostava de mostrar para os membros da família as canções que criava. Ana Lontra descreve a história da formação da Banda Nova, que o acompanhou pelos palcos do Brasil e do exterior. Num rico nepotismo musical, Tom juntou as mulheres e os homens das famílias Jobim e Caymmi e integrou por afinidade emotiva/qualitativa o violoncelista Jacques Morelenbaum. Nas palavras de Ana: “Caymmi era uma espécie de entidade na vida do Tom. Com uma sabedoria que ele sempre respeitou muito. Existe uma irmandade entre o Tom e o Caymmi, entre os filhos do Tom e os filhos de Caymmi”.

    Com pouco mais de uma hora de duração, o documentário dá conta de apresentar com uma linguagem emocionante e destituída de apelos a grandiosidade do homem/artista Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o Tom.


    Daniela Aragão é Doutora em Literatura Brasileira pela Puc-Rio e cantora. Desenvolve pesquisas sobre cantores e compositores da música popular brasileira, com artigos publicados em jornais como Suplemento Minas de Belo Horizonte e AcheiUSA. Gravou, em 2005, o CD Daniela Aragão face A Sueli Costa face A Cacaso.

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