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    Entrevista com o músico Robertinho Silva

    Daniela Aragão Daniela Aragão 7/03/2019

    Daniela Aragão: Como começou a descoberta do som em sua vida?

    Robertinho Silva: Sou filho de nordestino, Pernambucano. Fui criado em comunidade nordestina no bairro do Realengo, Rio de Janeiro. Os nordestinos costumavam falar: “Criança, tá na hora da bóia”.  O meu pai era mestre de construção civil e sabia tudo de obra. Os móveis foram criados por ele, meus irmãos Jorge e José descobriram a sonoridade da madeira e começaram a batucar na mesa. Eu com seis anos de idade colocava milho dentro de uma lata de fermento e ia sacudindo. Foi a minha descoberta do ritmo.

    Daniela Aragão: Há um fato importante que gostaria de destacar, trata-se do momento em que Wayne Shorter se encantou pela obra do Milton Nascimento e o convidou para tocar nos Estados Unidos. Milton tinha o direito de escolher dois músicos e elegeu você e o Wagner Tiso.

    Robertinho Silva: Na época o Whether Report veio ao Brasil e o Wayne Shorter tinha curiosidade de conhecer o Milton Nascimento pessoalmente. A saudosa Ana Maria, portuguesa, mulher dele, foi ler o jornal da recepção do hotel. Falou para o Wayne que o Milton já tinha se apresentado no Teatro Fonte da Saudade, na Lagoa Rodrigo de Freitas. Então a banda Whether Report foi nos assistir. Daí pensei, humm vou tocar para o meu ídolo. Quando acabou o espetáculo, o Wayne se aproximou de mim, pegou nos meus braços e falou: “- Cara, vocês me emocionaram!”.  Quinze dias depois recebemos a notícia de que o Wayne estava nos convidando para gravar o disco chamado Native Dancer. Fomos levados para Los Angeles, imagina eu junto ao meu ídolo antigo. Eu disse para o Wayne que eu havia entrado na onda do Art Blakey, meu grande ídolo e referência fundamental. Blakey fazia muitas sonoridades nos tambores e os outros bateristas não.

    Daniela Aragão: Você lançou seu livro “Se a minha bateria falasse”. Poderia contar um pouco sobre ?

    Robertinho Silva: Meu cunhado chamado Paulo Guedes escreveu o livro “A força do tambor”. Certa vez tomávamos uma cerveja num botequim no Rio e soltei a seguinte frase, Paulo, já pensou se a minha bateria falasse? Ele de imediato disse : “- Isso é título de um livro”.  Costumo fazer brincadeiras comigo, às vezes olho pra minha imagem no espelho e digo: você do espelho é o Robertinho Silva e eu sou o Roberto. O Luiz Carlos Sá, filho do Sá, da dupla Sá e Guarabira é que escreveu minha biografia. A história se deu quando eu trabalhava num projeto social chamado Batucada Brasileira, que fez muito sucesso entre os jornalistas. Nesse momento aconteceu o primeiro contato entre mim e o Luiz Carlos Sá. Mais tarde, ele novamente me procurou me convidando para ser capa da revista Backstage (risadas).  Aí aproveitei para inverter os papéis e comecei a entrevistá-lo também, perguntei o que o tinha levado a escolher a profissão de jornalista... Só então ele me revelou que era filho do Sá e seu pai foi o autor da primeira matéria que saiu sobre o Som Imaginário. Aconselhei-o a procurar sobre seu próprio pai. 

    Daniela Aragão: Você hoje está aqui para se apresentar ao lado dos músicos mineiros Márcio Hallack (piano) e Berval Moraes (contrabaixo). Todo o seu percurso é de diálogo com a mineiridade, Milton Nascimento, Wagner Tiso e outros...

    Robertinho Silva: Essa é uma das razões que justificam minha ansiedade para que meu livro “Coração mineiro”, escrito por Maria Lucia Daflon,  fique pronto até o meio do ano.  Já estamos no processo final. Esse livro conta toda a minha história desde quando entrei em Minas Gerais. A primeira vez que fui tocar na boate do Cauby Peixoto, o Juarez Santanna falou: “- Roberto a gente tem uma viagem de uma semana na Zona da Mata de Minas Gerais”. A primeira cidade que fui era Cataguases.

    Daniela Aragão: Terra natal do saudoso Affonsinho Vieira, que tocou no meu disco.

    Robertinho Silva: Saudoso Affonsinho. A única bateria que consegui nessa trajetória foi a bateria do Affonsinho, sendo que anos depois eu o reconheci no Rio de Janeiro . A Elza Soares estava querendo levar para a Itália um grande guitarrista e baterista. O Willian de Paula me falou: “- Seu Beto, vieram me convidar e eu não quero ir”. Eu em 1964 recentemente casado, com filho novo, também não quis ir. Não sei quem viu o Affonso tocar no Rio e o indicaram. Ele não tinha vivência nenhuma no Rio e deu o pulo para a Itália.

    Daniela Aragão: Já tive a satisfação de ver você, João Donato e Luiz Alves. Poderia falar sobre esse trabalho do super trio?

    Robertinho Silva: Lá se vai trinta e cinco anos, por aí. O Donato é quieto demais. Eu antes de ser músico profissional, já era fã de João Donato. Ele conta que na casa dele todo mundo ia lá pra fazer Jam, pois ele possuía um piano de cauda, lance que dificilmente alguém tem em casa. Certa vez fui até a casa do Paulo Sérgio Vale, que era também na época piloto da Cruzeiro do Sul. De repente vi na casa dele um porta retrato, então perguntei quem era aquele cara da foto. Paulo falou que era o João Donato. Donato morou quinze anos nos Estados Unidos e gravou aquele disco Quem é Quem. O tempo passou e Donato voltou nos anos setenta e eu era louco para conhecê-lo. Uma amiga me telefonou dizendo que estava namorado o Donato e que ele tinha manifestado o desejo de conhecer o Clube do Samba, com o João Nogueira. Falei que eu morava lá perto, assim ela e Donato foram até a minha casa. Fui apresentado ao Donato pela minha amiga e namorada dele.

    Daniela Aragão: O Donato certamente te deu muita abertura na exploração do swing.

    Robertinho Silva: Donato me deu uma lição. Montou na boate People uma banda com quatro sopros. Deu o intervalo.  Donato disse: “- Vocês tocam muito, mas tenho uma banda que não me deixa tocar”. Ele chegou até mim e falou: “- Roberto, você tem um caneco? Daí saquei tudo na hora. “- Roberto, meu negócio é ritmo”.  Desmontei a bateria  e cheguei com um prato só. Um tamborzinho aqui, outro ali, passei a tocar pro Donato, coisa que não é fácil. Baterista rudimentar com o Donato fica assustado. Ele detesta prato, algumas vezes eu fico o Rebeldinho Silva (gargalhadas). Se encher meu saco leva uma pratada.

    Daniela Aragão: Você poderia falar sobre a formação do Som Imaginário?

    Robertinho Silva: Eu estava na Atlântica, lugar em que frequentavam Ivan Lins, Joyce, Zé Rodrix, uma galera dessa aí. Todos nós totalmente durango kid (gargalhadas). Chegou um cidadão, falei aquele ali não é o Wagner Tiso? O Luiz Alves levantou da mesa e Wagner falou: “- Pois é, eu estou montando uma banda pra acompanhar o Milton Nascimento, estou cansado de ver voz e violão, um cantinho um violão.” Perguntou aonde eu morava, falei que eu morava na zona leste. Daí ele me perguntou se eu não queria morar na zona sul. Falei que eu não tinha dinheiro nem pra pagar passagem de ônibus. Ele me ofereceu então o pagamento de três meses de aluguel. A coisa foi se dando assim. O Luiz Alves a princípio não queria tocar, disse que desejava voltar a fazer baile. Falou que não íamos conseguir ganhar dinheiro. Falei, Luiz esse cara se chama Milton Nascimento. O Wagner aceitou de cara. Segunda-feira começaríamos nosso ensaio no Teatro Opinião.

    Inês fez nosso figurino, ficamos fantasiados de hippies, arrepiaram nosso cabelo, calça pintada. Sexta Feira da Paixão, tinha a ver com coisa religiosa, não se comia carne. Quem faria um trabalho desse numa data como essa ? Olha que bombou o Rio de Janeiro, todo mundo queria nos ouvir. Gravamos três discos pela gravadora Odeon, até pouco tempo estava em evidência o Som Imaginário.

    Daniela Aragão: Você é um músico inventivo dentro do contexto do Brasil e do Mundo, sendo um dos mais reconhecidos e consagrados ritmistas. Gostaria que falasse sobre o seu trabalho individual, as oficinas que você ministra.

    Robertinho Silva: Em 98 eu resolvi dar aula particular, mas não sei quem começou a espalhar a notícia de que eu estava dando aula de bateria. Quando apareceu um dos primeiros alunos fiquei assustado. A princípio foi um vizinho ator, que me viu entrando em minha casa e falou: - Você é o Robertinho? Ele me contou que seu filho já tocava bateria e perguntou se eu poderia dar aulas pra ele. Isso vazou e começaram a bater campainha direto lá em casa. Um dia chegou o Baroni do “Paralamas do Sucesso”, com a perna engessada. Falei : - Caramba você é o João Baroni do Paralamas. Ele me revelou que queria aprender a segurar a baqueta, pois já estava envergonhado de segurar errado. Eu disse para o Baroni que ele tocava bem, mas acabei tendo que lhe ensinar a segurar a baqueta,  e o modo de posicionar os dedos.

    Daniela Aragão: E você ao longo de seu percurso teve mestre inspiradores?

    Robertinho Silva: O tempo foi passando, resolvi voltar a estudar bateria, impulsionado por uma frase de um baterista americano chamado Tony Willians. Conheci o grandioso Tony Willians nos Estados Unidos, quando eu estava na companhia da Flora Purim e Ayrto Moreira.  Numa outra ocasião Tony foi convocado para dar um worshop em São Paulo. Esse cara era muito famoso, o ídolo dos bateristas da minha geração. Chegou a  tocar com Miles Davis, quando tinha apenas dezesseis anos. Assombrou o mundo com sua forma única de tocar bateria, totalmente diferente. Os anos passaram, o Tony era um cara muito fechado. Contam que no tal workshop um garotinho muito emocionado anunciou “- com vocês Tony Willians”. Ele sentou na bateria, não deu boa noite, boa tarde, nada e ficou quieto. O garoto perguntou para o Tony Willian: “ -você estuda?” Ele falou : “não, eu pratico o que eu estudei”. Eu falei: Opa, mais uma lição. Daí um garoto mais inteligente: “ - Quando você estudava eram quantos rendimentos por dia?’’ Rudimento é exercício técnico. Ele falou um, por isso que eu tenho a técnica perfeita.

    Daniela Aragão: Foco, disciplina e estudo.

    Robertinho Silva: Tive um professor que me falou isso, mas entrou num ouvido e saiu pelo outro. Ele falou : “- essa pauta aqui você pode fazer uma página Robertinho”. A partir dessa fala comecei a estudar do A, E ,I , O ,U. Retomando então Tony Willians, construí um quarto em  minha casa para voltar a estudar tecnicamente. A partir dali criei vários ritmos, por exemplo a levada do Cravo e canela,  do Milton ( cantarola). Criei uma levada totalmente diferente do que eu já tinha ouvido na vida. Fui me tornando um cara criativo, comecei a criar isso, aquilo. Pelo fato de eu estar com a bateria montada todos os dias, as coisas iam fluindo naturalmente. As criações foram aparecendo, não que isso se desse porque eu pensava de rompante,  agora vou criar uma levada, um ritmo tal. O convívio diário com o instrumento foi cada vez mais ampliando minhas percepções. A música Maria três filhos resulta desse momento de muito furor criativo.

    Daniela Aragão: Como se deu o convite para você dar aulas na Uerj?

    Robertinho Silva: Durante os anos noventa eu recebia muitos alunos em minha casa para estudar. Em 98 eu aguardava um aluno, quando o telefone tocou. Do outro lado da linha disseram: “Aí que mora o senhor Robertinho Silva? Sou da Uerj e gostaria de comunicar ao senhor que estamos te convidando para ser professor da instituição”. Expliquei que eu não era professor, que nasci para subir num palco e tocar.  Perguntei o motivo de estarem me chamando. Disseram que eu seria um professor muito importante para a Uerj, pois ninguém sabia a minha maneira de tocar percussão. Pedi então para me darem quinze dias para eu decidir.

    Daniela Aragão: E lá se vai o expert Robertinho - Rebeldinho da Silva se preparar para mais uma empreitada....

    Robertinho Silva: Claro (risos). Fui estudar didática. Afinal muita gente toca, mas não sabe ensinar. Fui me preparando para ensinar a tocar agogô, pandeiro. Em quinze dias eu retornei a ligação para a Uerj e comuniquei que eu estava pronto. Fui meio assustado, quando cheguei tinham por volta de umas trinta pessoas me aguardando. Caramba, se eu não tivesse estudado estaria ferrado. Aí começou a história todinha, coloquei o pessoal em círculo e fui perguntando a cada um individualmente, sobre qual instrumento tinha afinidade. Um falou que queria tocar caixa, outro pandeiro, outro tamborim, e assim sucessivamente.

    A partir daí, nos idos de 99 fui convidado para fazer um projeto social chamado Batucadas Brasileiras. Neste trabalho fiquei de 2006 a 2009. Abriu muito minha cabeça pra percussão. Tive que mergulhar novamente no estudo e assim fui aprendendo, dei o título “A gente toca, a gente canta, a gente dança, batucadas brasileiras”. O carioca só quer tocar samba, o nordestino só quer saber de maracatu, o de outro estado quer fazer o som da terra dele. Então criei essa amplitude de frentes e vertentes rítmicas. Esse projeto foi um sucesso, tirei muito menino da área de risco, tanto que hoje há muitos profissionais que vieram desse trabalho e que estão no nível de gravar vinheta pra televisão.

    Sendo assim ampliei mais meu olhar para a compreensão da diversidade rítmica do Brasil. Comecei a estudar, estudar, estudar, incessantemente. Gosto de usar a palavra estudar em lugar da concepção pesquisar. Fui ao longo do tempo prestando cada vez mais atenção nos detalhes da percussão do nordeste, da percussão do sul, a percussão de Minas Gerais, a congada mineira.

    Daniela Aragão: Por onde anda a bateria ?

    Robertinho Silva: A bateria está em segundo plano na minha vida, pois a bateria é uma coisa compacta. A percussão não, ela colore a música. O que faço é trabalhar com a experiência dessas colorações. Se me convidam para um trabalho, prefiro fazer a percussão. Tenho feito muito bem e isso tem me deixado muito feliz.

    Daniela Aragão: O que é a música para a sua vida?

    Robertinho Silva: O meu alimento desde pequeno. Desde a minha descoberta do ritmo. Costumo falar que é a minha religião, mas meu alimento é a melhor expressão. O que me mantém de pé e vivo é a música.

    Daniela Aragão é Doutora em Literatura Brasileira pela Puc-Rio e cantora. Desenvolve pesquisas sobre cantores e compositores da música popular brasileira, com artigos publicados em jornais como Suplemento Minas de Belo Horizonte e AcheiUSA. Gravou, em 2005, o CD Daniela Aragão face A Sueli Costa face A Cacaso.

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