Eucalipto e camisola com estrelas e Billie Holliday


Daniela Aragão 21/08/2020

Há muitos e muitos anos meu irmão me contou que a mãe de um colega sempre se preparava no interior de sua casa para assistir a novela. Passava batom, pó compacto, penteava os cabelos, colocava anéis e pulseiras. Não sei se o figurino diário (seria vestido? saia ou blusa rendada?) era mais de um, pois segundo o filho, a senhora acompanhava todas as sessões. Dei gargalhadas ao ouvir a história na época. A meninice era a (minha) mãe naquela gargalhada solta, inocente e até perversa. Agora o ditado "dessa água não beberei" me cala em seco. Na adolescência costumava prolongar todos os sábados e domingos de camisola . O casulo da menina a procurar estrelas com a roupa da noite a prolongar desmedidamente manhãs e tardes de sonhos. Papai com seus ditados que permanecem ecoando em meus ouvidos " - gente inteligente dorme pouco", "- quem não trabalha não come", " O que se leva da vida é a vida que se leva"...

Fui crescendo, crescendo e o dia hoje não começa se não troco as vestes da noite, bem ou mal dormida. Quem não tem cão caça com gato. Descobri que gotinhas de eucalipto sobre o balde de água no chuveiro me oferecem uma confortável sauna a vapor. Descobri que a falta feroz do azul da piscina vai atenuando, quando jogo gotas de azul-anilina e vou esfregando e limpando o chão da cozinha, do quarto, da sala sagrada com meus livros- discos-objetos transcendentes. Pisar na terra não é possível e então jogo água sobre meus dois vazinhos na varanda.

Ontem, na fila do supermercado, topo com uma colega, ex-companheira de trabalho no ofício de crooner. Lanço a pergunta: -E a orquestra de Jazz Alzira, continua lá cantando?

-Acabou.

Hoje só Billie Holliday pra afagar meu coração suburbano.

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