Guardados

por Daniela Aragão - 08/01/2021

Inverter papéis pode ser uma atitude prazerosa e trazer muita surpresa e enriquecimento. Nos tempos de estudante de doutorado na Puc-Rio, costumava encontrar com a tão querida e saudosa Losinha (Heloísa Tapajós) nas aulas do Júlio Diniz. Nosso diálogo inaugural se deu no elevador, timidamente lhe agradeci por ter colocado meu nome no dicionário Cravo Albim. Com aquele seu inesquecível e doce sorriso, ela perguntou meu nome completo. Dali iniciamos uma amizade que foi se fortalecendo a cada cafezinho semanal no intervalo das aulas. 

Passei o semestre inteiro cercando a Losinha para que me permitisse entrevistá-la. Os meses iam transcorrendo e ela só sorria, papeava sobre os textos debatidos na aula, ou dava uma escapulida até a livraria bem próxima do café, com seu corpo magro e delicado a degustar uma espécie de brownie de chocolate.  Apesar da diferença de idade que aparentemente nos distanciava, as afinidades de gostos e percepções musicais consistiam num estímulo cada vez maior para que um dia desenvolvêssemos algo juntas. Losinha se foi literalmente cedo, acho que de saudade do amor, mas deixou seu longo depoimento para mim. Arrisco afirmar que foi a única vez que aquela mulher de uma inestimável sensibilidade se transmutou de entrevistadora a entrevistada.

Nesses prolongados meses de quase absoluta reclusão vim então primeiramente ordenando antigas entrevistas, criando no computador pastas que fui subdividindo entre categorias: compositores, compositoras, intérpretes, poetas, letristas, produtores. À medida que o tempo foi passando em seu inenarrável transcorrer de horas, dias, semanas, meses, mesmices, comecei a reabrir álbuns, vasculhar esquecidos guardados.

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A tão bela composição “Guardados”, de Joyce Moreno e Ana Terra aterrissou com a precisão suave e certeira do voo de um passarinho a trazer um pouco de conforto para minha ânima inquieta. A cada retomada de audição, os versos chegavam mais e mais perto, revestindo minha pequena sala de um lirismo acolhedor. A canção me trouxe mosaicos de cores difusas que iam tecendo pedaços de sentidos e imagens na vastidão da memória,  muito além da materialidade das fotos que fui espalhando pelo tapete. Procurando respeitar a intensidade do movimento-momento interior,  fui cantarolando junto e baixinho para não importunar a luminosidade do canto de Joyce e a força das palavras de Ana Terra.    Minha forma especular ia tomando contornos: “Nos meus guardados/Guardo com todo cuidado/Os retratos, os recortes/E as lembranças da infância/Convivendo lado a lado/Os vestidos sem decote/Do primeiro casamento/Da primeira comunhão/As coisas sem importância/Já sem cor e sem pecado/Um pedaço de cabelo/Um sorriso desbotado/Uma chave que não abre/Quadros, cartas sem resposta/Um anel que já não  cabe/Um coração amassado....”

Os álbuns de retratos de papel são substituídos pela comunhão da partilha ampla e ágil de imagens do ontem e do agora no universo digital. Poucos dias depois de minhas repetitivas escutas de “Guardados”, deparei com uma foto que Joyce reproduzira de seus velhos guardados. Em seu Instagram apareceu uma linda menina em longínquo registro branco e preto, no dia de sua primeira comunhão. A MPB tem resposta pra tudo, diz a proprietária da foto.

E por falar em resgates, memórias, Joyce acaba de lançar “Aquelas coisas todas”, livro de crônicas em duas partes preciosas. A primeira traz de volta o remix de “Fotografei você na minha Rolleyflex”, com uma única edição lançada em 1997, seguida por “Tudo é uma canção”, reunião de seus escritos ao longo dos anos seguintes.

O projeto gráfico de considerável requinte de "Tudo é uma canção" substitui o vermelho com pequenas fotos quadradas em sépia e branco e preto da capa  de "Fotografei você na minha Roleyflex", pela sinuosidade das ondas em clima meio fashion no quarteto  de cores: verde, laranja, azul e branco. A cronista dedica esta segunda versão ao seu grande amor e parceiro de música e vida Tutty Moreno e a Dona Zemir, sua mãe, a bela mulher que surge na foto de abertura aconchegando nos braços sua menina, ambas confortavelmente sentadas sobre a areia da praia do Posto 6.

O álbum de fotografias desvelado para o leitor elenca preciosidades, a menininha de cabelinho “indiazinha Diacuí” (aplicada aluna aos dez anos de idade), a jovem ao lado de Chico Buarque na Passeata dos cem mil, très chic com Henri Salvador, agarradinha com o hedonista mago do piano Michel Petrucciani, de braços dados com Bituca (gravando sua luxuosa parceria com Gerry Mulligan "Tema pra Jobim") . Bendito o fruto entre os criadores Maurício Tapajós, Paulinho da Viola, João Bosco e Sérgio Ricardo. Guardados que Joyce guardou certamente com muito cuidado.

Como se não bastasse ser a compositora, violonista e cantora de tão alto quilate, Joyce Moreno em “Aquelas coisas todas” mostra o quanto sua vertente reflexiva, de pensadora do universo da criação e execução musical, é componente imprescindível para o entendimento de sua totalidade única como artista.

"Pequenos Notáveis", programa  por ela idealizado e exibido no Canal Multi-Rio, contou com sua atuação e o desempenho do talentoso compositor e cantor Alfredo Del-Penho. Fazendo uso de uma linguagem didática, lúdica e nada enfadonha, os episódios primam pela qualidade estética. Os cenários  revestem de encantamento a narrativa de vida de compositores como Pixinguinha, Dorival Caymmi, Braguinha, Dona Ivone Lara, Chiquinha Gonzaga, João do Vale. Um trabalho educativo da Joyce "pensadora da canção", a artista toca, canta e conversa com Alfredo Del-Penho. Um programa importante  que mostrou aos jovens na faixa de nove a quatorze anos compositores que há muito sumiram do rádio e do imaginário popular.

Vale destacar mais uma atuação da Joyce "pensadora da canção". Nos programas "Cantos do Rio" (TVE) me deliciei com os passeios que ela fazia pelos recônditos mais interessantes do Rio de Janeiro. Sempre acompanhada  por um ilustre convidado,  o exercício da flanerie levava  para o espectador curiosidades sobre os bairros, motes de canções. Um clima leve e descontraído com a marca do frescor tão único da carioquice da artista.  Recordo-me de minhas ancestrais fitas VHS gravadas com o registro da cantora  pelos cantos da cidade, acompanhada pelos mestres Hermínio Bello de Carvalho e Elton Medeiros.
A compositora e cantora escreve muito bem e deixa evidente que o ofício de jornalista ainda lhe faz companhia, na maneira como transita com intimidade pelos personagens e acontecimentos, com riqueza de detalhes e toques de humor de lastro machadiano em "Aquelas coisas todas". Dona Zemir lhe presenteou com as obras completas de Machado de Assis na adolescência e fomentou na filha um apreço precioso pelo mundo dos livros.

Joyce abre leques para uma variedade de reflexões que abrangem comportamento, sexualidade, memória, feminismo, afetos, relações familiares e música, muita música. Sobretudo  suas crônicas com ênfase no tema "música" me proporcionaram bons mergulhos de aprendizagem, regados ora por instantes de comoção, ora de incontroláveis gargalhadas. Com seus apurados e afinados sentidos, ela não deixa de lado seu aguçado senso de humor, este a meu ver a maior destreza de sua escritura.
Canções pertencentes a ampla discografia da artista brotavam  em minha rádio cabeça no ritmo da leitura. "Trouxeste a chave?", faço coro com Drummond ao ir reconhecendo convites para imersões no universo da palavra e do som. "Vontade de rever amigos/Os gestos de sempre a risada em comum/Contando as histórias e os casos antigos/As músicas novas/Sem moda, sem tempo nenhum". Saudades de Gonzaguinha, Zé Rodrix, Sivuca, Vinícius de Morais  e do gênio Johnny Alf. Belíssimo e emocionante texto, cuja autora, dotada de sensibilidade e grande sabedoria, coloca Johnny na  dignidade de sua imensidão, infelizmente não reconhecida em vida.  Beleza bonita de ler sua carta para o amigo e parceiro Fernando Brant, que certamente a recebeu num azul celeste sem manchas, muito além do Planalto Central. O irmão do Henfil e do Chico Mário, Betinho, se torna matéria tocante de memória, nos idos do lançamento de "Fotografei você na minha Rolleyflex" estava presente por aqui entre os contemplados na dedicatória.

Trata-se de uma artista brasileira possuidora de uma vasta e rica vivência internacional.  Ao longo de décadas exerce sua profissão viajante, como bem ilustra a canção de Milton Nascimento e Fernando Brant "Vendedor de sonhos/ tenho a profissão viajante/ de caixeiro que traz na bagagem/ repertório de vida e canções”. Mulher cosmopolita que carrega pelo mundo sua bagagem-tesouro de canções. O Brazil não conhece o Brasil, mas Joyce Moreno insiste no desempenho de seu papel de “embaixadora das belezas sonoras do Brasil”.

Em "Tudo é uma canção" a criadora revisita o passado, porém despida de nostalgia, visto que é mulher antenada  e altamente produtiva na vida presente. No disco em que comemorou seus 50 anos de carreira fez uso de seu humor ao se chamar de "Velha maluca". Essa "velha maluca" é uma sábia que já percorreu muitos lugares, cidades, países, palcos,  pessoas, criações e canções.  Joyce Moreno já viu coisas demais.  Escrever é mais uma das artes que ela domina com maestria. 

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