Leila Pinheiro Translúcida

por Daniela Aragão - 24/11/2021

Cantor costuma sempre carregar a tradicional pasta preta com plásticos transparentes no interior. Em geral entupida de letras de música (com cifras) que o socorrem e inspiram no decorrer de sua apresentação. Nas vezes em que tive a satisfação de ser convidada para dar canja, jamais deixei de lado minha curiosidade, ia passando as páginas da pasta do crooner na tentativa de encontrar ali alguma canção que caísse como uma luva no momento de soltar a voz.

Invariavelmente a tão bela composição “Verde” (Eduardo Gudin e José Carlos Costa Netto) desponta entre o repertório dos músicos da noite. Confesso que embora saiba todos os versos de cor e tenha sua melodia também fixada nos ouvidos, nunca tive coragem para arriscar cantá-la. “Verde” continua em meu imaginário como unicamente pertencente à sua intérprete Leila Pinheiro. Com sensação de encantamento, eu, menina de dez anos diante da tv, registrei aquela voz e presença de luz intensa no Festival da Rede Globo de 1985. A partir do impacto fui ao longo dos anos acompanhando o trabalho da cantora, que me abriu caminhos para muitas descobertas.

“Sem jeito a vida passa num voo uma guinada/melhor que seja boa/melhor que seja rara/vai nascer/vai cantar/vai te ver chegar”. Leila Pinheiro celebra quarenta anos de carreira, uma trajetória que se pode dizer impecável em seu compromisso com a verdade. Verdade evidente na expressividade de seu canto, escolha de repertório, parceiros de trabalho, propostas estéticas e sonoras. Tentar fazer um percurso por sua estrada implica peregrinar por muitas Leilas, no entanto todas elas oriundas daquela que surgiu magistral no disco de 1983.

Leila Pinheiro gravou seu primeiro álbum independente em 1983, no frescor de seus 22 para 23 anos. Filha do legado precioso da música popular brasileira, encontrava-se já madura para encarar um repertório digno de cantoras muito experientes. Boa parte dos saudosos da partida prematura de Elis Regina a enxergou como sua mais fiel discípula. Certa semelhança de timbre, execução de arranjos e seleção de músicas me remetem a Elis nesse disco inaugural de Leila. No entanto, ouvi-lo após mais de três décadas de atividade da artista é como ganhar o presente de um mergulho num lago absolutamente cristalino. A cantora paraense domina com sabedoria, desenvoltura e plena afinação composições de Ivan Lins, Caetano Veloso, Sueli Costa, Martinho da Vila, Toninho Horta e Tom Jobim.

Leila, a jovem mulher (quase menina), canta com tamanha beleza que fico a imaginar a reação de Antônio Brasileiro diante de uma voz tão singular, que aguardava apenas o momento de imprimir o toque minimalista de seus dedos sobre as teclas. “Espelho das águas” nasce com imensidão lírica aberta pelo contrabaixo de Luiz Alves. Revestida pelo arranjo do maestro Alberto Arantes, a música se expande em fluxos luminosos. A natureza que outrora desabrochou em uma vastidão “Verde” vigorosa por meio dessa voz, transcorre suave através do espelho da água límpida de Jobim: “Seria talvez bem mais fácil/ Deixar a corrente levar/ Quem sabe no fundo eu quisesse / Que tu me viesses salvar/ Depois lá no alto das nuvens/ Você me ensinava a voar”.

Plena em seu canto, Leila demonstra neste disco ser portadora de uma pureza quase de feição apolínea. A estrada do tempo foi lhe dando no caminho de flores e espinhos, carne de vida, texturas e contornos de mulher-criadora. Seu casamento visceral com a linguagem poética é anunciado ao longo de cada faixa. Ela revela para o ouvinte toda a sua ampla capacidade (afinação, extensão, dinâmica, timing) no desempenho do ato de cantar. Retomo a memória em ordem sequencial dos discos (desde a época do vinil) e deixo que a emoção me invada e me retroceda até o portal de descoberta do processo tão bonito do desvelar do imenso talento da Leila Pinheiro “intérprete-músico”.

No disco de 1983, a artista interpreta as canções alicerçada por margens mais seguras. Reverência respeitosa diante das criações dos incontestáveis mitos: Edu Lobo, Francis Hime, Sueli Costa, Toninho Horta, Tom Jobim. A faixa “Passarinha” é uma espécie de prenúncio para a passarinha Leila alavancar com seus futuros voos sem rede. Evoé, salve Aldir Blanc e Guinga! Martinho da Vila é o impulso pulsante para começar a carnavalizar: “Voa/ voa passarinha voa/ A gaiola está aberta/ Tu não estais presa mais/ Voa/ bate asas e vai embora/ Mas há perigos lá fora/ Visgos e pedras mortais/ Voa, pra ser livre valem os riscos”.

Pelas mãos do talentoso músico Roberto Menescal, Leila assumiu com gabarito o projeto de comemoração dos 30 anos da Bossa Nova. "Benção Bossa Nova" tocou sem parar em minha casa. Um trabalho mais voltado para o mercado exterior, mas que deixou na terra brasilis a impressão de que a intérprete era eminentemente uma "cantora Bossa Nova". O repertório composto por clássicos como "Batida diferente", "Moça Flor", "Lobo Bobo" "O amor em paz" sucede faixa a faixa numa elaboração de arranjos que fixa nos ouvidos uma linha melódica em traçado contínuo. Marca da sabedoria do mestre Menescal.

Dada a competência e afinidade com que Leila se apropriou do repertório bossanovista, muitos ouvintes passaram a fixar a artista nesse lugar. Uma bela musa da bossa nova, com os cabelos negros e lisos como os de Nara, porém mais longos e com uma franjinha. Uma voz mais hot, com swing e afinação exatas. A restrição a um único gênero seria muito pouco para a aveLeila, que ansiava por muitos voos. Ela enuncia então no disco Outras caras: "Outra palavras são outras causas/ É tudo forma e se transforma/ Cada um é único/ São outras caras/ Outras taras/ Outras falas".

A Leila Pinheiro intérprete-músico é a criadora alquímica que por meio de sua aguda sensibilidade retira o sumo de canções alheias e as transforma em ouro, diamante, pedra preciosa e rara. Composições que por mim passaram despercebidas, ganharam com essa criadora um revestimento de lirismo capaz de romper meu purismo limitador. O disco da artista inteiramente dedicado à obra do cantor e compositor Renato Russo é imbuído de sutis delicadezas. Por meio de seu olhar sobre a criação do compositor, Leila fez com que eu abrisse meus ouvidos para filigranas poéticas. Hoje, a considero a melhor intérprete de Renato Russo. Interpretação tocante da cantora para "Tempo perdido" e “Andrea Doria” ao extrair camadas de poesia que estavam mais ocultas na levada rock and roll do autor. Leila desenrola novelos de lirismo: "faríamos floresta do deserto/ E diamantes de pedaços de vidro/ mas percebo agora / Que o teu sorriso vem diferente”, “Todos os dias quando acordo/ Não tenho mais/ O tempo que passou/ Mas temos muito tempo/ Temos todo tempo do mundo”

É importante frisar que Leila com o passar do tempo foi gravando discos que mostram cada vez mais seu processo independente de "pensar a canção". O álbum em homenagem à parceria Guinga e Aldir Blanc foi realizado graças à força e coragem da artista, que convenceu a gravadora a apostar numa "arte hermética". Guinga, considerado um compositor hermético, demasiadamente erudito, poderia ser assimilado pelo público? A intérprete gravou maravilhas desses dois criadores, numa perfeita união e difundiu pelo país composições dotadas de harmonias muito elaboradas a exemplo de "Catavento e Girassol", "Canibaile", "Baião de Lacan", "Cordas", "Chá de panela".

“Catavento e girassol”, composição de abertura do disco, caiu no gosto de músicos e ouvintes, muitas vezes a identifiquei já nos primeiros acordes, tocados quase sempre por algum violonista. Os refinados jogos de palavras e contrastes que compõem a dança dos encontros-desencontros de um casal de amantes me fascinam: “Meu cata-vento tem dentro o que há do lado de fora do teu girassol/ Entre o escancaro e o contido, eu te pedi sustenido e você riu bemol/ Você só pensa no espaço, eu exigi duração/ Eu sou um gato de subúrbio, você é litorânea”.

Neste disco, Leila deixa muito evidente a qualidade técnica de seu canto. Ela interpreta com segurança total músicas de andamento complexo, com quebradas de ritmo, trava-línguas. Divisões desafiadoras não desencorajam essa artista, que mostra querer sempre se superar: “Eu vou atrás dessas canções baseada numa coisa anterior. O que eu quero dizer. Quem escreveu canções poéticas, quem abordou mais claramente, fortemente, abertamente as questões poéticas. Ela é a minha guia, a música, a harmonia, com esse arranjo que foi feito. Esse arranjo tem que respirar. Ele pode começar por uma introdução. Ele vai se desenvolver, vai para um clímax, participar dessa coisa. A canção fica tão mais explícita, tão mais sugerida. Com mais possibilidades de tocar as pessoas”.

Hermeto Paschoal, o mago da inventividade sonora, é homenageado com uma festa rítmica. A música de Guinga e os versos de Aldir Blanc atuam como base para a intérprete brincar com sua versatilidade vocal. É hora de explorar a alegria de cantar aquilo que se gosta e admira. “Chá de panela” é um ágape sonoro com a participação de Guinga (violão), Jorge Helder (baixo acústico), Paulo Bellinati (viola), Mingo Araújo (percussão), Paulinho da Aba (pandeiro), Gordinho (surdo). Muitas vezes tentei exercitar (com pouco sucesso) minhas habilidades vocais nessa desafiadora música-aula. Leila não perde uma sílaba. Afinação, dinâmica e dicção perfeitas: “Nesse chá de panela que eu senti a vocação: vi que música é tudo que avoa e rasga o chão/ Foi Hermeto Paschoal que magistral me deu o dom de entender que do lixo ao avião/ em tudo há o tom/ E que até pinico dá bom som se a criação é mais/ se o músico for bom.

Momento de encontro de sonoridade etérea na tão bonita “Valsa pra Leila”. Os versos de Aldir Blanc desenham uma aquarela de cores e perambulam pelo universo mágico de maravilhamentos que afagam a anima dos sonhadores, que possuem a música como combustível de vida. Altino, pai de Leila e grande incentivador da filha, participa nesta faixa tocando gaita. Transporto-me para uma viagem no tempo longínquo da infância, com os personagens atemporais da Disney: “Wendy e Peter Pan/ Sem o amanhã”. Passeio na atmosfera ultrarromântica enevoada, enquanto a voz de Leila flutua: “Tu te esfumarás... me neblinarei sobre os telhados, galáxias azuis/ Sonambularás, te voltearei/ gatos lambendo as estrelas// Tu te nublarás, me eclipsarei... /nuvens em nossa cabeça/ Toma, Peter Pan, só um lexotan/ pra que tanto amor não te enlouqueça”.

Leila, com sua intensa carga poética, conclama para que eu me adentre nas profundezas de sua obra-prima. Apenas em formato digital, “Melhor que seja rara” é um disco que considero daqueles definitivos. Caso saia em vinil, será colocado na estante perto dos meus atemporais. Lembro-me de meu amigo baterista Big Charles, que em momentos de gravidade reflexiva dizia : “Tem que sangrar, véia”. “Melhor que seja rara” traz na capa a cor de sangue: vermelho, carmim, escarlate, magenta, rubra.

Resultado de dezesseis anos de pesquisa da cantora e seu amigo, parceiro e produtor musical, o DJ Zé Pedro. Soube que ganharia a princípio o nome: “Disco de tristeza”. Penso que atribuir somente ênfase à tristeza seria restringir um trabalho que aponta para emoções que se misturam. Talvez um eletrocardiograma possa dar conta de mensurar em cada canção as tão distintas sensações que me tomam.

Nesses tempos de reclusão (para os leitores de amanhã aviso que existiu uma época num longínquo ano de 2020 em que as pessoas não podiam se abraçar e andavam de máscaras que cobriam a face do queixo até o nariz), ouvir Leila bateu como um processo meditativo.

Leila, mais que rara, aqui finca definitivamente sua assinatura vocal de criadora, que leva para si todas as canções como se dela fossem. Uma voz de vida e música intensamente vividas. Trata-se da arte de uma criadora que deixa sua marca indelével no cancioneiro nacional. Propriedade de poucos! Na intimidade de seu estúdio doméstico foi dando sua leitura para canções de seu acervo, acrescidas pelas do amigo Zé Pedro. Neste disco o que mais conta é a verdade com que Leila se apresenta, inteiramente crua, somente acompanhada por seu piano certeiro e de feição minimalista.

A única composição de Leila presente no álbum é um texto da escritora Clarice Lispector, musicado por ela. Diz a cantora que a música saiu inteira, fruto daqueles momentos epifânicos de inspiração. Um super blue, que me transporta para o olhar de sensibilidade poética da artista para a canção de Cazuza “Todo amor que houver nessa vida”. Este um clariceano de carteirinha. “Saudade” se transforma também num blues de arregaçar a alma: “Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida”.

Em tantas e tantas escutas, fui deixando que meu ouvido captasse as respirações. Aliás, a respiração chega junto com a voz-vida da cantora. Costumo sempre apreciar mais o compositor interpretando suas próprias músicas. Leila possui o dom raro de escavar belezas submersas desconhecidas pelo próprio criador. “Porque era ela, Porque era eu”, de Chico Buarque, já nos primeiros acordes tocados pela artista imerge numa densidade de uma beleza indescritível. Leila vai fundo numa sequência de acordes que proporciona uma dinâmica grave, intensa na levada da música. Esse seu ofício de criadora-escavadora tem se aprimorado sobretudo em seu trabalho solo: voz e piano.

“Súbita primavera” (Moacyr Luz e Fátima Guedes) contempla o amor maduro, tal qual aquela fruta boa sorvida nos versos de Fernando Brant em parceria com Bituca. A voz de Leila se encaixa com sua sabedoria de intérprete moldada em sua extensa travessia. Os versos de Fátima Guedes cintilam o sentimento do amor por vezes resignado. Amor partilhado na mansidão daqueles que se sabem e se acolhem como parceiros: “Eu quero ser melhor/ Para mim, por você/ Sentir e revelar a dor do prazer/ E para viver bem, feliz em paz/ O tempo volta atrás/ Caminhos se misturam”.

“Melhor que seja rara” é disco para se ouvir repetidamente, incansavelmente, pois cada audição traz uma novidade. Leila tem preenchido todos os meus dias com essa sua rara beleza sonora.

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