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  • Especial 100 anos de Imigração Japonesa

    Japonês sonha com o fim das barreiras no Japão Morando no Brasil há 48 anos, comerciante japonês, residente em Juiz de Fora, sonha com o fim das barreiras entre as nações e comenta sobre as duas culturas

    Marinella Souza
    Colaboração*
    27/06/2008

    "O que mais chama atenção no Brasil é o brasileiro", diz o comerciante japonês Chosho Kikuchi (foto), que há quase cinco décadas adotou o Brasil como lar e, atualmente, escolheu Juiz de Fora para estabelecer sua residência. Ele relembra que ao desembarcar no porto de Santos em 1960, o primeiro choque que teve com a nova cultura foi a precariedade dos automóveis.

    Chosho conta que teve medo de entrar num táxi porque o carro era velho demais. O próximo susto foi a mistura racial. "No Japão é uma raça só, aqui é tudo misturado. Eu vi uma família com três cores andando junto de braço dado e achei muito diferente", recorda.

    Apesar de reconhecer que os costumes, a culinária e os comportamentos são bem diferentes, Kikuchi é capaz de encontrar pontos de contato entre as duas culturas.

    "No Japão, assim como no Brasil, aconteceu uma mudança na forma como a mulher é vista na sociedade. Antigamente elas só cuidavam do lar, hoje elas estudam, trabalham e são reconhecidas. Temos mulheres em todas as profissões, inclusive empresárias".

    O comerciante acredita que essas mudanças são mais um reflexo mundial do que uma questão cultural. "O mundo todo mudou, então, mudam-se os hábitos e as pessoas também". A mistura de japoneses e brasileiros é tão grande que Kikuchi revela que alguns hábitos já estão sendo transformados, inclusive, no Japão.

    Relações pessoais

    Kikuchi conta que as relações entre os seres humanos são muito diferentes nas duas culturas, mas a interferência de uma na outra é inevitável. Se os brasileiros já se renderam aos prazeres de um bom sushi, da acupuntura e da tatuagem, o povo dos olhos puxados já se permitem apertos de mão e, em alguns caso, até um abraço.

    "Por uma questão de respeito com o outro, não há muito contato de corpos, mas hoje existem 300 mil brasileiros, descendentes de japoneses morando lá. Isso acaba mudando os hábitos", diz. A troca é tão intensa, que hoje, kikuchi sente dificuldades em retornar ao Japão.

    "Já estou aqui há muitos anos, a educação é muito diferente. Uma vez fui ao Japão e estava esperando minha tia no aeroporto, joguei um cigarro no chão e imediatamente alguém no microfone mandou que eu jogasse no lixo".

    Outro episódio interessante vivido por Kikuchi em seu retorno à terra natal foi quando ele e o irmão queriam uma informação sobre onde ficava determinada rua. Acostumado aos hábitos verde-e-amarelos, Kikuchi chamou a atenção de um transeunte usando a expressão "psiu" e foi logo repreendido pelo irmão.

    Foto de Kikushi O correto nessa situação, para os costumes japoneses seria que kikuchi saísse do carro, se aproximasse da pessoa com a cabeça baixa, pedisse permissão para falar e, aí, sim, perguntasse o que queria saber.

    O comerciante conta que hoje as relações afetivas entre homens e mulheres, estão um pouco mais liberais, mas ainda estão longe do padrão brasileiro. "Antigamente, quando um rapaz ou uma moça chegava em idade de casar, a família procurava um casamenteiro. Em conversa, falavam sobre o grau de escolaridade da pessoa, a situação financeira, classe social e até a altura. Partindo dessas informações, o casamenteiro ia em busca de um parceiro que fosse compatível. Aí estava o sucesso dos casamentos".

    Hoje ele diz que as coisas são diferentes, mas é fundamental que o rapaz peça permissão para a família da moça. Família, aliás, é coisa muito séria para os nipônicos. Tão séria que um mau comportamento de um japonês hoje, pode vir a prejudicar seu neto ou bisneto no futuro.

    "Quando alguém vai ser contratado por uma empresa lá, exige-se a certidão de nascimento, como aqui, mas junto é preciso ter um histórico familiar, que diz tudo sobre a família. Fala de todas as doenças, mortes, crimes, tudo o que pode ter. A pessoa só é contratada se esse histórico for bom. Por isso, a disciplina e a honra são muito valorizadas em todas as famílias", explica.

    Casado com uma brasileira há 42 anos, Kikuchi conta que só não teve mais problemas porque sua família não morava no Brasil. "Ninguém da minha família tinha se casado com estrangeiro e eu tive que explicar para os meus pais que estando no Brasil, seria difícil encontrar uma japonesa. Foi difícil, mas consegui fazê-los entender".

    Globalização

    Kikuchi vê a globalização com muito bons olhos. Para ele, eliminar as barreiras entre os países é muito bom. "Daqui a pouco o mundo vai ser um só. Vamos acabar com as barreiras, assim como acontece no Brasil. A gente pode dizer que quase não existe racismo aqui".

    Ele acredita que a globalização acaba deixando o mundo muito parecido porque os hábitos e costumes levados de um lugar para o outro acabam se assemelhando aos poucos. Kikuchi aposta no potencial do Brasil e acredita que o país ainda vai crescer muito.

    "O Brasil ainda vai ser celeiro do mundo. Todos os países estendem a mão para o Brasil porque sua raça está morando aqui. Tem americano, árabe, japonês, tem de tudo aqui. Só no Brasil é possível três raças de braços dados, sem brigas ou conflitos", avalia.

    foto bandeira brasileira misturada com a japonesa Mas e o Japão, não é um bom lugar? Claro que é! Kikuchi não virou às costas para sua terra natal, muito pelo contrário, ele admira e respeita sua cultura. E reconhece que o Brasil tem muito a aprender com o povo que vive do outro lado do mundo.

    "Existe uma comparação entre as duas nações. Dizem que brasileiro é mais preguiçoso e japonês trabalha muito. Isso é verdade, mas tem uma explicação: no Brasil, um dia é continuidade do outro, mas no Japão a natureza não tem essa tranqüilidade, a qualquer momento pode acontecer um terremoto e as pessoas têm que estar preparadas para isso. É por isso que trabalham mais".

    Para kikuchi, o Brasil tem muito a aprender com o Japão em termos de educação. "Sem estudo não tem como mudar a nação para progredir. Isso é fundamental", enfatiza. Segundo o comerciante, no Japão há uma consciência maior disso e o Brasil deveria aprender a valorizar mais o estudo.

    E o que os japoneses têm a aprender com os nativos tupiniquins? A resposta está na ponta da língua: o samba. "O brasileiro é um povo alegre, festeiro, o clima ajuda muito, mas os japoneses podiam aprender a música, o samba, que são muito bons"

    Completamente adaptado ao Brasil e em especial, a Juiz de Fora, onde encontrou "um povo mais honesto do que o carioca", Kikuchi garante que o Japão agora é só para passear porque os hábitos brasileiros já estão muito arraigados ao seu comportamento.

    *Marinella é estudante de Comunicação da UFJF

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