Aline Maia Aline Maia 8/07/2014

Desarticulando discriminações: o ‘Passinho’ do Brasil para o mundo

Exibido em várias cidades brasileiras e países da Europa, documentário que mostra origem e evolução de movimento cultural nascido entre jovens de favelas cariocas será exibido neste mês em Nova York

PassinhoPoderia um filme referenciar um espaço de desigualdade social sem reproduzir discriminações? Um documentário que objetiva dar visibilidade a um movimento nato da periferia seria capaz de escapar a uma visualidade perversa que reproduz meros estereótipos? Para o cientista social, antropólogo e cineasta carioca, Emílio Domingos, a resposta é sim. Ele é o diretor do longa-metragem 'A Batalha do Passinho – O Filme', produzido pela Osmose. Gravada entre 2011 e 2012, a produção audiovisual chegou às salas de cinema em outubro de 2013 e, depois da estreia no Brasil, já foi exibida também em cursos e festivais no exterior, como na França, Inglaterra, Holanda e Portugal. Em Juiz de Fora, o documentário ganhou projeção durante o Festival Primeiro Plano, em novembro do ano passado. Agora, a obra será apresentada em sessões em Nova York, nos Estados Unidos, programadas para o fim deste mês e início de agosto.

Eleito Melhor Filme na Mostra Novos Rumos da Premiére Brasil – Festival do Rio 2012, e Melhor filme de longa-metragem pelo júri popular no 4º Festival de Cinema Curta Amazônia, 'A Batalha do Passinho' convida o espectador a conhecer a história do ritmo que incorporou ao funk carioca passos do hip hop, de samba, de frevo e do que mais a criatividade juvenil puder convocar. Quem conta a trajetória do movimento são os próprios jovens dançarinos e inventores da moda que já extrapolou os limites dos morros do Rio de Janeiro. Eles são os protagonistas e narradores do documentário. Não há locutor, não há intermediários visíveis. A narrativa é concentrada neles, com poucas inserções de contribuições dos idealizadores das batalhas, como são chamadas as competições do passinho. Os dançarinos falam, dançam, aparecem, se representam.

Para além de enquadramentos que operam no sentido de despertar uma associação do jovem da periferia a situações marginais e de criminalidade, o filme destaca a emergência de um indivíduo que quer ser reconhecido por suas habilidades artísticas e sua criatividade. Ao se apresentar como dançarino para sua comunidade, o jovem em destaque no documentário exerce importante papel na consolidação de novas práticas de lazer, de consumo e de comunicação. A internet que aproxima os passistas (como são chamados os dançarinos) também é a vitrine do movimento para a sociedade, elevando muitos meninos à condição de ídolos e difusores de modas e comportamentos entre os demais.

Em entrevista exclusiva gentilmente concedida por telefone, o documentarista Emílio Domingos falou sobre a obra, a repercussão do filme no Brasil e no exterior, e a importância de evidenciar este sujeito jovem da favela que busca se diferenciar, marcar uma distinção a fim de construir uma identidade própria. Segundo Domingos, há uma curiosidade muito grande em outros países sobre a juventude brasileira. Para ele, 'A Batalha do Passinho' contribui para desarticular discriminações geralmente associadas à juventude da periferia e, ainda, dar mais visibilidade a este movimento cultural nato da favela. Confira, a seguir.

Aline Maia – Qual foi a motivação para a realização do Batalha do passinhodocumentário sobre as Batalhas do Passinho?

Emílio Domingos – Este é o primeiro longa-metragem da produtora Osmose e o meu segundo filme. Trabalho com documentários há muito tempo. Comecei com a pesquisa para documentários, tomei gosto e acabei dirigindo filmes. Meu interesse é por cultura urbana e musical, especificamente no Rio de Janeiro porque é a cidade em que eu vivo. Meu interesse por funk já vem de algum tempo. Eu fiz a pesquisa do filme 'Sou feia, mas tô na moda', da Denise Garcia, de 2004. Pouco depois eu fiz um curta-metragem sobre funk com o Marcus Faustini, um artista múltiplo e engajado nas questões da periferia do estado do Rio. O filme se chama 'Cante um funk para um filme', e é sobre funkeiros em Nova Iguaçu. Em 2011, eu estava organizando uma mostra de filmes sobre funk e fui convidado pelo Rafael Nike e o Júlio Ludemir para ser jurado das Batalhas que eles estavam começando a organizar. Eu aceitei, mas, cinco minutos depois, eu pensei melhor e recusei. Eu disse: a melhor coisa que eu posso fazer em termos de contribuição é registrar estas Batalhas. Eu tenho interesse grande por passinho, eu conheço os garotos desde 2008 pela internet, tenho uma paixão virtual por eles e será uma ótima oportunidade para conhecê-los pessoalmente. A partir disso, eu queria fazer um curta-metragem registrando as Batalhas. Mas, quando eu tive contato com os meninos, eu vi que havia ali inúmeras outras esferas que eu poderia registrar, que eu poderia documentar. O passinho é muito intenso, gera inúmeros temas, inúmeras discussões. Daí, eu fui seguindo e fiz o longa-metragem.

– Você conseguiu patrocínio para o projeto?

- Eu não tive qualquer tipo de patrocínio. As pessoas não conheciam o passinho, não tinham interesse em patrocinar. Eu acabei fazendo um filme independente. Dois anos depois ele chegou ao circuito comercial de cinemas, graças ao apoio de vários profissionais da área que toparam trabalhar no projeto voluntariamente.

- Como foi a recepção no Brasil?

- O filme estreou no cinema em outubro de 2013. Ficou dois meses em cartaz em algumas cidades como Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Sergipe, Salvador, entre outras. Mas, um ano após eu começar a filmagem eu consegui colocar o documentário em um festival do Rio. Era um corte muito avançado da filmagem, mas ainda não era a versão final. Mesmo assim a gente ganhou o prêmio na Mostra Novos Rumos da Premiére Brasil. Ao longo desse período o documentário também circulou em alguns festivais pelo mundo, passou em Harvard (Universidade, Estados Unidos) em um curso de cinema, foi exibido em vários países, como na França, Inglaterra, Holanda, Portugal. O filme tem circulado bastante, felizmente.

- Você tem acompanhado o retorno destas exibições fora do país?

- Eu estive em várias. Eu fiquei sete meses no sul da França para promover o filme. Na Inglaterra, em Lisboa e em Luxemburgo eu também estava presente. O retorno foi excelente porque há uma grande curiosidade sobre o Brasil. Há uma grande curiosidade sobre a juventude brasileira. E o que temos de uma maneira geral é um estereótipo muito grande do que é o Brasil. A imagem que se passa é sempre a mesma, de samba e futebol. As pessoas não conhecem muito outras realidades. Elas ficaram bem encantadas.

- E muitas vezes apenas associam a periferia brasileira à criminalidade e à violência... Você teve esta percepção lá fora?

- Sim. Também tem isso. Muito também em função do cinema brasileiro que explorou bem este gênero de 'favela movie' sob um ponto de vista negativo, somente pela violência.

- A forma como você estruturou o documentário, onde os jovens são os narradores de suas trajetórias, os protagonistas de sua arte, foi uma saída para desarticular estas discriminações e estereótipos?

- Isso é uma premissa do meu estilo de fazer documentários. Eu faço o documentário juntamente com as pessoas que eu filmo. Eu não gosto desta ideia do filme com narrador, com uma terceira pessoa que vai dizer para o telespectador o que é aquilo, o que vai acontecer. O filme para mim é sempre uma relação deste meu contato com o personagem. Tanto eu estou muito inserido no filme quanto eles também estão muito presentes na forma que o filme toma. Até mesmo durante a pesquisa eu contei muito com a participação dos jovens. Então, eu acho que sim. O fato de serem eles mesmos os narradores da própria história legitima mais ainda o movimento criado por eles.

- Depois que grandes empresas entraram como patrocinadoras das Batalhas houve uma mudança no movimento, o passinho ganha nova roupagem e projeções, difundindo-se, inclusive, em outras cidades. Em Juiz de Fora, por exemplo, o passinho tem muitos adeptos. O movimento segue forte nas comunidades cariocas?

- Eu tenho contato com alguns garotos ainda. O passinho continua com uma força enorme nas favelas. Uma nova geração vem surgindo. A minha preocupação é que esta nova turma conheça a história deste movimento cultural. E acho que o filme tem este papel. Minha preocupação é grande em relação a isso: que as pessoas conheçam a história da própria cultura e não a percam.

- Quase um ano depois da estreia nos cinemas, ainda há novidades ou projetos para o documentário?

- Sim. O filme vai ser exibido em Nova York, nos Estados Unidos. Teremos sessões no final de julho e início de agosto. Vai ser associado ao Lincoln Center, um centro bem importante de pesquisa e difusão do cinema e outras artes em Nova York. Participaremos de uma mostra com documentários musicais de todo o mundo. Será muito interessante.

Clique aqui e confira o trailer oficial do documentário 'A Batalha do Passinho – O Filme'


Aline Maia é jornalista e professora universitária. Doutoranda em Comunicação na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Tem experiência em internet, rádio e TV. Interessa-se por pesquisas sobre mídia, juventude e cidadania. Atuante em movimentos populares e religiosos

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Aline Maia Aline Maia 8/07/2014

Desarticulando discriminações: o ‘Passinho’ do Brasil para o mundo

Exibido em várias cidades brasileiras e países da Europa, documentário que mostra origem e evolução de movimento cultural nascido entre jovens de favelas cariocas será exibido neste mês em Nova York

PassinhoPoderia um filme referenciar um espaço de desigualdade social sem reproduzir discriminações? Um documentário que objetiva dar visibilidade a um movimento nato da periferia seria capaz de escapar a uma visualidade perversa que reproduz meros estereótipos? Para o cientista social, antropólogo e cineasta carioca, Emílio Domingos, a resposta é sim. Ele é o diretor do longa-metragem 'A Batalha do Passinho – O Filme', produzido pela Osmose. Gravada entre 2011 e 2012, a produção audiovisual chegou às salas de cinema em outubro de 2013 e, depois da estreia no Brasil, já foi exibida também em cursos e festivais no exterior, como na França, Inglaterra, Holanda e Portugal. Em Juiz de Fora, o documentário ganhou projeção durante o Festival Primeiro Plano, em novembro do ano passado. Agora, a obra será apresentada em sessões em Nova York, nos Estados Unidos, programadas para o fim deste mês e início de agosto.

Eleito Melhor Filme na Mostra Novos Rumos da Premiére Brasil – Festival do Rio 2012, e Melhor filme de longa-metragem pelo júri popular no 4º Festival de Cinema Curta Amazônia, 'A Batalha do Passinho' convida o espectador a conhecer a história do ritmo que incorporou ao funk carioca passos do hip hop, de samba, de frevo e do que mais a criatividade juvenil puder convocar. Quem conta a trajetória do movimento são os próprios jovens dançarinos e inventores da moda que já extrapolou os limites dos morros do Rio de Janeiro. Eles são os protagonistas e narradores do documentário. Não há locutor, não há intermediários visíveis. A narrativa é concentrada neles, com poucas inserções de contribuições dos idealizadores das batalhas, como são chamadas as competições do passinho. Os dançarinos falam, dançam, aparecem, se representam.

Para além de enquadramentos que operam no sentido de despertar uma associação do jovem da periferia a situações marginais e de criminalidade, o filme destaca a emergência de um indivíduo que quer ser reconhecido por suas habilidades artísticas e sua criatividade. Ao se apresentar como dançarino para sua comunidade, o jovem em destaque no documentário exerce importante papel na consolidação de novas práticas de lazer, de consumo e de comunicação. A internet que aproxima os passistas (como são chamados os dançarinos) também é a vitrine do movimento para a sociedade, elevando muitos meninos à condição de ídolos e difusores de modas e comportamentos entre os demais.

Em entrevista exclusiva gentilmente concedida por telefone, o documentarista Emílio Domingos falou sobre a obra, a repercussão do filme no Brasil e no exterior, e a importância de evidenciar este sujeito jovem da favela que busca se diferenciar, marcar uma distinção a fim de construir uma identidade própria. Segundo Domingos, há uma curiosidade muito grande em outros países sobre a juventude brasileira. Para ele, 'A Batalha do Passinho' contribui para desarticular discriminações geralmente associadas à juventude da periferia e, ainda, dar mais visibilidade a este movimento cultural nato da favela. Confira, a seguir.

Aline Maia – Qual foi a motivação para a realização do Batalha do passinhodocumentário sobre as Batalhas do Passinho?

Emílio Domingos – Este é o primeiro longa-metragem da produtora Osmose e o meu segundo filme. Trabalho com documentários há muito tempo. Comecei com a pesquisa para documentários, tomei gosto e acabei dirigindo filmes. Meu interesse é por cultura urbana e musical, especificamente no Rio de Janeiro porque é a cidade em que eu vivo. Meu interesse por funk já vem de algum tempo. Eu fiz a pesquisa do filme 'Sou feia, mas tô na moda', da Denise Garcia, de 2004. Pouco depois eu fiz um curta-metragem sobre funk com o Marcus Faustini, um artista múltiplo e engajado nas questões da periferia do estado do Rio. O filme se chama 'Cante um funk para um filme', e é sobre funkeiros em Nova Iguaçu. Em 2011, eu estava organizando uma mostra de filmes sobre funk e fui convidado pelo Rafael Nike e o Júlio Ludemir para ser jurado das Batalhas que eles estavam começando a organizar. Eu aceitei, mas, cinco minutos depois, eu pensei melhor e recusei. Eu disse: a melhor coisa que eu posso fazer em termos de contribuição é registrar estas Batalhas. Eu tenho interesse grande por passinho, eu conheço os garotos desde 2008 pela internet, tenho uma paixão virtual por eles e será uma ótima oportunidade para conhecê-los pessoalmente. A partir disso, eu queria fazer um curta-metragem registrando as Batalhas. Mas, quando eu tive contato com os meninos, eu vi que havia ali inúmeras outras esferas que eu poderia registrar, que eu poderia documentar. O passinho é muito intenso, gera inúmeros temas, inúmeras discussões. Daí, eu fui seguindo e fiz o longa-metragem.

– Você conseguiu patrocínio para o projeto?

- Eu não tive qualquer tipo de patrocínio. As pessoas não conheciam o passinho, não tinham interesse em patrocinar. Eu acabei fazendo um filme independente. Dois anos depois ele chegou ao circuito comercial de cinemas, graças ao apoio de vários profissionais da área que toparam trabalhar no projeto voluntariamente.

- Como foi a recepção no Brasil?

- O filme estreou no cinema em outubro de 2013. Ficou dois meses em cartaz em algumas cidades como Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Sergipe, Salvador, entre outras. Mas, um ano após eu começar a filmagem eu consegui colocar o documentário em um festival do Rio. Era um corte muito avançado da filmagem, mas ainda não era a versão final. Mesmo assim a gente ganhou o prêmio na Mostra Novos Rumos da Premiére Brasil. Ao longo desse período o documentário também circulou em alguns festivais pelo mundo, passou em Harvard (Universidade, Estados Unidos) em um curso de cinema, foi exibido em vários países, como na França, Inglaterra, Holanda, Portugal. O filme tem circulado bastante, felizmente.

- Você tem acompanhado o retorno destas exibições fora do país?

- Eu estive em várias. Eu fiquei sete meses no sul da França para promover o filme. Na Inglaterra, em Lisboa e em Luxemburgo eu também estava presente. O retorno foi excelente porque há uma grande curiosidade sobre o Brasil. Há uma grande curiosidade sobre a juventude brasileira. E o que temos de uma maneira geral é um estereótipo muito grande do que é o Brasil. A imagem que se passa é sempre a mesma, de samba e futebol. As pessoas não conhecem muito outras realidades. Elas ficaram bem encantadas.

- E muitas vezes apenas associam a periferia brasileira à criminalidade e à violência... Você teve esta percepção lá fora?

- Sim. Também tem isso. Muito também em função do cinema brasileiro que explorou bem este gênero de 'favela movie' sob um ponto de vista negativo, somente pela violência.

- A forma como você estruturou o documentário, onde os jovens são os narradores de suas trajetórias, os protagonistas de sua arte, foi uma saída para desarticular estas discriminações e estereótipos?

- Isso é uma premissa do meu estilo de fazer documentários. Eu faço o documentário juntamente com as pessoas que eu filmo. Eu não gosto desta ideia do filme com narrador, com uma terceira pessoa que vai dizer para o telespectador o que é aquilo, o que vai acontecer. O filme para mim é sempre uma relação deste meu contato com o personagem. Tanto eu estou muito inserido no filme quanto eles também estão muito presentes na forma que o filme toma. Até mesmo durante a pesquisa eu contei muito com a participação dos jovens. Então, eu acho que sim. O fato de serem eles mesmos os narradores da própria história legitima mais ainda o movimento criado por eles.

- Depois que grandes empresas entraram como patrocinadoras das Batalhas houve uma mudança no movimento, o passinho ganha nova roupagem e projeções, difundindo-se, inclusive, em outras cidades. Em Juiz de Fora, por exemplo, o passinho tem muitos adeptos. O movimento segue forte nas comunidades cariocas?

- Eu tenho contato com alguns garotos ainda. O passinho continua com uma força enorme nas favelas. Uma nova geração vem surgindo. A minha preocupação é que esta nova turma conheça a história deste movimento cultural. E acho que o filme tem este papel. Minha preocupação é grande em relação a isso: que as pessoas conheçam a história da própria cultura e não a percam.

- Quase um ano depois da estreia nos cinemas, ainda há novidades ou projetos para o documentário?

- Sim. O filme vai ser exibido em Nova York, nos Estados Unidos. Teremos sessões no final de julho e início de agosto. Vai ser associado ao Lincoln Center, um centro bem importante de pesquisa e difusão do cinema e outras artes em Nova York. Participaremos de uma mostra com documentários musicais de todo o mundo. Será muito interessante.

Clique aqui e confira o trailer oficial do documentário 'A Batalha do Passinho – O Filme'


Aline Maia é jornalista e professora universitária. Doutoranda em Comunicação na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Tem experiência em internet, rádio e TV. Interessa-se por pesquisas sobre mídia, juventude e cidadania. Atuante em movimentos populares e religiosos

Aline Maia Aline Maia 8/07/2014

Desarticulando discriminações: o ‘Passinho’ do Brasil para o mundo

Exibido em várias cidades brasileiras e países da Europa, documentário que mostra origem e evolução de movimento cultural nascido entre jovens de favelas cariocas será exibido neste mês em Nova York

PassinhoPoderia um filme referenciar um espaço de desigualdade social sem reproduzir discriminações? Um documentário que objetiva dar visibilidade a um movimento nato da periferia seria capaz de escapar a uma visualidade perversa que reproduz meros estereótipos? Para o cientista social, antropólogo e cineasta carioca, Emílio Domingos, a resposta é sim. Ele é o diretor do longa-metragem 'A Batalha do Passinho – O Filme', produzido pela Osmose. Gravada entre 2011 e 2012, a produção audiovisual chegou às salas de cinema em outubro de 2013 e, depois da estreia no Brasil, já foi exibida também em cursos e festivais no exterior, como na França, Inglaterra, Holanda e Portugal. Em Juiz de Fora, o documentário ganhou projeção durante o Festival Primeiro Plano, em novembro do ano passado. Agora, a obra será apresentada em sessões em Nova York, nos Estados Unidos, programadas para o fim deste mês e início de agosto.

Eleito Melhor Filme na Mostra Novos Rumos da Premiére Brasil – Festival do Rio 2012, e Melhor filme de longa-metragem pelo júri popular no 4º Festival de Cinema Curta Amazônia, 'A Batalha do Passinho' convida o espectador a conhecer a história do ritmo que incorporou ao funk carioca passos do hip hop, de samba, de frevo e do que mais a criatividade juvenil puder convocar. Quem conta a trajetória do movimento são os próprios jovens dançarinos e inventores da moda que já extrapolou os limites dos morros do Rio de Janeiro. Eles são os protagonistas e narradores do documentário. Não há locutor, não há intermediários visíveis. A narrativa é concentrada neles, com poucas inserções de contribuições dos idealizadores das batalhas, como são chamadas as competições do passinho. Os dançarinos falam, dançam, aparecem, se representam.

Para além de enquadramentos que operam no sentido de despertar uma associação do jovem da periferia a situações marginais e de criminalidade, o filme destaca a emergência de um indivíduo que quer ser reconhecido por suas habilidades artísticas e sua criatividade. Ao se apresentar como dançarino para sua comunidade, o jovem em destaque no documentário exerce importante papel na consolidação de novas práticas de lazer, de consumo e de comunicação. A internet que aproxima os passistas (como são chamados os dançarinos) também é a vitrine do movimento para a sociedade, elevando muitos meninos à condição de ídolos e difusores de modas e comportamentos entre os demais.

Em entrevista exclusiva gentilmente concedida por telefone, o documentarista Emílio Domingos falou sobre a obra, a repercussão do filme no Brasil e no exterior, e a importância de evidenciar este sujeito jovem da favela que busca se diferenciar, marcar uma distinção a fim de construir uma identidade própria. Segundo Domingos, há uma curiosidade muito grande em outros países sobre a juventude brasileira. Para ele, 'A Batalha do Passinho' contribui para desarticular discriminações geralmente associadas à juventude da periferia e, ainda, dar mais visibilidade a este movimento cultural nato da favela. Confira, a seguir.

Aline Maia – Qual foi a motivação para a realização do Batalha do passinhodocumentário sobre as Batalhas do Passinho?

Emílio Domingos – Este é o primeiro longa-metragem da produtora Osmose e o meu segundo filme. Trabalho com documentários há muito tempo. Comecei com a pesquisa para documentários, tomei gosto e acabei dirigindo filmes. Meu interesse é por cultura urbana e musical, especificamente no Rio de Janeiro porque é a cidade em que eu vivo. Meu interesse por funk já vem de algum tempo. Eu fiz a pesquisa do filme 'Sou feia, mas tô na moda', da Denise Garcia, de 2004. Pouco depois eu fiz um curta-metragem sobre funk com o Marcus Faustini, um artista múltiplo e engajado nas questões da periferia do estado do Rio. O filme se chama 'Cante um funk para um filme', e é sobre funkeiros em Nova Iguaçu. Em 2011, eu estava organizando uma mostra de filmes sobre funk e fui convidado pelo Rafael Nike e o Júlio Ludemir para ser jurado das Batalhas que eles estavam começando a organizar. Eu aceitei, mas, cinco minutos depois, eu pensei melhor e recusei. Eu disse: a melhor coisa que eu posso fazer em termos de contribuição é registrar estas Batalhas. Eu tenho interesse grande por passinho, eu conheço os garotos desde 2008 pela internet, tenho uma paixão virtual por eles e será uma ótima oportunidade para conhecê-los pessoalmente. A partir disso, eu queria fazer um curta-metragem registrando as Batalhas. Mas, quando eu tive contato com os meninos, eu vi que havia ali inúmeras outras esferas que eu poderia registrar, que eu poderia documentar. O passinho é muito intenso, gera inúmeros temas, inúmeras discussões. Daí, eu fui seguindo e fiz o longa-metragem.

– Você conseguiu patrocínio para o projeto?

- Eu não tive qualquer tipo de patrocínio. As pessoas não conheciam o passinho, não tinham interesse em patrocinar. Eu acabei fazendo um filme independente. Dois anos depois ele chegou ao circuito comercial de cinemas, graças ao apoio de vários profissionais da área que toparam trabalhar no projeto voluntariamente.

- Como foi a recepção no Brasil?

- O filme estreou no cinema em outubro de 2013. Ficou dois meses em cartaz em algumas cidades como Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Sergipe, Salvador, entre outras. Mas, um ano após eu começar a filmagem eu consegui colocar o documentário em um festival do Rio. Era um corte muito avançado da filmagem, mas ainda não era a versão final. Mesmo assim a gente ganhou o prêmio na Mostra Novos Rumos da Premiére Brasil. Ao longo desse período o documentário também circulou em alguns festivais pelo mundo, passou em Harvard (Universidade, Estados Unidos) em um curso de cinema, foi exibido em vários países, como na França, Inglaterra, Holanda, Portugal. O filme tem circulado bastante, felizmente.

- Você tem acompanhado o retorno destas exibições fora do país?

- Eu estive em várias. Eu fiquei sete meses no sul da França para promover o filme. Na Inglaterra, em Lisboa e em Luxemburgo eu também estava presente. O retorno foi excelente porque há uma grande curiosidade sobre o Brasil. Há uma grande curiosidade sobre a juventude brasileira. E o que temos de uma maneira geral é um estereótipo muito grande do que é o Brasil. A imagem que se passa é sempre a mesma, de samba e futebol. As pessoas não conhecem muito outras realidades. Elas ficaram bem encantadas.

- E muitas vezes apenas associam a periferia brasileira à criminalidade e à violência... Você teve esta percepção lá fora?

- Sim. Também tem isso. Muito também em função do cinema brasileiro que explorou bem este gênero de 'favela movie' sob um ponto de vista negativo, somente pela violência.

- A forma como você estruturou o documentário, onde os jovens são os narradores de suas trajetórias, os protagonistas de sua arte, foi uma saída para desarticular estas discriminações e estereótipos?

- Isso é uma premissa do meu estilo de fazer documentários. Eu faço o documentário juntamente com as pessoas que eu filmo. Eu não gosto desta ideia do filme com narrador, com uma terceira pessoa que vai dizer para o telespectador o que é aquilo, o que vai acontecer. O filme para mim é sempre uma relação deste meu contato com o personagem. Tanto eu estou muito inserido no filme quanto eles também estão muito presentes na forma que o filme toma. Até mesmo durante a pesquisa eu contei muito com a participação dos jovens. Então, eu acho que sim. O fato de serem eles mesmos os narradores da própria história legitima mais ainda o movimento criado por eles.

- Depois que grandes empresas entraram como patrocinadoras das Batalhas houve uma mudança no movimento, o passinho ganha nova roupagem e projeções, difundindo-se, inclusive, em outras cidades. Em Juiz de Fora, por exemplo, o passinho tem muitos adeptos. O movimento segue forte nas comunidades cariocas?

- Eu tenho contato com alguns garotos ainda. O passinho continua com uma força enorme nas favelas. Uma nova geração vem surgindo. A minha preocupação é que esta nova turma conheça a história deste movimento cultural. E acho que o filme tem este papel. Minha preocupação é grande em relação a isso: que as pessoas conheçam a história da própria cultura e não a percam.

- Quase um ano depois da estreia nos cinemas, ainda há novidades ou projetos para o documentário?

- Sim. O filme vai ser exibido em Nova York, nos Estados Unidos. Teremos sessões no final de julho e início de agosto. Vai ser associado ao Lincoln Center, um centro bem importante de pesquisa e difusão do cinema e outras artes em Nova York. Participaremos de uma mostra com documentários musicais de todo o mundo. Será muito interessante.

Clique aqui e confira o trailer oficial do documentário 'A Batalha do Passinho – O Filme'


Aline Maia é jornalista e professora universitária. Doutoranda em Comunicação na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Tem experiência em internet, rádio e TV. Interessa-se por pesquisas sobre mídia, juventude e cidadania. Atuante em movimentos populares e religiosos