Sexta-feira, 27 de novembro de 2020, atualizada às10h25

Concertos marcam o encerramento do 31º Festival de Música Colonial Brasileira e Música Antiga  

Da redação

Os músicos chilenos Cristián Gutiérrez (teorba), Luciano Taulis (viola da gamba) e Antonia Sanchez (oboé barroco) participam pela primeira vez do Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga neste sábado, 28 de novembro. Reunidos em uma velha casa de estilo colonial, de madeira e adobe, cedida por um conhecido luthier e colecionador de instrumentos para a gravação do concerto – já que o uso de lugares públicos como igrejas e teatros permanece restrito no Chile –, o trio apresenta o programa Las Danzas Ocurrentes, que poderá ser visto por streaming no canal do Centro Cultural Pró-Música no YouTube.

O programa parafraseia uma obra de Nicolás Chedeville, compositor e construtor de oboés, e nasce, segundo Cristián Gutiérrez, da profunda ideia da “dança” como grande protagonista do barroco francês e da criação musical que daí decorre. “Junto com a suíte francesa mais formal, acrescentam-se movimentos mais livres e mais próximos da linguagem instrumental, como Prelúdios e Fantasias, onde suítes de diferentes autores se combinam com a ideia de ‘suíte dupla’, pois, longe da ideia de obra acabada, reunimos músicos que provavelmente tocaram e improvisaram juntos”, afirma o músico, ao comentar o programa em entrevista por e-mail à Pró-reitoria de Cultura, referindo-se aos compositores que eram contemporâneos e conviveram na corte.

Outras danças, típicas da vida cortesã – Allemandes, Sarabandes, Courantes, Gigues –, todas originalmente para serem dançadas sob as indicações de coreografias estritas em seus detalhes ou com as explicações específicas de cada uma descritas em um tratado, encontram e exploram possibilidades sonoras diversas, “entendendo que, nesta época, música e movimento [do corpo, no bailar] são um todo”, ressalta.

Dos autores incluídos no programa, sabe-se com certeza que Jacques-Martin Hotteterre, Pierre Danican Philidor, Marin Marais e Robert de Visée trabalharam para Luís XIV, estando os três primeiros músicos vinculados à corte e o terceiro sendo violonista, teorbista e "mestre de violão do rei”. Jacques-Martin Hotteterre nasceu em uma família de renomados construtores de instrumentos de sopro. “Todos esses artistas são estupendos exemplos do bon goût francês em seu nacionalismo e na inclusão deliberada de ‘gostos’ importados, além de virtuoses em seus respectivos instrumentos e na arte da composição”, observa Cristián Gutiérrez.

Dia 28, às 20h, no canal do Centro Cultural Pró-Música no YouTube

* Às 19h, palestra do professor de Música da UFJF Rodolfo Valverde faz a contextualização histórica dos programas dos concertos

Domingo

Virtuose do violino e um dos mais célebres e influentes compositores do barroco, o italiano Arcangelo Corelli (1653-1713) é destaque no programa do concerto de flauta doce e teorba com o duo formado pela brasileira Isabel Favilla e o italiano Giulio Quirici, estabelecidos na Bélgica, que faz apresentação por streaming neste domingo, 29.

O concerto foi gravado para o festival juiz-forano na sala de música de câmara do Concertgebouw Brugges, uma das salas de concerto mais importantes da Bélgica, informa Isabel Favilla em entrevista por e-mail para a Pró-reitoria de Cultura. “Graças a uma chamada a projetos, pudemos usufruir da sala para gravar, mas preferimos fazê-lo sem ajuda externa para limitar os contatos durante a pandemia”, esclarece a flautista. “Os teatros estão fechados, então muitas salas estão colaborando com músicos, oferecendo o espaço para ensaios e gravações, numa ajuda mútua. Foi uma honra para nós poder usufruir dessa sala com excelente acústica. Muito obrigada ao Concertgebouw Brugges!”, complementa Isabel Favilla.

Pouco se sabe sobre a vida de Arcangelo Corelli, exceto que sua carreira foi principalmente em Roma, onde recebeu patrocínio de mecenas da aristocracia e da nobreza italiana. Era admirado pelo refinamento harmônico de sua obra, que se tornou referência não só para os seguidores já mencionados, como para compositores da grandeza de Bach e Haendel.

Segundo Isabel Favilla, o compositor italiano representa o chamado barroco clássico, o que hoje pode não surpreender – porém, diz ela, “se pensarmos com os ouvidos da época, Corelli foi um divisor de águas em muitos aspectos. Cristalizou formas e a linguagem harmônica do barroco, além de simbolizar uma espécie de nova escola violinística (que deve muito a certas práticas anteriores do século XVII). Então ele se tornou modelo para muitos que vieram depois, violinistas ou não”.

Isabel Favilla se interessou por Corelli por via indireta, mais especificamente a partir de outro compositor ao qual se dedicou nos últimos anos: Charles Dieupart, de quem gravou em 2018 suas sonatas para flauta. “Nessas sonatas há trechos que são realmente copiados de Corelli. Essas citações musicais são muito comuns no barroco, não existia tanto o conceito de plágio”, explica a instrumentista. Dieupart, como muitos outros compositores da época, se apaixonou pela música de Corelli em Londres, onde havia muitos violinistas que haviam estudado com o italiano. “A partir dessas sonatas comecei a me interessar mais por Corelli, pois tinha que ir na fonte e entender essa música. Há muitas transcrições das sonatas de Corelli para flauta, também em Londres, pois o instrumento era muito popular na Inglaterra”, conta.

Dia 29, às 20h, no canal do Centro Cultural Pró-Música no YouTube

* Às 19h, palestra do professor de Música da UFJF Rodolfo Valverde faz a contextualização histórica dos programas dos concertos.

Segunda

A Igreja Matriz de São Martinho do Campo, em Portugal, é o cenário do concerto de encerramento do 31º Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga – Edição Virtual, com o ítalo-brasileiro Marco Brescia e o grupo Cuarteto Alicerce, de Santiago de Compostela (Espanha), na segunda-feira, dia 30. No programa, composições para órgão e cordas de Carlos Seixas, Sammartini e Händel, autores do século XVIII.

“Num momento tão escuro, é um programa de notável beleza harmônica e melódica, que acaricia a alma do ouvinte e deixa no ar uma aura leve e dadivosa. Tanto o inspiradíssimo Concerto em Si bemol Maior para órgão e cordas do milanês Giovanni Battista Sammartini como o contrastante e virtuosístico Concerto em Sol menor para órgão e cordas de Georg Friedrich Händel, com o seu radiante movimento final em Sol Maior, são obras capazes de operar este prodígio: encher-nos o espírito de graça, serenidade e otimismo; é disto que precisamos agora”, afirma o cravista Marco Brescia, em entrevista por e-mail à Pró-reitoria de Cultura.

A exibição do concerto resulta da parceria do evento brasileiro com o Festival Internacional de Órgão de Vila Nova de Famalicão e Santo Tirso, em Portugal, do qual Marco Brescia é diretor artístico. Em mensagem de e-mail à Pró-reitoria de Cultura, em galego, o renomado músico Roberto Santamarina, integrante do Cuarteto Alicerce, agradece à organização: “Obrigado ao Festival por incluir nosso concerto nesta edição tão especial, e desejo a vocês muito sucesso para o futuro. Agradecemos também por manter a sua atividade nestes tempos difíceis, mostrando a criatividade dos organizadores e sua coragem na luta para manter a cultura viva hoje.”

Diante de um cenário mundial em que eventos artísticos de todo tipo estão sendo cancelados e companhias enfrentam a crise com fechamentos e demissões, Santamarina acredita ser imprescindível fazer adaptações para que a cultura sobreviva: “Felizmente a tecnologia hoje permite essa adaptação, e pensamos que concertos virtuais como o que acontece este ano pela primeira vez em Juiz de Fora não serão algo pontual, senão devem inaugurar um modelo que será cada vez mais comum”, prevê. Segundo ele, “temos que tentar ver isso como uma vantagem e uma oportunidade para alcançar mais pessoas na divulgação da cultura. Provavelmente, os festivais e produtores culturais que melhor fizerem essa metamorfose serão os que farão sucesso no futuro”.

O músico Marco Brescia concorda: “É fundamental que festivais do peso e da tradição do de Juiz de Fora deem seguimento às suas atividades, mesmo que de forma virtual, pois não só é uma mensagem de que a cultura precisa seguir adiante, apresar das dificuldades, como é fulcral a ideia de que, em momentos de tanta privação e contenções as mais diversas, é preciso cultivar e vivificar o espírito e, assim, fortalecê-lo para que possa iluminar a tenebrosa travessia que as circunstâncias nos impõem realizar. Um desafio, sem dúvida.”

O diretor do FIO também felicita a direção artística e organização do Festival de Música Colonial Brasileira e Música Antiga de Juiz de Fora por realizar a edição do evento em plena pandemia e “buscar alternativas de qualidade para aglutinar um público, tanto fiel, como novo, em torno da música, alimento essencial do ser humano numa perspectiva humanista, que devemos ter presente mais do que nunca”.

Dia 30, às 20h, no canal do Centro Cultural Pró-Música no YouTube

* Às 19h, palestra do professor de Música da UFJF Rodolfo Valverde faz a contextualização histórica dos programas dos concertos.

O 31º Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga é uma realização da Pró-reitoria de Cultura e Centro Cultural Pró-Música/UFJF.

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