Carta aberta a Deus, por Harrison Nogueira

por Harry Walnut - 05/05/2021

Querido leitor, já me adianto e peço desculpas pelo texto. Eis aqui um desabafo há muito guardado dentro do peito: tenho acompanhado o estado de saúde de nosso querido Paulo Gustavo e sua luta pela vida desde março. Seu estado de saúde não vai nada bem e, ao mesmo tempo em que peço a Deus, ou alguma outra divindade que esteja à disposição de ajudar, que ajude Paulo, travo em mim uma discussão sistemática e insalubre com O Criador diante de nossa situação enquanto sociedade e país. 

Paulo é, inegavelmente, o maior comediante do país da atualidade. Ele é responsável pelo filme de maior público do cinema nacional, descontadas manobras espúrias de certo Bispo. Mas Paulo é muito mais do que isso. Ele vai além do fazer rir. Paulo dialoga com todas as classes, entra em qualquer casa. Através de seu ofício, Paulo consegue falar de assuntos tabus com a maior naturalidade e, assim, consegue transformar um país homofóbico, machista e misógino num lugar menos pior de se viver.

Se Paulo com seu trabalho consegue fazer isso tudo, sua vida pessoal é não menos importante para as minorias acuadas. Ser gay, bem-sucedido, pai e esposo de outro homem, dada sua enorme visibilidade, é também sinônimo de resistência, um farol para anônimos que lutam no meio da multidão pelo mínimo de igualdade. Uma chama de esperança de um futuro melhor para aqueles cujos gritos se perdem em meio à horda de ódio que vem nos cercando.

Ver Paulo se esvair, como que areia entre os dedos, é revoltante. Ver pessoas tão boas quanto ele e tantos outros, famosos ou não, tendo que lutar tão arduamente pela vida é de causar ira aos que acreditam no bem e que lutam por uma sociedade mais justa e menos burra.

Esta carta não é pra Paulo. Esta é uma carta aberta a O Todo-Poderoso, um pedido a Deus. Às vezes penso que Ele criou sua obra mais complexa e, ao ver a lama na qual seguimos, por meios próprios, diga-se de passagem, desistiu da gente, nos deixando a Deus dará – perdoem o trocadilho. Simplesmente nos deu o livre arbítrio e se arrependeu depois de tanta morte, tanta injustiça cometida em Seu nome, tanta extorsão, miséria e ignorância. Seu ofício já não há mais serventia porque nós não somos dignos de sermos sua obra-prima.

Alguns bradarão raivosos, “ateu!”. Assim, eu em verdade vos digo: onde está o caminho, a verdade e a vida?

Onde está a lógica de perdemos pessoas tão boas cujo propósito primeiro é fazer apenas o bem e deixarmos por essas bandas aqueles que trazem a morte, multiplicam a burrice e a desinformação? Se tem alguém aí, onde estás que não responde? Nesse silêncio estático de mais perguntas que respostas, de mais dor que amor, seguimos sobrevivendo. Damos nosso jeitinho, nos esgueirando pelas bordas.
“Para Deus não há lógica”, diriam. Ora, se Ele nos criou sob a égide da lógica, teríamos, portanto, uma limitação de fábrica? Se conseguimos decodificar a realidade sob a perspectiva instrumentalizada da dialética, não me diga, caro leitor, que não há lógica que faça desandar. Ou foi só o acaso que decidiu?
Por aqui seguimos caminhos que nem sempre são claros, as verdades embrulhadas em fake news e a vida se esvaindo pelas frestas escuras do fanatismo. A expectativa de vida caiu, a qualidade de vida piorou, mais de 400 mil amores de alguém se foram e seguimos contando. Alô, alô, Marciano. Aqui quem fala é da Terra! Tem alguém aí do outro lado? Estática no rádio.

A lógica da qual sou feito me lembra das 400 mil famílias cujos soluços chorosos já se perderam abafados pela rotina. 400 mil pessoas significam, em números, 133 onzes de setembro, 1754 aviões da Air France caídos. Nossa dormência segue crescente diante ao amontoado de corpos. Por onde andam os adeptos de hashtags? #prayForBrasil , será que Deus nos deixou ou não tem acesso as redes sociais? Deus nãos nos segue mais? Não dá mais likes em nossos feitos? Não vejo alguma comoção das pessoas. Ou talvez estejam apenas ocupados demais nas ruas, brincando de patriotas e fingindo cumprir seu dever cívico. Bradam palavras em favor da família e de um deus de grafia minúscula e tacanha, se dizem conservadores e estão no terceiro casamento encontrando suas amantes aos fins de semana.
Enfim, se Deus é brasileiro, certamente pediu repatriação por outras bandas. Só há essa lógica concludente diante do exposto. Somos amontoados de átomos a deriva na via láctea e é apenas isso: nada aquém, nada além. Somos um povo feito de carbono, água e burrice. E só.

Fiquem com Deus!
Harrison Nogueira
04/05/2021

#PauloGustavo

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