BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central decidiu manter nesta quarta-feira (21) a taxa básica de juros (Selic) em 13,75%, encerrando o seu mais longo ciclo de aperto monetário.

O colegiado do BC indicou também que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados e que "não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso o processo de desinflação não transcorra como esperado".

"O comitê se manterá vigilante, avaliando se a estratégia de manutenção da taxa básica de juros por período suficientemente prolongado será capaz de assegurar a convergência da inflação", afirmou.

A Selic, que partiu de seu piso histórico ?2% ao ano?, chega ao fim do ciclo no mais alto patamar em quase seis anos. De outubro a novembro de 2016, durante o governo de Michel Temer (MDB), a taxa de juros estava fixada em 14% ao ano.

Ao todo, foram 12 aumentos consecutivos entre março de 2021 e agosto deste ano, com elevação acumulada de 11,75 pontos percentuais.

O atual choque de juros é também o mais forte desde a adoção do regime de metas para inflação, em 1999. Na época, a taxa básica saltou de 25% para 45% ao ano.

Com a decisão desta quarta, o Brasil ocupa a posição de país com a maior taxa real de juros ao ano, descontada a projeção de inflação para os próximos 12 meses, segundo o ranking elaborado pelo portal MoneYou e pela gestora Infinity Asset Management. A lista tem 40 países.

Até fevereiro deste ano, o Brasil estava no topo do ranking, mas foi ultrapassado pela Rússia em março, após o forte aumento de juros no país em meio à Guerra da Ucrânia. Em maio, quando o banco central russo cortou a taxa de 20% para 14% ao ano, o Brasil voltou ao topo da lista.

A decisão do Copom veio em linha com a expectativa majoritária do mercado financeiro. Levantamento feito pela Bloomberg mostrou que a maioria dos analistas esperava que a Selic fosse mantida em 13,75%, enquanto uma parcela menor projetava um ajuste residual de 0,25 ponto percentual.

Desde o encontro anterior do colegiado, em agosto, as projeções de inflação arrefeceram tanto para este ano quanto para o próximo. No período, também houve queda no preço do barril de petróleo no mercado internacional.

No cenário de referência do Copom, as projeções de inflação caíram de 6,8% para 5,8% neste ano e se mantiveram em 4,6% para 2023. Para 2024, o colegiado elevou a previsão de 2,7% para 2,8% (ainda abaixo do centro da meta de 3%). Em seu panorama, adotou a hipótese de bandeira tarifária "verde" em dezembro deste ano.

O BC voltou a optar por dar ênfase ao período até o primeiro trimestre de 2024, no qual a projeção de inflação acumulada em 12 meses é de 3,5%.

"O comitê julga que a incerteza em torno das suas premissas e projeções atualmente é maior do que o usual", disse.

No balanço de riscos, o BC vê fatores que podem gerar desvios da inflação em relação à meta em ambas as direções. Entre as condições que puxariam os preços para cima, o Copom destacou a persistência das pressões inflacionárias globais, a incerteza sobre a situação fiscal do país, o hiato do produto (grau de ociosidade) mais estreito, em particular no mercado de trabalho.

Na direção contrária, indicou a queda adicional dos preços das commodities internacionais, uma desaceleração da atividade econômica global mais acentuada do que a projetada e a manutenção dos cortes de impostos projetados para serem revertidos em 2023.

De acordo com o último boletim Focus, divulgado na segunda-feira (19), a estimativa do mercado para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) de 2022 recuou pela 12ª semana consecutiva, de 6,4% para 6%, e a projeção para 2023 caiu de 5,17% para 5,01% ?quinta queda seguida.

A previsão de inflação mais baixa neste ano incorpora o impacto de cortes de impostos. O país registrou dois meses de deflação (queda de preços), em julho e agosto, puxada pela redução das alíquotas de ICMS sobre combustíveis e energia elétrica.

No acumulado em 12 meses até agosto, o IPCA ficou em 8,73%, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Apesar das revisões para baixo, as projeções continuam distantes das metas perseguidas pelos BC para 2022 e 2023 ?fixadas pelo CMN (Conselho Monetário Nacional) em 3,5% e 3,25%, respectivamente, com tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.

O objetivo deste ano já foi abandonado pela autoridade monetária, que disse no último relatório trimestral de inflação, em junho, ver 100% de risco de estouro da meta em 2022. Dada a defasagem dos efeitos da política monetária na economia, o colegiado toma sua decisão sobre os juros buscando a convergência da inflação "para o redor da meta" no ano que vem e, em menor grau, em 2024.

Apesar do alívio sobre os indicadores de curto prazo, a percepção sobre a resiliência da atividade econômica e sobre as incertezas fiscais para 2023 tem pressionado as expectativas de prazos mais longos.

Nas últimas semanas, as estimativas do mercado para a inflação de 2024 começaram a se deteriorar e avançaram para 3,5%, ante 3,3% na reunião anterior do Copom, se afastando de forma precoce do centro da meta (3%).

Em relação à atividade econômica brasileira, o comitê ressaltou o ritmo de crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) acima do esperado no segundo trimestre (1,2%). Quanto à inflação, disse que apesar da queda recente nos itens mais voláteis, continua elevada.

No ambiente externo, o BC considerou que o cenário se mantém adverso e volátil, destacando as revisões negativas para o crescimento das principais economias, com destaque para a China. O forte aperto monetário promovido simultaneamente pelos bancos centrais dos Estados Unidos e da Europa no combate à inflação alimenta preocupações com o risco de recessão global.

O Copom volta a se reunir nos dias 25 e 26 de outubro, às vésperas de um eventual segundo turno das eleições, para calibrar o patamar da Selic.