BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Aliada do presidente Jair Bolsonaro (PL), a Frente Parlamentar da Agropecuária realizou um encontro com lideranças do setor nesta terça-feira (22) com críticas ao presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e em sinal de que fará oposição ao futuro governo petista.

"O cenário de 2023 é um tanto nebuloso. O governo que está para assumir não é nada simpático ao agronegócio, vê o agro de maneira equivocada", disse o senador Zequinha Marinho (PL-PA), vice-presidente da FPA.

O presidente da bancada ruralista, deputado Sérgio Souza (MDB-PR), disse que a visão da população sobre o agronegócio é corrompida por "lendas urbanas, plantadas ideologicamente".

"[A esquerda coloca] na cabeça do brasileiro que o agro faz mal ao Brasil, que produzir alimentos com defensivos agropecuários é colocar veneno no prato de comida das pessoas, que o agro é responsável pelo aquecimento global", completou.

A fala mais contundente foi feita pelo presidente da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária Brasileira), João Martins. Ele afirmou que o agronegócio não pode se tornar um "campo de batalhas de ideias já mortas e sepultadas em todo o mundo".

"A volta já sugerida da divisão da produção rural brasileira de agricultura familiar e agricultura comercial, para no fundo sacralizar a primeira e demonizar a segunda. Essa é uma divisão artificial, com forte componente ideológico, cujo propósito é politizar uma atividade produtiva."

Martins ainda disse que a produção do agro não merece ser "sobrecarregada por vícios institucionais" e que, com a eleição de Lula, o "fantasma das invasões de terra, tratadas com benevolência por autoridades públicas, aparece novamente no horizonte".

Parte expressiva do agronegócio se aliou a Bolsonaro em sua campanha pela reeleição. O presidente chegou a incluir tratores no desfile de 7 de Setembro, na Esplanada dos Ministérios, para sinalizar prestígio do setor no governo.

Bolsonaro ainda reuniu doação de empresários da agropecuária para custear ações de campanha. Como a Folha mostrou, ao menos dois deles possuem dívidas com a União.

Insatisfeitos com a vitória de Lula, empresas do setor têm investido dinheiro em atos antidemocráticos pelo país que pedem uma intervenção das Forças Armadas para evitar a posse do petista, sob a alegação, sem provas, de que houve fraude no pleito.

O Encontro de Lideranças promovido pela FPA contou com a presença dos ministros das Relações Exteriores, Carlos França, e da Agricultura, Marcos Montes, além do presidente da Câmara, Arthur Lira.

No discurso, França disse que o Itamaraty, pela sua função de Estado, deve "defender os interesses do agro".

"No campo internacional, temos muito o que fazer. Temos que lutar para que medidas que tenham caráter, em princípio, de defesa do meio ambiente não estejam, na verdade, incutindo ações protecionistas que impeçam que o agro brasileiro possa ganhar novos mercados que têm para ganhar", disse.

"Há uma preocupação com a continuidade e sustentabilidade do agro [na gestão petista]. Eu penso que nós, do Itamaraty, temos e teremos no próximo governo uma função de Estado, que é defender os interesses do agro", concluiu.

A despeito das sinalizações dada pelas lideranças do agronegócio no Congresso, o deputado Neri Geller (PP-MT) afirmou à Folha que a ala mais moderada do setor já cedeu e começou a procurar interlocução com o novo governo.

"Tem que conversar. A eleição passou. Se você representa o setor e não está satisfeito com algo, com o custeio, com a taxa de juros a 14%, o que é um absurdo, você tem que sentar na mesa e reivindicar", disse.

Apesar de ter sido procurado por associações do setor, Geller reconhece que parte do agro permanece ligada ao bolsonarismo. "[O cenário deve mudar] quando a gente sentar na mesa e mostrar que o que Lula e o governo PT fizeram pela agricultura é infinitamente maior do que o presidente Bolsonaro", completou.