SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A relação entre a Americanas e seus fornecedores sempre foi muito difícil, afirmam empresários ouvidos pela Folha de S.Paulo que trabalharam com a empresa. Com a entrada da empresa em recuperação judicial, na última quinta (19), o problema deve se agravar -fornecedores são mais de 90% dos 16 mil credores da varejista, estimam especialistas.

A empresa está em crise desde que divulgou, no dia 11, ter encontrado "inconsistências contábeis" no valor de R$ 20 bilhões em seus balanços.

Segundo negócios que vendem para a Americanas os mais diversos tipos de produtos, a companhia já tinha o costume de pedir um prazo longo para pagamento dos itens que comprava. E, ainda assim, os atrasos eram rotina.

É comum que fornecedores deem um prazo para os compradores pagarem, o qual costuma variar entre 30 e 90 dias.

O empresário Marcelo Brandão, que forneceu brinquedos para a Americanas durante quase uma década, porém, afirma que a empresa chegava a pedir 120 dias de prazo para pagar o que comprava, e ainda assim os atrasos eram constantes.

"Quando vencia, eles pediam mais prazo, e só pagavam quando mandavam um novo pedido. Essa é uma prática muito violenta, especialmente para as pequenas indústrias", diz Brandão.

O empresário admite que acabava colocando no preço dos produtos todo esse difícil relacionamento com a Americanas. "Chegava a cobrar de 40% a 50% a mais que o preço praticado com outros clientes, já colocando na conta os atrasos nos pagamentos."

Durante 24 anos, ele comandou a Latoy Brinquedos, localizada no sul da Bahia, que ele vendeu no ano passado para um grupo empresarial.

Anos antes de vender sua fábrica, ele deixou de fornecer para a Americanas, numa decisão que ele classifica como difícil. "Eu faturava R$ 600 mil por mês, e tinha faturas a receber da Americanas que somavam entre R$ 300 mil e R$ 400 mil." Ele afirma que administrar o fluxo de caixa neste cenário sempre foi um desafio.

"Não temos muitos grandes concorrentes da Americanas. Mas nunca tive grandes problemas com outras empresas. A Amazon, por exemplo, tem um sistema completamente digital, e os pagamentos sempre foram feitos no prazo", afirma.

Outro empresário, que dirigiu empresas que forneciam itens de vestuário para a Americanas e também prefere não ser identificado, diz que a empresa pedia prazos de 90 dias para pagar pelos itens comprados, e prorrogava este prazo unilateralmente, para até 240 dias, ou seis meses.

Ele diz que a Americanas chegou a representar cerca de 35% do faturamento total de R$ 100 milhões ao ano, em uma das empresas que comandou.

Procurada para comentar os relatos, a Americanas, por meio de sua assessoria de imprensa, enviou uma nota distribuída aos fornecedores, assinada por João Guerra, atual presidente da companhia.

Nela, a varejista ressalta que tem uma posição de caixa "bem sólida", e assegura que continuará a pagar seus compromissos e obrigações "nos prazos combinados."

Um executivo de uma grande fornecedora da Americanas, que prefere não ser identificado, acusa a varejista de nunca ter primado por uma postura ética, e diz que o pagamento em atraso era uma política da empresa, atingindo grandes e pequenos parceiros.

Ele afirma ainda que possui amigos que alugam imóveis que abrigam lojas da varejista, e estão há meses sem receber os valores devidos.

Por se tratar de um grande cliente, é comum que fornecedores estejam dispostos a fazer concessões. Os relatos, porém, afirmam que a Americanas usava sua posição para adotar um modelo de gestão premeditado para conduzir, aos poucos, o fornecedor para uma armadilha.