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    O processo pedagógico de ouvir: o ato de abrir-se ao outro


    Jungley Torres 11/07/2020

    De modo introdutório, começo o texto com a seguinte indagação “o que é ouvir”? Pretendendo, através de tal indagação, trazer à baila o modo relacional de lidarmos com o “outro”, com o mundo e até mesmo conosco. Tem-se hoje em dia muitos cursos de oratória, de como aprimorar a fala, mas não se tem essa mesma ênfase no processo de escuta, eu nunca ouvi falar em cursos de escutatória. Aqui, nessa breve reflexão, a relação com a palavra não é de produzi-la, mas de recebê-la e por ela, pela palavra, ser “afetado”.

    O ato de ouvir pressupõe o verdadeiro diálogo, pois no processo de ouvir, quando realmente ouço, ouço o que alguém me diz e não apenas o que fala. Podemos afirmar que existe uma distinção entre mero significado e significado pleno: o mero significado fica ao nível das palavras, enquanto que o significado pleno se prende a toda presença significante tornada efetiva por essas palavras ditas. Tal compreensão possibilita o que afirma Buber: “a palavra verdadeira é a palavra dirigida, e é por isso que recebê-la me toca, me afeta de alguma forma. E se não fui afetado, não ouvi realmente”, o que aponta para o poder da palavra e sua afetação.

    O ato de ouvir, portanto, não se resume a escuta auditiva das palavras, mas o ato de ouvir é mais que observar ou escutar, é estar, fundamentalmente, em relação. É no ouvir que se aprende, que se convive, que se dá as relações interpessoais e a “abertura para um todo”, para um conhecimento mais íntimo e/ ou uma relação mais intimista.

    Paulo Freire, que considera o diálogo um tema por excelência, aponta para compreensão de que o diálogo é o encontro dos homens, encontro esse que se dá na relação eu-tu (nós), mas que não se esgota, se renova de forma contínua. É preciso ressaltar que o diálogo não é uma simples conversa, uma forma de entretenimento, ao contrário, o diálogo pertence a natureza do ser humano, é nele que se estabelece a base das relações; o diálogo é o partilhar; é o refletir; é onde brota o pensamento reflexivo e as ponderadas proposições verdadeira.

    É verdade que a humanidade se constitui em suas relações pelas palavras, pelo trabalho, pela ação-reflexão, mas também é verdade que essas relações se dão, de forma fundamental, pela escuta ativa, pelo ouvir e pela abertura ao mundo e ao “outro”. É no ouvir, o ouvir alguém, que remete a uma escuta profunda e/ ou intima, isto é, ouvir as palavras, os pensamentos, a tonalidade dos sentimentos, o significado pessoal que subjaz às intenções conscientes do interlocutor.

    Em suma, o ato de ouvir, não implica somente em escutar, mas em se relacionar, e mais do que isso, se abrir a pensamentos, tonalidade dos sentimentos, o significado pessoal e o significado que subjazem às intenções conscientes, isto é, o ato de ouvir aponta para um processo pedagógico relacional, de abertura ao “outro”. O outro aqui não é visto somente como a terceira pessoa, como um “tu”, mas de forma relacional, como um “nós”. O diálogo, não só falado, mas o ato de ouvir, é a ponte dessa relação íntima e fundamental entre o ser-humano-no-mundo.

    Jungley Torres é filósofo com formações em pedagogia e teologia. Área de interesse: desdobramento dos aspectos ontológicos, existências, hermenêuticos, da subjetividade e fenomenologia. Estudo de discursos e saberes que constituem as práticas educativas; Educação e Linguagem, com enfoque no discurso pedagógico contemporâneo.

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